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Entrevista: TV Digital ( parte II )

28/07/2006 às 7:00

Esta é a segunda parte da entrevista com o Gerente do Projeto de TV Digital do Instituto Nacional de Telecomunicações, Carlos Augusto Rocha, sobre as pesquisas e produtos para o Sistema Brasileiro de TV Digital.

MeioBit: Então, esse segundo projeto foi totalmente acadêmico?

Carlos: A Linear participou, também, porque nós precisávamos de um parceiro... nós tínhamos só dez meses para fazer, para conceber, desenvolver e concluir o trabalho. Nós precisávamos da parte de RF e foi onde a Linear entrou.

MeioBit: Dez meses para o desenvolvimento de algo tão complexo... vou te fazer agora uma pergunta meio... capciosa. O governo já fez isso de caso pensado? Já fez isso para não ter um padrão nacional e eleger um padrão já existente?

Carlos: Então... dez meses é, realmente, muito pouco tempo... mas era uma exigência do edital...

MeioBit: ... Entendi... Acabou que agora, há pouco tempo, o governo decidiu pelo padrão japonês com algumas adaptações. O que foi desenvolvido pelo INATEL será aproveitado?

Carlos: Não sabemos... porque no acordo do padrão Nipo-Brasileiro, eles falam que vão aproveitar as pesquisas nacionais, mas está em aberto quais pesquisas... o quê será aproveitado.

MeioBit: Não foi definido, exatamente, qual parte será aproveitada?

Carlos: Não foi. No início deste mês, foi publicado o acordo, mas não está claro qual parte da pesquisa vai ser aproveitada.

MeioBit: Tomando uma perspectiva no tempo, muita gente compara a decisão do governo de ter um padrão nacional para a TV digital à decisão de usar o PAL-M, para a televisão analógica. Muita gente acha que isso atrasou a nossa indústria, que tornou nossos aparelhos mais caros... você acha que corremos o risco de acontecer isso de novo?

Carlos: Corremos sim. Eu acho que esse foi um dos principais motivos deles terem tomado essa decisão de, pelo menos a nível de camada física, ser o padrão ISDBT [ o padrão japonês ]. Só que tem uma parte que ainda não está clara para nós, pesquisadores. Uma pesquisa que todo mundo está falando que não vai ficar de fora é o padrão de compressão, que será utilizado o MPEG-4. Mas essa implementação fugiria totalmente do ISDBT... porque ele usa o MPEG-2.

MeioBit: E aí, ficaria um sistema incompatível...

Carlos: Daí, a gente fica pensando: então, por que já não usar tudo nacional?

MeioBit: Já que não vai ser compatível em alguma parte...

Carlos: A gente fica sem entender. Porque, por exemplo, a parte que o INATEL fez: nós usamos uma modulação inovadora, na parte da codificação, usamos um código que não é usado pelo ISDBT e, ainda antes disso, já está o padrão de compressão... que é diferente!

MeioBit: Mas o padrão de compressão não pode ser mudado só pelo firmware? Por exemplo: tem uma setop box lá e o fabricante programa ou MPEG-2 ou MPEG-4 e compatibiliza com determinado padrão...

Carlos: Pois é... mas essa parte também precisa ser desenvolvida... essa interface ainda não existe.

MeioBit: Então, corremos mesmo o risco de ficar atrelados a uma coisa que só tem aqui...

Carlos: Ou seja: realmente, está em aberto o quê será aproveitado... se isso ou aquilo... é preciso continuar essa pesquisa aí...

MeioBit: Quanto tempo você acha que levará para tudo isso virar um produto, vendido na loja do shopping?

Carlos: Olha... pelo que a gente conversa... pelo que a gente vê... em torno aí de doze a dezoito meses, para você ter um setop box Nipo-Brasileiro... uma TV de plasma Nipo-Brasileira...

MeioBit: Hoje já tem alguém transmitindo?

