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Transgênicos e a lição de Jurassic Park

01/09/2011 às 15:01

genetic-engineering

Existe uma histeria muito grande em torno de organismos geneticamente modificados, mas não consigo compartilhar dele. UMA alteração genética projetada em laboratório, com um objetivo específico, testada à exaustão tem chances de ter consequências inesperadas? Tem, mas e as trilhões de mutações que acontecem todos os dias em todas as plantações e fazendas do mundo? A Natureza conseguiu mutar muito bem, obrigado, sem a Monsanto.

A briga aliás chega a ser desleal. A Evolução não quer saber se é do interesse do Homem que uma espécie permaneça do jeito que está, ela permanecerá se e somente se estiver bem adaptada a seu meio-ambiente. Quando este muda, entra em ação a ordem: Adapte-se ou morra.

 

A Monsanto mudou o ambiente ao desenvolver em 2003 uma semente de milho que produzia uma proteína chamada Cry3Bb1, que tem a propriedade de destruir o sistema digestivo dos gorgulhos.

Paulo_Gorgulho

(não este)

 

Os agricultores adoraram a semente, 1/3 do milho nos EUA carrega o gene modificado, o que significou por vários anos o virtual fim do gorgulho do milho.

Até a Natureza assistir Jurassic Park e aprender a lição do Dr Ian Malcolm: A Vida sempre acha um caminho, das formas mais bizarras. Peixes-palhaço vivem em colônias dominadas por uma fêmea. Quando ela morre o macho dominante muda de sexo e vira a nova “rainha”. Isso mesmo, crianças, Nemo não era nem Ariel, era Ariadna!

No caso dos gorgulhos a boa e velha seleção natural eliminou os insetos afetados pela proteína, dando espaço para que elementos com mutações aleatórias que os tornavam imunes à proteína se reproduzissem mais. Agora um fazendeiro em Iowa reporta que seu milharal geneticamente modificado está sendo comido por super-gorgulhos imunes à proteína.

Por sorte eles não são imunes a uma outra semente modificada por um concorrente da Monsanto, mas logo serão.

Há uma ilusão de que organismos geneticamente modificados são a solução para todos os problemas, mas no caso das pragas agrícolas, são só mais uma arma em uma guerra eterna. Não é bala mágica, alterar intencionalmente um gene para criar uma defesa é uma forma mais rápida do que experimentar dezenas de milhares de plantas, achar uma naturalmente resistente e então cloná-la, método até então usado por todo mundo.

Esse método “natural e orgânico”, apregoado como muito mais bonzinho que as malignas modificações genéticas rendeu desastres econômicos, como a Doença do Panamá.

As pessoas gostam de comprar frutas familiares, então uma banana deve ser o máximo possível parecida com outra banana. Isso levou ao cultivo de uma única espécie, com seleção artificial de exemplares da Gros Michel, uma variedade popular por resistir a longas viagens. Logo todas as bananas consumidas em larga escala no mundo eram da mesma família, parentes próximos.

Veio a Doença do Panamá, um fungo que se espalhou como fogo em todos os países produtores. Nos anos 50 a espécie foi varrida do mapa, deixando milhares de produtores na miséria, e o povo sem bananas.

Descobriu-se então a Cavendish, uma variedade resistente ao fungo do Panamá. Só que a paz não durou. Surgiu uma nova versão da doença, chamada TR4. Ela afeta a Cavendish, e não há tratamento, pois o fungo é imune a fungicidas. Estima-se que em 10 ou 20 anos a Cavendish estará extinta para produção em larga escala.

As espécies sobrevivem a doenças graças a sua variação genética. Estatisticamente sempre aparecerá alguém imune, Não é mágica, é Evolução. E isso vale até para AIDS. 5% dos portadores de HIV nunca desenvolverão a doença. Para seus sistemas imunológicos cheios de pequenos leucócitos com a cara do Chuck Norris, o HIV é só mais um vírus vagabundo.

A monocultura levada ao extremo como no caso da banana é uma lição bem clara, por isso não há muitos esforços em clonar animais em grande escala. O prejuízo de um rebanho inteiro morrendo por alguma doença que só afetaria 10% das cabeças é algo que nenhum fazendeiro quer cogitar.

A lição é clara: O Homem pode brincar de Darwin mas no final a Natureza sempre vence.

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