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Percepção: Quando 0% de sucesso é suficiente para evitar uma guerra nuclear

16/04/2011 às 0:05

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Em 1988 terminava, após oito anos um dos conflitos mais sangrentos do Oriente Médio, a guerra Irã-Iraque, ou mais precisamente Iraque-Irã, pois foi Saddam Husseim quem começou. A paz na região não durou, pois todo tirano sabe que é preciso um inimigo externo para manter o povo a seu lado. A saída foi, no dia 2 de Agosto de 1990 invadir o minúsculo Kuwait, um país pacífico, quieto, na dele.

Os soldados kuaitianos lutaram bravamente mas dez anos de militarismo tornaram o Iraque uma potência, e as tropas inimigas foram dizimadas. A idéia de Saddam era iniciar um projeto expansionista,dominando a maior parte do petróleo da região.

A ONU não gostou, e com sua presteza habitual mandou várias cartas bem ríspidas exigindo a retirada das tropas iraquianas. Como Saddam não cedia, foi tomada a decisão de expulsar no braço os invasores. Assim, meros quase seis meses depois, em 17 de Janeiro de 1991 começam os bombardeios a posições iraquianas no Kuwait.

Quieto no seu canto, torcendo para ninguém lembrar de sua existência estava Israel. Os outros países árabes apoiavam a ataque a Saddam, mas Israel entrando na equação complicaria tudo.

Sabendo disso El Bigodon (não o que você pensou) começou a ameaçar atacar Israel com armas químicas. Não foi levado como blefe, Saddam havia dizimado cidades inteiras de civis curdos, como a Sexta-Feira Sangrenta em Halabja, quando entre 3 e 5 mil pessoas morreram em um ataque. No total mais de 100 mil iranianos foram vítimas de armas de destruição em massa. shabatshalommotherfucker

Aí o bicho pegou. Israel aprendeu nos anos 40 o que todo cristão sabe: judeu que dá a outra face vira decoração de cartório. Bateram o pé, disseram “NUNCA MAIS!” e se prepararam. Quando o primeiro Scud caiu em território Israelense dois F15 da IAF, armados com ogivas nucleares de gravidade (em português, bombas) decolaram em direção a Bagdá.

Foi preciso toda a diplomacia dos EUA para fazer com que retornassem.

No dia seguinte as principais cidades israelenses estavam sendo guarnecidas por baterias de misseis Patriot, que detectavam os misseis balísticos inimigos e os explodiam no céu, eu um espetáculo de luz e som.

Mesmo vivendo com as casas lacradas por plástico, mesmo dormindo ao lado ou com máscaras contra gases venenosos, a população israelense respirava aliviada. A grande arma de terror de Saddam havia sido neutralizada. Israel não entraria em guerra. Toda a coalizão de 34 países continuaria com a libertação do Kuwait.

Patriot_missile_launch_b Só que os Patriots não funcionavam. Muito provavelmente NENHUM dos 40 Scuds disparados em Israel pelo Iraque foram interceptados pelos misseis aliados.

AHM?

EU VI, meninos eu vi. Todos na TV prendendo a respiração quando as sirenes soavam na fria noite de Tel-Aviv, um ponto luminoso se aproximava. A câmera tremia e do alto de uma colina próxima subiam dois rastros de luz, certeiros, o Patriot, como o mais nobre dos pilotos suicidas focando sua mente mecânica na única tarefa que justificava sua existência; milhões de cálculos, física e matemática remontando a Galileu determinando em qual ponto do espaço aqueles dois objetos se encontrariam, para que a carga letal de explosivos e esferas metálicas criassem um cone de explosão atingindo o inimigo.

Todos vimos isso, há filmes inclusive!

Todo o problema começou com o Patriot não tenso sido originalmente projetado para interceptar misseis balísticos, e sim aviões. O sistema sofreu inúmeras adaptações, mas nunca foi tão eficiente como deveria.

As limitações também foram de ordem técnica. O primeiro disparo foi acidental, o radar achou que um Scud estava sendo detectado mas não havia nada. Mesmo assim ficou até o fim da guerra contando como uma interceptação bem-sucedida.

