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iBooks: Uma nova plataforma, um novo formato

20/01/2012 às 23:14

Você nem bem se acostumou aos novos formatos do livro digital e já chegou mais um, o iBooks. Não poderia vir de ninguém menos do que da Apple, aquela que adora ignorar os formatos padrão e criar suas próprias coisas, além de decidir quando algo vai ser extinto – a exemplo de disquetes, CDs, DVDs, ZIPs, entre outros.

Todos estávamos acostumados a pensar que um livro digital teria que ser em PDF. Mas, fora na tela do computador, ele praticamente não tem uso. É uma porcaria ler um PDF em um eReader, smartphone e até em um tablet. Aí surgiu o ePub, um formato aberto baseado em HTML e CSS cujas especificações são decididas por grandes empresas. Logo ele se tornou o formato padrão, usado por quase todos – Apple inclusa –, menos a teimosinha da Amazon, que insistiu no Mobi, um formato bem mais pobre.

Bem, a Amazon usa o Mobi, mas estava tudo bem com o ePub, já que a Apple o utilizava, e isso significava um bom futuro, mesmo com a empresa de Jobs não ligando muito para eBooks. Daí, resolveram inventar. Surgiu o ePub layout fixo, que só poderia ser lido no aplicativo iBooks da Apple. Opa.

Daí, ontem, em um grande evento no museu Guggenheim em Nova Iorque, a Apple resolveu que era hora de "revolucionar a educação". Não revolucionou exatamente, mas deu o start para que novas coisas surjam. Mas está tudo bem? Quais são as implicações nessa sugestão de modelo da Apple? Há mais erros ou acertos? Vamos dar uma olhada.

Novo formato

Já não bastasse a teimosia da Amazon em se manter afastada do ePub, agora a Apple também o faz. Não que tenha se afastado demais – o .ibooks é uma espécie de ePub disfarçado –, mas não é multiplataforma. Mesmo tendo um interior baseado em ePub, não é possível colocar um arquivo desses em um eReader como o Positivo Alfa, ou nook touch, por exemplo. Será necessário possuir um iPad para visualizar o conteúdo.

Há vantagens, e entre elas está a facilidade em produzir conteúdo interativo com a ferramenta – gratuita, veja só! – iBooks Author. Nem a Amazon, nem o Smashwords e nem a Barnes & Noble (ou qualquer outra) possuem uma ferramenta de publicação tão boa e tão simples quanto essa.

É bem mais fácil inserir pop ups, elementos 3D, vídeo e muito mais com o programa. Isso tudo da forma mais simples possível, com interface limpa e intuitiva como só a Apple poderia trazer. Entretanto, é um novo formato a ser conhecido, aprendido e levado em conta na hora de publicar seu conteúdo. Ao invés de facilitar, de unificar, as empresas parecem querer mostrar uma esperteza, tentando convencer a todos de que o seu é o formato certo e mais completo. Só o consumidor perde com isso.

Se a Apple quisesse jogar justo deveria ter feito do formato do novo iBooks um padrão aberto. Claro, isso reduziria os royalties da Apple, bem como acabaria por ceder o controle da mais alta importância da experiência do usuário que Steve Jobs instalou como um valor fundamental da empresa. Mas... ha! Quem está interessado em jogar justo aqui?

Única plataforma

Mais um problema. O aplicativo iBooks Author, que promete facilitar a vida de autores, professores e outros criadores de conteúdo, roda apenas no sistema MacOS X. Sendo assim, isso não facilita em nada a vida de autores que possuem Windows ou Linux, pois estes teriam de mudar de equipamento.

E continuando nessa linha, os livros produzidos no aplicativo só poderão ser visualizados no iPad, iPod touch ou iPhone, e em mais nenhum lugar. É possível exportar o livro para TXT ou PDF, mas não sem perder praticamente 90% da beleza do livro. Se você tem um Xoom, um PlayBook, um Galaxy Tab, esqueça os maravilhosos livros. A Apple está obrigando a todos possuir um iPad para estudar, e é justamente isso que impede que sua solução seja o futuro da educação. Quando tolhemos as escolhas dos usuários, acabamos por não dar nenhuma opção.

Existem tablets mais baratas que o iPad, e isso facilitaria a vida de alunos que não podem gastar muito, ou simplesmente de pessoas que gostariam de modelos diferentes – nada mais normal. Restringir a uma só plataforma, tanto o aplicativo como a visualização, não me parece uma boa jogada.

Um lugar para vender, uma escolha

Mais um exemplo do que eu disse acima. Com o iBooks Author você monta seu livro facilmente, e com um clique pode publicá-lo na... iBookstore. Lógico, a Apple deve puxar a sardinha para o seu lado, mas porque temos que nos ver diante de uma nova Amazon? Isso obriga o consumidor a ter um Kindle caso ele queira ler ficção, um iPad caso precise de livros educacionais, e sabe-se lá mais quantos aparelhos para ter acesso a todo seu conteúdo.

