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Os Fogueteiros do NIH

15/08/2011 às 9:40

spacepioneers Era começo de 1957, a Era Espacial mal havia começado, o Sputnik só seria lançado em Outubro, mas um futuro de foguetes, naves espaciais, explorações de novos mundos, novas civilizações já enchiam as mentes e os olhos dos meninos. Dentro todos dois dos mais entusiasmados eram Terence Boylan, de 9 anos e Bruce Cook, seu melhor amigo, 5 anos mais velho, preso a uma cadeira de rodas pela paralisia cerebral, que o impedia de se mover mas não de sonhar.

Os dois decidiram que seriam capazes de construir um foguete; ninguém deu bola, claro, dois garotos esquisitos iriam replicar a tecnologia que somente as maiores mentes da Força Aérea dominavam?

Mesmo assim o pai de Terence não vetou o projeto. O Dr John Boylan, médico e pesquisador sabia que a curiosidade deve ser recompensada, não punida.

Os dois passaram semanas na biblioteca municipal de Amherst, Estado de New York. Acharam uma estante inteira dedicada a astronáutica, construção de foguetes e Werner Von Braun. Pacientemente devoravam os livros, tentando entender o que fosse possível, estudando os diagramas e gráficos.

Fizeram alguns protótipos em madeira de balsa, mas eles se desmanchavam. Era preciso algo mais sólido. Terence decidiu usar Alumínio, mas já haviam usado todas as mesadas e economias de dinheiro do lanche. Eles precisavam de verba. Lembrando que o pai era um pesquisador, Terence perguntou de onde vinham os recursos que bancavam suas pesquisas.

“Do Instituto Nacional de Saúde”

O NIH é um órgão de fomento a pesquisas que em 1957 financiou US$123 milhões em projetos. Calcula-se que 70 das principais descobertas até hoje na área de saúde foram feitas com verba do NIH, e contam com mais de 100 Prêmios Nobel em seu portfólio.

Claro, não eram relacionados em nada com pesquisa espacial, mas um garoto de 9 anos não sabe disso. Também não sabe que não pode simplesmente escrever uma carta pedindo dinheiro. Por isso Terence escreveu para o Instituto Nacional de Saúde dos EUA:

Snap198 “Caro senhor;

meu amigo e eu estamos muito interessados em viagem espacial e temos uma grande idéia para um foguete. Estamos imaginando se podemos receber uma pequena soma de dinheiro (US$10,00 [US$77,00 em dinheiro de hoje]) para realizar nosso projeto. Ficaríamos muito gratos se pudessem enviar para nós.

Sinceramente, Terence Boylan”

A carta chegou, junto com tantas outras na mesa de Ernest Allen, chefe do Departamento de Verbas de Pesquisa, o sujeito que fazia a pré-seleção dos pedidos de cientistas de todos os EUA.

Allen havia revolucionado a metodologia de seleção de projetos, criando peer review, painéis de especialistas e vários outros mecanismos. Acima de tudo era um educador por vocação, e sabia o que deveria ser feito.

Na reunião com o Conselho de Avaliação de Pedidos de Verbas, formado por cientistas e empresários TOP, a primeira coisa que Ernest Allen fez foi ler, como pedido oficial a carta de Terence. Ao final da reunião ele voltou para seu escritório e redigiu a resposta.

Nele explica que os membros do Conselho concordaram que o pedido não se enquadra nas pesquisas financiadas pelo NHI, mas também concordaram unanimamente que os garotos deveriam receber a verba, então se cotizaram, tiraram dinheiro do próprio bolso e juntaram os US$10,00. Em anexo, um cheque.

Snap199 Sem saber de nada disso dias depois o pai de Terence recebeu um telefonema de um jornalista pedindo uma entrevista sobre as “verbas de pesquisa”. Achando que era com ele, o Dr Boylan tomou um susto quando apareceram repórter e fotógrafo procurando pelo Terence. Logo estavam nos jornais, como os garotos construtores de foguetes que tinham conseguido “verbas” federais.

Na escola a pressão era grande, afinal com verba eles TINHAM que construir o foguete.

Mesmo com capacidade mental prejudicada e só movendo o braço esquerdo, Bruce era de grande ajuda, prestando atenção em detalhes que escapavam a Terence.

Trabalhando em conjunto os dois projetaram um foguete com uma cápsula onde colocariam um rato, para estudar os efeitos do lançamento em um ser vivo. O pai de Terence ajudava na confecção do combustível, e após um protótipo bem-sucedido, partiram pra confecção do foguete real.

Com mais de 1m de comprimento a nave tinha corpo de tubo de papelão sólido, aletas estabilizadoras de alumínio, uma cápsula com água, comida e acolchoamento para o astrorato e um interruptor de Mercúrio que liberaria uma carga explosiva separando a cápsula com paraquedas do corpo principal, quando o foguete atingisse o ápice de sua trajetória.

Quando acionaram a ignição o foguete não seguiu os planos dos meninos. Subiu, subiu até sair de vista, indo muito além da altitude projetada. Entre extasiados e frustrados, foram para casa. Algumas horas depois recebem um telefonema. A cápsula havia sido encontrada. e nela o recado com o telefone de contato. O foguete estava em Clarence, a quilômetros de distância.

Depois de uma rápida viagem de carro chegaram até o morador que entrara o foguete. Na cápsula, vivo e bem, o rato pioneiro.

A aventura afetou a vida de ambos, e embora não tenha se tornado um cientista, Terence virou um músico de sucesso, excursionando com Linda Ronstad, Bonnie Raitt e os Eagles. Já Bruce Cook teve ali o ponto alto de sua vida. Por um momento não era mais o aleijado da cadeira de rodas que todo mundo olhava com pena ou repulsa. Ele era parte de uma equipe de pesquisas, reconhecido pelo Governo e pela Mídia. E mais além: uma equipe bem-sucedida.

Isso tudo apenas porque um Professor disfarçado de burocrata não negou suas raízes e premiou criatividade e curiosidade com dinheiro do próprio bolso.

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