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Pode comemorar: Hoje e sempre, Ela merece.

19/08/2011 às 11:49

De acordo com o Sistema Internacional de Unidades, o tempo é das sete medidas fundamentais e apesar de passar rápido demais, felizmente, deixa as suas marcas.

A exemplo de uma outra manhã de 1839, também 19 de agosto, que mudaria totalmente a maneira com a qual o homem registraria o tempo no futuro.

Milhares de dispositivos tem sido criados para capturar e contar o tempo, embora nenhum deles tenha sido tão amplamente eficiente em ir além de, senão apenas, aprisionar de maneira temporária a sua medição quanto a fotografia.

François Arago, físico, astrônomo e político Francês, foi seu primeiro padrinho e fez o anúncio oficial na Academia de Ciências e Artes de Paris, onde ninguém imaginaria o quão odiosa e resistente poderia ser a repercussão pública diante de uma idéia capaz de mudar o mundo.

O físico Louis Jacques Daguerre havia desenvolvido um processo capaz de transportar a luz do mundo 'real' para dentro de algo que seria chamado depois de grafia visual; ou simplesmente a fotografia que conhecemos hoje.

Daguerreotipo

"O Daguerreotipo"

A audiência da Academia ouvia em silêncio os pormenores de apresentação da notável descoberta, tanto espantada quanto crescentemente reativa. Nascia o Daguerreótipo e a relação do homem com o tempo não seria mais a mesma.

Afinal de contas, como poderia uma pequena caixa de madeira cheia de traquitanas reproduzir a realidade melhor do que os proeminentes artistas da época? Não poderia ser, mas era.

Com o advento de novas técnicas de pintura durante o nascimento do Impressionismo, e cujo foco era exatamente o uso e a transposição da luz, a fotografia não teria uma tarefa fácil em ser aceita. Acredite, após passado o espanto, a idéia era bem mais do que um absurdo. Era uma blasfêmia.

Baudelaire em carne e osso dizia publicamente entre um escândalo e outro, que não considerava a fotografia sequer como uma expressão daquilo que entendia como arte. Não demorou muito para que outros se juntassem ao coro que atribuiria a Daguerre o título de "O Imbecil dos Imbecis" ou como mais comumente era chamado em baixo tom pelos colegas de academia, "L'idiot Nouveau" (O Novo Idiota).

Daguerre havia patenteado sua idéia nos EUA e na Inglaterra, antes de doar sua invenção ao governo Francês, tornando-o de domínio público. Esse gesto, de assegurar-lhe o registro histórico e depois doá-lo para o seu próprio país, parecia ser uma forma silenciosa de expressar o seu crescente desprezo e surpresa diante da agressiva resposta oferecida por seus próprios compatriotas. Mas Daguerre ainda viveria para ver todo o mundo se unir à eles em apenas alguns dias.

Uma lâmina de prata, sensibilizada com vapor de iodo e que, exposta por 20 a 30 minutos dentro de uma câmara escura, poderia converter a reação de iodeto de prata em cristais metalizados de prata. Esses cristais eram o que iriam compor o que se conhece como uma imagem latente. Ou seja, a exposição de áreas com mais luz (ou registros), junto da sub-exposição de outras áreas onde a prata metalizada não era registrada. A revelação desta combinação era exposta em uma imagem por meio da adição de vapor de mercúrio e, Voilá, a foto-grafia estaria devidamente composta.

Niniepce

"A primeira imagem considerada como registro fundamental da fotografia, tirada por Nicéphore Niépce, França, 1825"

Com a incrível repercussão, o Daguerreótipo ganhava terras além-mar e posicionava a França como o epicentro de pesadas retaliações artísticas, filosóficas e até mesmo religiosas, através de duríssimas críticas que pintavam uma cena impossível, grotesca, quase balcânica, ao redor de Daguerre.

Um jornal alemão, o Leipziger Stadtanzeiger, publicaria naquela mesma última semana de Agosto de 1839 o seguinte:

”Deus criou o homem à sua imagem e a máquina construída pelo homem não pode fixar a imagem de Deus. É impossível que Deus tenha abandonado seus princípios e permitido a um francês dar ao mundo uma invenção do Diabo”.(Leipziger Stadtanzeiger ,26.08.1839, p.1)

Não se poderia conceber uma nova concepção da realidade e Daguerre fez valer quaisquer das pressuposições da memética, partindo e convertendo-se de iluminado a anti-Cristo, em questão de horas.

A fotografia então, traria ao homem a capacidade de distorcer o tempo, de eternizá-lo para bem além das interpretações impressionistas de pintores e desenhistas da época.

Embora fossem considerados estes artistas como sendo ambos mecanismos e ápices do registro humano para a época, ainda assim, suas obras eram frutos de uma transposição pessoal daquilo que retratavam. Eram visões sensíveis, leituras, transposições íntimas daquilo que viam.

Não existia, até então, algo realmente puro que fosse capaz de 'imprimir' a realidade profunda e explicitamente como ela realmente era, sem a intermediação emocional característicamente humana e sem a qual não se poderia pintar ou desenhar. Naturalmente, tal visão aterrorizaria o paradigma da época. E assim foi.

Além disso, tornar possível ao homem reproduzir a emoção capturada dentro do homem através de seus olhos em um lugar e transpô-la para outras pessoas em outros lugares sem que nada do registro 'real' da imagem fosse perdido, sem que nenhuma interpretação ou intermediação de outrem estivesse presente naquela imagem, era algo que só poderia ter a mão do Diabo.

A fotografia, que continuamente se metamorfa em algo bem mais superficial, trouxe uma colaboração profunda e transformadora para a filosofia e todas as outras artes, multiplicando a relação de intimidade do homem com sua capacidade de registrar aquilo que é real, de navegar pelo tempo e de romper a retina do pensamento durante o registro da vida.

Pode comemorar. Hoje é 19 de agosto.

E ela muito merece.

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