Se você quer publicar um livro, TEM que escolher ou a Amazon, com seus programas de empréstimos, ou a Apple ou qualquer outra. A briga hoje em dia é pelo conteúdo, e essas empresas estão mostrando as armas que têm para conseguir isso. Enquanto a Amazon joga um "Quer vender bastante? Publique aqui!", a Apple joga "Quer produzir livros lindos de forma fácil? Publique aqui!".

Direitos autorais

Com a facilidade de publicação, a Amazon já enfrenta sérios problemas de plágio, e precisa de um software rodando 24 horas em busca de conteúdo copiado. E eles aparecem aos montes. Com a publicação por um clique e a facilidade de fazer livros, esse número deve ficar ainda maior.

E como a Apple vai combater isso? Será que irá utilizar-se dos mesmos métodos com que já classificava os livros anteriormente? Será que vai proibir conteúdo erótico ou pornográfico como fazia antes? Se sim, cadê a liberdade no processo?

Mais acesso, mais popularização

Apesar dos pesares, alguém tinha que fazer isso, jogar a questão dos livros didáticos e interativos no holofote. E ninguém sabe fazer isso melhor do que a Apple. Foi ela que, de certa forma, resolveu o problema da música. E foi ela também que popularizou os apps para smartphones, e simplesmente trouxe à luz o que deve ser um bom smartphone.

Com seu novo projeto, está sacudindo a cadeira de todos, sejam editoras, autores, desenvolvedores e até alunos, que agora podem conhecer quais as vantagens desse novo sistema. Talvez ninguém seja tão popular quanto à Apple, mas é fato que de agora em diante deverão surgir novas empresas, start-ups e outras com soluções para os didáticos.

O preço está justo, por enquanto. A Apple fica com 30% de cada venda quando um livro é vendido através de seu ecossistema iTunes. Os autores têm a capacidade de definir seus próprios preços, com um limite de até US$14,99 e têm a opção de publicar livros gratuitos. Se você escreve um livro pago, tem a opção de oferecer uma amostra, mas se o livro for gratuito não há opção de amostra.

Mas o que é o iBooks?

Não é nada tão ruim quanto parece. O novo formato é muito parecido com o ePub, na verdade, é um ePub disfarçado com uma máscara, por assim dizer. Quando abrimos o aplicativo iBooks Author – programa gratuito fornecido pela Apple para editar livros facilmente –, podemos salvar um novo livro digital nos seguintes formatos:

  • TXT: Salva apenas o texto do livro, em modo puro.
  • PDF: Em três qualidades diferentes, com a possibilidade de senha, mas mal formatado no geral, deixa bordas brancas ao redor do livro. Serve mais para visualização, e não para comercialização. Perde todas as interações.
  • .iba: Quando salvamos o livro digital sem exportá-lo para nenhum lugar.
  • .ibatemplate: Salva o livro como um template para ser utilizado em outros livros.
  • .itmsp: Após salvar o livro e pedir sua publicação, esse é o formato que é salvo. É esse arquivo que você deve enviar para o iTunes Producer e publicá-lo na iTunes Store.
  • .ibooks: Finalmente, esse é o arquivo do livro que pode ser aberto e consultado no iPad. De acordo com a Apple, ele não pode ser vendido se não na iBookstore.

O formato principal é o .ibooks. De acordo com Erica Sadun do TUAW, o formato iBooks aparece como uma variante do ePub específico para a Apple. Como o ePub, é um arquivo zipado que contém um arquivo dos materiais que compõem o livro. Dentro, você encontra uma pasta Open Packaging e uma pasta META-INF Open Container Format, com seu arquivo container.xml. Ao contrário ePub com a sua aplicação/xhtml + xml, o iBooks usa aplicação/x-ibooks+zip.

Os widgets

Uma função interessante do aplicativo iBooks Author são os widgets. Eles provavelmente são baseados em javascript, como qualquer outro livro digital com os mesmos recursos. A vantagem está em já se encontrarem prontos, a pessoa que está fazendo o livro só precisa determinar ajustes como texto, cor, tamanho, entre outros. São eles:

  • Galeria: Adicione uma sequência de imagens pela qual seus leitores podem passar, cada uma com sua própria legenda personalizada.
  • Mídia: Adicione um arquivo de filme ou áudio que seus leitores podem reproduzir.
  • Revisão: Adicione uma sequência de perguntas interativas de múltipla escolha ou de arrastar ao destino.
  • Keynote: Adicione uma apresentação no Keynote (exportada como HTML).
  • Imagem interativa: Use rótulos (às vezes chamados de balões explicativos), visão panorâmica e zoom para fornecer informações detalhadas sobre partes específicas de uma figura.
  • 3D: Adicione um arquivo 3D COLLADA (.dae) que os leitores podem girar.
  • HTML: Adicione um widget Painel (.wdgt).

Lembramos que a publicação de livros ainda não está disponível oficialmente no Brasil. Também não há loja de livros oficial por aqui. Para publicar um livro na Apple, há alguns outros jeitos. Um deles e contar com empresas que terceirizam o serviço, como o Smashwords. Por aqui, só podemos especular.

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