Em 25 de Fevereiro, em uma base militar em Dhahran, Arábia Saudita 28 soldados do Exército dos EUA foram mortos quando um Scud atingiu em cheio os alojamentos. O sistema não havia sido projetado para ficar ligado direto, e ali ele já estava no ar a mais de 100 horas. O timer provavelmente utilizava um único registrador de 16bits (ou até 8) para controlar o tempo, então com o passar das horas bits eram perdidos, foi gerada uma discrepância e o radar não estava mais em sincronia com o resto do equipamento.

O radar de rastreio informava uma posição, o computador calculava a diferença de tempo entre a detecção e o momento atual, passava a informação pro radar do míssil, mas como o tempo estava defasado o míssil era instruído a olhar um ponto 600 metros distante da posição real. Não achava nada, abortava o lançamento.

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Técnicos israelenses haviam detectado o problema de sugerido uma solução temporária: Desligar e Ligar de novo o equipamento de vez em quando. (Juro que não foi o Roy). Só que os técnicos americanos não sabiam de quanto em quanto tempo deveria ser o ideal, acabaram deixando ligado.

O software com a correção chegou à bateria de Patriots em Darhan no dia seguinte ao ataque que matou os 28 soldados.

Em Israel os Patriots continuavam sem eficácia, mesmo quando atingiam um míssil, miravam no centro, a ogiva se destacava e continuava caindo. As explosões no solo eram atribuídas a Patriots falhados ou a fragmentos dos Scuds.

ISSO É UM ESCÂNDALO

Não.

Em um mundo ideal os Patriots teriam funcionado. Eles foram criados pra funcionar. Eles falharam como misseis antibalísticos mas funcionaram como algo que nunca haviam sido projetados para fazer: Ser arma anti-terror.

Os Scuds não eram lançados como armas táticas. A precisão era mínima, o estrago insignificante, em termos de uma cidade. Saddam era louco mas não era doido, nunca cumpriu a promessa de lançar armas químicas contra Israel. Sabia que a retaliação seria imediata, provavelmente na forma de uma ogiva de 1 Megaton na ponta de um Jericó 2.

O objetivo dos ataques não eram matar civis, e sim gerar pânico, forçando Israel a entrar na guerra. Os Patriots anularam esse pânico, a população se sentiu protegida.

Não é algo novo. A campanha da 2a Guerra Mundial da população dos EUA em recolher alumínio para aviões, doando panelas foi muito mais para dar uma sensação de participação no esforço de guerra do que efetivamente suprir as fábricas. Algumas das maiores reservas de Bauxita do mundo ficam na Jamaica e no Brasil, minério esse que era exportado direto para os EUA. Compare UM navio com a quantidade de panelas necessárias para lotá-lo.

Isso não inviabiliza o projeto, é uma estratégia para elevar a moral da população, e como tal foram muito bem-sucedidos. É o contrário de palhaçadas como a Hora da Terra, onde você faz algo achando que é útil e cruza os braços depois. No caso o sofativismo e sensação (falsa) de dever cumprido são o oposto do desejado, e a única consequência do “ato simbólico”.

As baterias de Patriot não passavam, como alegam alguns uma sensação de falsa segurança. Elas em verdade tornaram os habitantes das cidades realistas, sabendo que alguns poderiam morrer, com os destroços, mas que de forma alguma aquilo era uma situação apocalíptica como Saddam queria que pensassem.

Hoje as baterias de Patriot estão em sua 4a ou 5a geração, sem bugs (desde que segure direito) e em operação em nada menos que 15 países.

Baseado na experiência com o Patriot foi criado em Israel o Iron Dome, um sistema cujo desenvolvimento custou US$210 milhões e é especializado em interceptar foguetes do Hezbollah atirados do Líbano e da Faixa de Gaza nas cidades israelenses.

No dia 9 de Abril 50 foguetes e tiros de artilharia foram disparados contra cidades no sul de Israel. Embora ainda não esteja disseminado, as poucas unidades disponíveis do Iron Dome cumpriram seu papel, interceptando pelo menos 10 foguetes. Um deles, capturado em vídeo.

Se você for um cínico (ou um realista) dirá que o Iron Dome pode muito bem não funcionar, pode ser que as explosões sejam pura propaganda, e os foguetes continuem caindo, causando pouco ou nenhum estrago mas por causa da divulgação do sistema, a população não esteja mais com medo como antes.

Aí eu pergunto: Isso não é funcionar?

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