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A terrível e perigosa fonte de radiação na sua gaveta

19/01/2012 às 13:06

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Dizem que em ciência não há indicação maior de que há uma grande descoberta esperando para ser achada do que quando um cientista diz a frase “Humm, isso é esquisito”. Os grandes saltos acontecem quando o Universo não se comporta da maneira esperada, e como todo Cosmos arrogante, ignora os modelos teóricos, atrapalhando a vida de cientistas que nunca lhe fizeram nada.

Um bom exemplo é encontrado na área da Tribologia, um campo da ciência que estuda os efeitos e interações entre superfícies. É a triboluminescência, um fenômeno registrado pela 1a vez em 1620, pelo delicioso cientista Francis Bacon. Ele documentou que cristais de açúcar quando partidos no escuro emitiam flashes de luz.

Com o tempo outros fenômenos foram registrados. Em 1675 um astrônomo chamado Jean-Felix Picard (nome ridículo pra alguém ligado a espaço) percebeu que seu barômetro brilhava no escuro, na área de vácuo onde não havia Mercúrio. O fenômeno era causado pela eletricidade estática gerada pelo Mercúrio se esfregando no tubo de vidro (ui!).

Por muito tempo imaginou-se que esses fenômenos de geração de luz fossem de baixa energia, mas logo o Universo (sempre ele, esse chato) mostrou que não está nem aí pro senso comum. Surgiu um modelo sugerindo que sob certas condições elétrons de alta energia poderiam ser emitidos.

A teoria é que quando você separa muito rápido duas superfícies antes unidas não dá tempo pras cargas elétricas se equilibrarem, isso irrita profundamente os elétrons, que gritam “SCREW YOU GUYS, I’M GOING HOME” e decidem que na falta de lugar pra ser partícula, serão ondas de alta energia.

Embora uma faixa seja mais concentrada, estatisticamente podem ser gerados elétrons em todas as faixas de energia, e em algum momento surgirão exemplares no campo dos raios-x.

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Aí entra um cidadão chamado Carlos Câmara, que fazia pós-doutorado na UCLA, em 2008. Lendo relatos obscuros juntando poeira em alguma biblioteca ele descobriu um texto russo dos anos 50 onde pesquisadores afirmavam ter observado fita durex emitindo raios-x.

Como todos sabem que na Rússia soviética os raios-x emitem fitas durex, e não o contrário, e como raio-x é um tipo de radiação eletromagnética de alta energia que demanda equipamentos caros, alta voltagem e material típico de cientistas loucos, o normal seria descartar a idéia, mas os russos eram cientistas, não conspiradores de YouTube, e cientistas adoram provar que outros cientistas estavam errados, é a base do método científico.

Quanto mais absurda a afirmação (desde que devidamente documentada e seguindo a metodologia correta) mais divertido é derrubar (ou mesmo comprovar). Por isso Carlos Câmara construiu uma… unidade de vácuo onde colocou um cintilador para detectar radiação, um carretel onde um rolo de fita durex seria desenrolado e selou tudo em vácuo.

Ele e sua equipe ligaram o negócio, desenrolando a fita a uma velocidade de 3cm por segundo. Nem de longe rápido, a energia envolvida era mínima, mas na escala atômica o buraco no Mar de Dirac é mais embaixo.

O resultado foram pulsos de nano segundos de raios-x com energia de 15keV, o contador Geiger ficou doido e logo decidiram que era hora da segunda fase: Usando filmes de raio-x dental, segundo a imemorial tradição de ser a própria cobaia um dos cientistas encostou a mão na câmara, colocou os filmes em cima do dedo e ligaram o desenrolador de fita. O que obtiveram:

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Isso mesmo. Os caras conseguiram emitir raios-x suficientes para fazer uma radiografia, usando fita durex.

O trabalho foi publicado na NATURE, mas a parte mais divertida é que ainda não há nenhuma explicação convincente para o fenômeno. Aqui há um vídeo mais longo e detalhado sobre o processo:

De cara é uma tecnologia que pode ser refinada para substituir os perigosos e caros equipamentos de raios-x de consultórios dentários, só pela economia na conta de energia já vale o investimento.

Os raios-x da fita durex são um excelente exemplo de que não é preciso um LHC para identificar fenômenos naturais interessantes, só é preciso inteligência para entendê-los.

Do contrário permaneceríamos como os índios UTE, da região de Uncompahgre, nos EUA. Eles usam cristais de quartzo em chocalhos feitos de búfalo. De noite em suas cerimônias chacoalham seus chocalhos, os cristais batem uns nos outros, emitindo flashes de luz.

A explicação é que são espíritos, e isso os satisfaz, por isso seu conhecimento não mudou em milhares de anos. Felizmente para boa parte dos cientistas a idéia do Espírito da Fita Durex não é satisfatória, e como consequência nosso conhecimento do Universo aumentará mais um pouquinho.

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