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Entrevista: TV Digital ( parte I )

27/07/2006 às 7:00

O governo bateu o martelo sobre o padrão de TV digital. E agora? De toda a pesquisa feita, o quê, efetivamente, será aproveitado? Em quanto tempo poderemos desfrutar de uma tv interativa ou de alta definição? Como foi o desenvolvimento do sistema?

Para tentar responder a essas e a outras perguntas, entrevistei o Gerente do Projeto de TV Digital do Instituto Nacional de Telecomunicações, Carlos Augusto Rocha.

Para situar o leitor: o INATEL fica na cidade de Santa Rita do Sapucaí, sul de Minas Gerais, também é conhecida como o “Vale da Eletrônica”, devido ao grande número de empresas de base tecnológica.

O Instituto participou da pesquisa sobre o Sistema Brasileiro de TV Digital ( SBTVD ) e formou uma parceria de sucesso com duas empresas, resultando em produtos que já são comercializados. Esta entrevista, apesar de rápida, ficou um pouco extensa para os padrões do MeioBit. Por isso, vou dividi-la em duas partes: uma hoje e outra amanhã. Espero que gostem.MeioBit: Carlos, por favor, como se iniciou o seu envolvimento com a pesquisa em TV digital?

Carlos: Eu sou ex-aluno aqui do INATEL e mesmo antes de formar, já trabalhava na Linear, nessa área de televisão. Daí, aconteceu que no segundo semestre de 2002, o INATEL formou uma parceria com a Linear e submeteram à Finep um projeto de TV digital, para o desenvolvimento dos transmissores utilizando essa tecnologia. Esse projeto foi aprovado em dezembro daquele ano, tendo início logo em seguida, em 2003.
Esse era um projeto do INATEL em parceria com a Linear. Eu já estava envolvido no mestrado aqui [ na faculdade ], era mestrando e me fizeram o convite de vir gerenciar esse projeto, já que eu conhecia muito bem a realidade da empresa.

MeioBIt: Esse projeto já contemplava algo além dos transmissores?

Carlos: Esse primeiro projeto era para desenvolver apenas um transmissor, num padrão de tv digital. Nessa época o Brasil não tinha nada definido sobre qual padrão seria adotado. Então, optou-se por fazer, primeiro, o transmissor ATSC, que é o padrão americano. Essa foi a primeira fase.

MeioBit: Depois isso evoluiu pro que a gente está vendo aí hoje.

Carlos: Exatamente.

MeioBit: No desenrolar do projeto, como você se inseriu no plano geral de pesquisa que o governo patrocinou?

Carlos: Em janeiro de 2005 foi concluído o transmissor ATSC e foi feita a primeira transmissão brasileira, com equipamento totalmente nacionalizado. Já havia acontecido outras transmissões digitais, mas com equipamento importado... o Mackenzie importou... a SET/Abert importou... mas nós fizemos o modulador totalmente nacional, o transmissor totalmente nacional...
Como isso estava sendo bastante divulgado... a gente estava na Telexpo de 2004, onde o INATEL divulgou... a Linear mostrou o modulador digital na NAB de 2004... isso mostrou que saímos na frente. O INATEL era a primeira instituição, em parceria com uma empresa privada, desenvolvendo tecnologia nacional. Daí começou a exportação desse transmissor ATSC para o México, Estados Unidos e Canadá e nós ficamos... meio que como uma referência na parte de camada física. Quem tem, literalmente, um produto acabado, até o momento, é o INATEL com a Linear. O resto, é tudo pesquisa... já tem até resultado... mas não produtos prontos para o mercado.

MeioBit: Quanto foi investido nesse projeto?

Carlos: Nesse primeiro projeto, foi da ordem de sete milhões de Reais.

MeioBit: Tudo bancado pelo governo?

Carlos: Essa parte veio do governo. O total, foi em torno de nove milhões, porque dois milhões vieram da Linear.

MeioBit: Quantos pesquisadores estiveram envolvidos nessa fase?

Carlos: Foram quarenta e sete pesquisadores, contando o pessoal da empresa e da faculdade. Foi divididoo assim: o INATEL ficou responsável pela parte de codificação do sinal e a Linear pela parte de RF e modulação. Então, num primeiro momento, a empresa trabalhou com a parte de amplificadores e filtros lá, na sua sede. E nós trabalhamos a codificação aqui. Quando as partes ficaram prontas, separadamente, os pesquisadores da faculdade foram para o laboratório da empresa para unificar tudo. Isso aconteceu em meados de 2004 e concluiu em janeiro de 2005.

MeioBit: Então, no Brasil, não houve nenhuma outra interação tão forte entre uma instituição de pesquisa e uma empresa privada, na área de TV digital, como essa, feita no sul de Minas.

Carlos: Com uma empresa privada, não. Inclusive, foi uma sugestão que nós fizemos à FINEP: aumentar esse tipo de parceria. Porque a instituição tem seu quadro de docentes, pessoas com grande conhecimento teórico, conhecimentos matemáticos profundos... mas é a empresa que vai transformar tudo isso num produto. De certa forma, essa parceria foi e ainda é muito feliz, porque os diretores da empresa são ex-alunos da faculdade, ex-professores... e devido à proximidade física. Isso facilitou muito o meu trabalho. E como eu vivi treze anos lá, na Linear, conhecia todas a pessoas, todas a dificuldades, todos os departamentos... consegui fazer essa ponte entre os dois grupos.

MeioBit: A Linear está a dez minutos de carro, não é? Até a pé se chega lá, rapidinho...

Carlos: Pois é... pertinho.

MeioBit: E quando o governo decidiu ter um padrão nacional, aconteceu mais algum tipo de pesquisa? Houve outro projeto?

Carlos: Paralelo a esse, que se iniciou em 2003, o governo, em 2004, criou o SBTVD, que seria um "grupo gestor" para cuidar do sistema brasileiro de TV digital. Daí, a FINEP selecionou diversas instituições para fazer parte dessas pesquisas. E o INATEL foi uma das selecionadas. Me parece que selecionaram setente e nove instituições.
Depois, saíram os editais de concorrência, nessa área. Foram vinte e dois editais, montaram-se vinte e dois consórcios... o INATEL participou de um, o de número dezoito, com o objetivo de montar uma modulação inovadora a ser usada no SBTVD. Esse consórcio tinha ainda a participação da Unicamp, da Universidade Federal de Santa Catarina e do CEFET do Paraná. Em março de 2005 saiu o resultado do edital e nós fomos os vencedores e começamos a pesquisa. Esse foi o segundo projeto.

(continua)

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