Carlos: Não.

MeioBit: Tem previsão?

Carlos: A intenção é até dezembro, estarem São Paulo e Rio de Janeiro cobertos.

MeioBit: Aqui no "Vale da Eletrônica", a Linear faz transmissores para TV digital. Ela vai produzir mais alguma parte?

Carlos: Nào... ela vai ficar só com transmissores.

MeioBit: As setop boxes, a STB, outra empresa daqui, tem interesse em fazer. E o INATEL está envolvido nessa pesquisa também?

Carlos: No ano passado, nós tivemos um terceiro projeto, onde o INATEL fez uma parceria com a STB para desenvolver o setop box. E foi desenvolvido, mas no padrão DVB-T [ o padrão europeu ]. Agora que foi definido que usaremos o ISDBT, nós estamos trabalhando para obter recursos para uma segunda fase... para adaptar as setop boxes.

MeioBit: Então, a STB já tem um produto, ainda que não seja voltado ao mercado interno...

Carlos: Já tem... inclusive, já está no mercado... já exportam...

MeioBit: Você acha que assim que estiver tudo definido, com os produtos na loja... o Brasil tem condições de exportar esses equipamentos?

Carlos: É uma pergunta difícil de responder... porque não foi definido o quanto, e se, o padrão vai ser diferente do ISDBT...

MeioBit: Se fosse o padrão japonês "puro", a gente exportaria para quem? Para o Japão?

Carlos: O Japão não vai comprar... porque já tem fábricas lá...

[ Nesse momento, seu celular tocou e era uma ligação muito importante... nós tivemos que interromper a entrevista. Infelizmente, quando voltamos, o assunto mudou... ]

MeioBit: O INATEL esteve envolvido, de uma forma ou de outra, nas pesquisas com as duas empresas aqui do "Vale da Eletrônica" que produzem equipamentos para TV digital. Ele recebe direitos autorais? Existe alguma participação no lucro? Ou ele só recebeu a verba governamental?

Carlos: Aí eu não saberia te responder... só o pessoal da área jurídica.

MeioBit: Existe outra grande reclamação na mídia, de que o modelo do negócio não foi discutido. As discussões se detiveram na parte técnica. Em sua opinião, por quê?

Carlos: Desde 1999... 2000... eu vejo o pessoal nas feiras... na SET... discutindo sobre esse ou aquele padrão... e sempre foi mais a parte técnica. Isso se intensificou muito a partir de 2004, com a montagem do SBTVD e sempre foi uma tendência a discussão técnica. O modelo de negócio nunca foi muito abordado.

MeioBit: Da forma como foi definido, nós poderemos ter um canal de alta definição ou quatro canais "normais", não é isso?

Carlos: Isso: quatro canais "standard".

MeioBit: E também interatividade?

Carlos: Também.

MeioBit: Para isso, é preciso um canal de retorno... ele pode ser transmitido pela própria antena? Quais as opções?

Carlos: Não... hoje, o canal de retorno é pela linha telefônica, como é feito na "Sky", na "Directv"...

MeioBit: No Japão funciona assim?

Carlos: Exatamente dessa forma.

MeioBit: O governo pretende usar isso como uma "arma" na inclusão digital?

Carlos: Esse é o principal objetivo. Inclusive, foi um dos motivos de atraso para a definição do padrão. Nós temos uma realidade onde 88% da população é atendida por TV aberta e gratuita, 12% apenas, por TV paga e, desses 12%, somente 8% tem acesso à internet. Então, na definição da tecnologia, a principal característica é tentar fazer esses 88% terem acesso à internet.

MeioBit: Isso, o padrão americano não permitia fazer?

Carlos: Não permitia.

MeioBit: Nem o europeu?

Carlos: Aí, entram outros pontos. Por exemplo: além da interatividade, só o padrão japonês permite a mobilidade.

(Volte para a Parte I)

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