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♫ Here comes the Sun… ♫

Um raro vídeo de um cometa se chocando contra o Sol e o quão insignificante somos nesse universo gigantesco.

16/05/2011 às 10:25

Navinha vindo do Sol.

De todas as aberturas dos seriados de Star Trek, a mais solene é a de Voyager. A música abandona a fanfarra usada nas duas séries anteriores e dá tons de jornada épica. As imagens, embora irreais do ponto de vista científico são belíssimas, a começar com a inicial, uma labareda solar que se dispersa enquanto a nave passa.

Na realidade nenhum capitão que se preza, nem mesmo a Januária, ousaria chegar perto de uma labareda solar. Ou de qualquer estrela, por mais bem comportada que seja. A quantidade de radiação em todas as faixas do espectro é imensa, você seria assado em qualquer comprimento de onda. Uma boa descrição do que seria chegar perto do Sol pode ser encontrada no conto homônimo do clássico livro de Ray Bradbury, "Os Frutos Dourados do Sol".

Mesmo sem chegar perto, podemos espiar de longe e, com sorte, conseguimos ver coisas fantásticas. No último dia 12, por exemplo, o SOHO, da Agência Espacial Européia em conjunto com a NASA, conseguiu um raro filme com dois eventos comuns mas não associados: um cometa sendo engolido pelo Sol e uma ejeção de massa da corona solar.

O SOHO é uma das missões mais bem sucedidas da exploração espacial. Lançado em 1995, a espaçonave de 610 kg orbita o Sol a uns 1,5 milhões de quilômetros da Terra, no chamado Ponto Lagrange L1, uma localização que graças à geometria orbital faz com que um objeto permaneça estacionário em relação a dois outros de massa maior. É como se fosse um satélite, com posição fixa, e não uma nave com órbita independente (o que na verdade é).

A duração da missão do SOHO era prevista pra dois anos, mas quando muita gente inteligente se mete a fazer alguma coisa ou o resultado é catastrófico ou é uma obra-prima, e a nave continua funcionando até hoje, 16 anos depois, e há verba para manter a missão até dezembro de 2012, quando o mundo acabará e o SOHO não será mais necessário.

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Nesses 16 anos de missão o SOHO forneceu toneladas de informações científicas sobre o Sol, além de ter descoberto mais de 2000 cometas, muitos com auxílio de amadores analisando as fotos enviadas diariamente pelas câmeras da nave.

Os dados são transmitidos na excelente (para o que é) velocidade de 200 kbits, através da Deep Space Network da NASA, a DSN, que além de integrar comunicações entre naves e sondas em todo o Sistema Solar, não rouba seu cartão de crédito.

Ah sim, antes de falar “mimimi só 200 kbits”, lembre-se que a SOHO está a 1,5 milhões de quilômetros da Terra e foi projetada no começo da década de 1990, quando você só usava linha discada. Ou fraldas. Ou ambos, se fosse precoce ou pervertido.

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Uma atividade secundária mas muito popular do SOHO é a pesquisa de cometas, o LASCO, um coronógrafo desenvolvido pela Marinha dos EUA se mostrou muito eficiente nessa atividade. Um time de 70 voluntários em 18 países se encarrega de analisar as imagens.

Os cometas identificados têm vida curta, no máximo dias, algumas vezes horas antes de serem engolidos pelo Sol. Alguns escapam, claro. O primeiro desses cometas rasantes foi descoberto em 1680 (não pelo SOHO) e em seu ponto mais próximo passou a menos de 200 mil km da superfície do Sol. Isso é pouco mais de metade da distância entre a Terra e a Lua, a velocidade que esse cometa viajava era imensa, para não ser simplesmente engolido pelo poço gravitacional.

Dia 12 de maio o SOHO fez um vídeo lindo e raro: um cometa relativamente grande, posicionado em um ângulo perfeito, fora do disco solar (assim não tampado pelo difusor do LASCO) em rota de colisão com a superfície do Sol.

Quase simultânea à colisão, uma ejeção de massa do Corona, uma explosão solar ocorre, como se o Sol reagisse ao choque com o cometa. Não foi isso que aconteceu, claro. Uma ejeção dessas é uma explosão que dispersa para o espaço 10 bilhões de toneladas de plasma, a quase 2 milhões de km/h (entendeu por que não era um bom lugar para a Voyager?). A escala é algo inimaginável, ocupa todo um hemisfério de uma estrela com 1,392 milhões de km de diâmetro.

Veja o vídeo:

Repare no contador, veja como a Ejeção de Massa ocorre em menos de 2 minutos. Lembre-se da escala: 1,39 milhões de km de diâmetro.

Agora veja este vídeo e perceba o quanto o Sol é insignificante diante de outras estrelas:

O Universo é fantástico, ainda estamos longe de conhecer mesmo uma ínfima parte de seus segredos, mas cada dia nossos conhecimentos aumentam e as respostas ainda não foram escritas, não estão em livro nenhum.

Você não entende o Universo ajoelhado de cabeça abaixada, e sim de pé, contemplando as estrelas com curiosidade e ousadia.

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