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Possível fork no GNU/Linux

26/09/2006 às 3:00

A GPL (General Public License) é uma das mais importantes licenças do software livre, sua versão atual foi criada em 1991 pela Free Software Foundation e assegura 4 liberdades básicas:

  1. Você tem o direito de usar o programa para qualquer fim.
  2. Você tem o direito de tirar cópias do programa, distribuí-las ou até mesmo vendê-las a quem tiver interesse.
  3. Você tem o direito de ter acesso ao código fonte do programa, fazer alterações e redistribuí-las.
  4. Você tem o direito (e ao mesmo tempo a obrigação) de redistribuir as modificações feitas.

Funcionando na base do retorne o que você recebeu.

A nova versão da GLP, em seu segundo rascunho bate de frente com algumas dessas liberdades e está recebendo péssimos comentários de desenvolvedores influentes do Kernel do Linux e, inclusive, de Linus (criador e BDFL do Linux).

Os principais pontos de discórdia, são:

  1. Proibição do uso de DRM (Digital Rights Management).
  2. Obrigação de permissão de upgrade em hardwares que utilizem software licenciado sob a GPL.
  3. Proibição de incorporação de software patenteado.
  4. Seção de restrições pode criar uma profusão ainda maior de licenças.
  5. Uso da licença como uma ferramenta para ativismo político.
  6. A versão 3 não melhora nada em relação a versão 2.

Independente de concordar ou não com o DRM, os alguns desenvolvedores do Kernel assinaram um documento no qual afirmam que proibir o uso de DRM em software livre vai de encontro com a primeira liberdade.

O segundo item quer obrigar todos os fornecedores de hardware que utilizem software livre licenciado sob a GLP, forneçam meios para que o usuário possa trocar o sistema do hardware e obter as mesmas funcionalidades.

Esse item é um recado direto ao TiVo que utiliza uma versão modificada do Linux como sistema, mas o hardware lê chaves criptografadas para permitir que o sistema execute, assim, não é possível para o usuário do equipamento instalar sua própria versão do Linux nele, mesmo que os fontes sejam distribuídos, uma vez que as chaves não são.

É clara a intenção de barrar o DRM, novamente, além de eu não conseguir imaginar uma máquina de lavar que ter que disponibilizar uma porta serial (ou algo similar) para que seja possível atualizar o sistema, somente porque ela usa o Linux.

Os maiores colaboradores do Linux, são ao mesmo tempo os maiores detentores de patentes (como a IBM, por exemplo), isto pode ser um tiro no pé, uma vez que pode afastar colaboradores deste porte.

O sétimo item da licença, prevê uma seção de restrições e liberações adicionais.

Uns defendem que isto é a melhor parte da nova versão da licença, como sendo uma forma de compatibilizar e reduzir o número de licenças existentes, uns atacam este item dizendo que este item, na verdade, fará com que a própria GPL seja um monte de variações dela mesma.

Este ponto é talvez o mais controverso, pois a FSF está usando a licença do software para ativismo político contra coisas que a FSF acha errado, aqui entramos em uma discussão antiga sobre o que é liberdade e só essa discussão daria assunto suficiente para vários livros, porém, assim como eu, vários desenvolvedores não acham que uma licença deva ser usada para este fim, mas simplesmente para dizer o que pode ou não fazer com o software e não para dizer o que o usuário final pode ou não fazer.

Neste ponto está uma das minhas discordâncias com o documento gerado pelos desenvolvedores do Kernel, neste documento acusam a FSF de traição, por ter se tornado política.

Isso não é verdade, a FSF sempre foi uma entidade política e, mais dia menos dia, isso era esperado.

A grande traição, ao meu ver é querer usar uma licença aprovada por muitos e utilizada há 15 anos para isso.

A conclusão final do documento e da votação feita na lista de discussão dos desenvolvedores é que o rascunho atual é que, tirando as partes que eles não concordam, a licença não trás nenhuma novidade em relação a versão 2, por isso deve ser abandonada.

Aqui está o maior problema desta licença, os desenvolvedores e mantenedores do Kernel não aceitam esta versão da licença e se for publicada da forma como está o manterão licenciado somente sob a versão 2 e não 2 em diante.

O motivo disto ser um problema é que as versões 2 e o atual rascunho da 3 são incompatíveis, fazendo com que software licenciados sob uma não possam co-existir com os licenciados pela outra.

Para o Linux, além de um enorme trabalho de criar um fork de todos os softwares que utilizam, mantendo-os na versão 2 e talvez a perda de vários desenvolvedores que desejem seguir com a versão 3, não haverá perdas irreparáveis.

Já para o GNU haverá um retrocesso em mais ou menos 15 anos, já que terão diversas ferramentas funcionais, sob a versão 3, mas não poderão utilizar o Kernel do Linux, que se manterá na versão 2. E um sistema operacional sem Kernel, não é um sistema operacional.

Voltaremos a ter um sistema operacional GNU e passaremos a ter um sistema operacional Linux (hoje o correto é GNU/Linux), o que acredito que será mais danoso para a FSF do que para o Linux.

Porém um fork sempre pode ser prejudicial, uma vez que os esforços de desenvolvimento serão divididos.

Na situação atual do draft, eu mesmo não usaria a GPLv3, mudando o licenciamento de tudo para apenas GPLv2.

Uma licença que restringe o que o seu usuário pode fazer com o código, não me parece uma licença livre.

Algumas pessoas estão otimistas que ainda haja mais mudanças em cima deste rascunho, já que houve alguma mudança em relação ao primeiro, mas convencer o Stallman de alguma coisa é bem complicado.

Algumas leituras recomendadas sobre o assunto e fontes de informação:

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