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Lomografia, Serigrafia e Pictorialismo

23/02/2011 às 16:14

Lomografia

Talvez o título desse texto tenha deixado a maioria de vocês confusos, mas já explico do que se trata. Nessa semana que passou tive contato com duas discussões muito bacanas. A primeira, que teve até uma pequena pontinha aqui no Meio Bit, foi a respeito da Lomografia e da matéria do Jornal O Estado de São Paulo intitulada Noronha, Soi Lomo por Ti. A discussão chegou até os alto escalões do jornal, mas isso não é o principal. O que acho mais importante é que, embora muita gente leve na brincadeira e tenha um apreço pela estética da coisa, o movimento Lomográfico é sério e demonstra uma forma de expressão artística. Arte é fruto de um trabalho intelectual humano e deve (sempre) passar uma mensagem, um protesto, uma forma de ver o mundo. Nem todos os seres humanos estão preparados para entender e apreciar propostas artísticas. Isso depende do grau de instrução do observador e de sua sensibilidade. Você não é obrigado a entender a arte, mas deve respeitar o artista e o seu trabalho.

Fora a discussão se devemos respeitar ou não a Lomografia, se ela é arte ou não, o interessante é que quem pratica e leva a sério o movimento está criando fotografia sobre uma estética diferente. Nada de tentar ser apenas o registro de uma realidade, eles estão intervindo nessa realidade e produzindo algo novo, fora dos padrões. Só por esse motivo já vale a pena dar uma olhada nos trabalhos produzidos. Embora a fotografia digital tenha criado uma facilidade para a produção de imagens e favorecido que um número maior de pessoas tenha contato com a arte fotográfica, o número de imagens sem graça que encontramos nas redes sociais e sites de compartilhamento de imagens é absurdamente grande. Estamos produzindo imagens, mas não estamos passando nossa mensagem. A fotografia se distingue basicamente por ser uma junção de técnica e arte. Estamos muito preocupados com a técnica e estamos esquecendo a arte. Não estamos pensando antes de fotografar. Estamos nos tornado meros apertadores de botão. A facilidade do registro e sua aparente falta de custos estão nos tornando preguiçosos. Por isso que saímos de férias e voltamos com mais de 2 mil imagens (das quais ninguém tem paciência de ficar olhando) ou produzimos mais de 1500 fotos em um casamento onde apenas 50 serão aproveitadas. O pessoal da Lomografia pensa na estética e na composição antes da técnica. Por conta disso, muitos os acham malucos.

Serigrafia

Na outra ponta da discussão, nós temos a serigrafia. Nesse momento vocês podem me perguntar o que tem a serigrafia com a fotografia? Eu poderia dizer que não tem nada a ver, mas também posso dizer que tem tudo a ver. No ano passado, uma oficina de serigrafia foi ministrada aqui na Oficina Cultural de Presidente Prudente. A proposta era trabalhar a serigrafia artística e mostrar suas possibilidades. Eu como leigo não entendia nada disso, mas como Arte Educador fui convidado a ceder uma de minhas fotografias para que fosse trabalhada junto com a serigrafia. Escolhi aquela que considero minha melhor imagem e deixei que criassem sobre ela. Ao pesquisar pela net descobrimos que a serigrafia não existe apenas para fazer camisetas. No Brasil o processo pode ser um pouco limitado pelas cabeças pequenas de nossos "artistas", mas está bombando na Europa e Estados Unidos. O processo é simples. O artista faz a representação do seu trabalho na tela da serigrafia e depois produz um número limitado de cópias numeradas. Depois disso o molde é destruído para que não possam existir mais cópias. As imagens são expostas em galerias e vendidas a preço de ouro. Depois de terminada a oficina aqui na cidade, os trabalhos foram expostos no Centro Cultural Matarazzo. Quatro reproduções de minha foto foram expostas. Garanto que o resultado é estupendo e já estou louco para aprender serigrafia e fazer eu mesmo a interferência em minhas fotografias.

Pictorialismo

Mas, espere um pouco. Ponderando esses dois assuntos uma pequena picada em minha nuca me alertou que já tinha visto tudo isso em algum lugar. Lembranças que afloraram no início de minhas pesquisas sobre a história da fotografia me mostraram que não estamos criando nenhum movimento novo e sim remodelando práticas muito antigas. Aliás, se você se acha fotógrafo e nunca pesquisou a história da fotografia e da arte então pode se considerar um fotógrafo bolha. E não tenho medo de falar isso para você. Conhecimento é poder (por mais clichê que possa parecer). Quando a fotografia surgiu, o ato de registrar a realidade dentro de seus mínimos detalhes foi um impacto, tanto dentro da arte quanto do próprio cotidiano das pessoas. Para se ter idéia de como a coisa foi importante, um grupo foi reunido no Vaticano para determinar se era ou não pecado a pessoa ser fotografada. Esquecendo os pequenos pormenores da ignorância religiosa, os artistas se dividiram. Alguns diziam que não era arte, outros viram possibilidades de transcender as fronteiras da pintura e da fotografia, e outros ainda acharam que era mais fácil pintar a partir da fotografia do que ter uma modelo parada em sua frente por horas.

Dentro dessa ebulição é que surgiram os Pictorialistas (o termo picture do nome do movimento vem de imagem/quadro, e não de pintura), um movimento que dominou a Europa, Estados Unidos e Japão entre o ano de 1880 e o final da 1º Guerra Mundial. Os Pictorialistas tinham uma visão muito particular da fotografia. Eles preferiam fotografar paisagens e retratos femininos. Porém, tudo tinha que ter um ar de mistério. Eram preferidos dias nublados e diante da lente eram colocados filtros ou outros materiais transparentes para que o foco nunca fosse perfeito. Luzes e sombras eram preferidas para que a imagem nunca fosse totalmente nítida. Ela deveria ficar borrada como uma pintura impressionista. É dai que vem o termo Fotografia Impressionista, que também foi um dos nomes do movimento. Eles procuravam sempre trabalhar com objetivas antigas e imperfeitas, fazendo uso também da câmera escura sem lente (PinHole). Não sei vocês, mas eu vejo aqui uma boa semente do que seria a Lomografia nos dias de hoje. Mas, aguardem mais um pouco, pois a coisa melhora.

Os Pictorialistas acreditavam que a arte não acabava apenas na interferência da captura da imagem. O negativo ainda passava por vários processos para dar lugar à imagem final. O negativo era trabalhado com técnicas de gravura, pintura e outros efeitos que pudessem ser aplicados ao papel, vidro ou outro material usado como base do negativo. A cada novo efeito aplicado, uma cópia em positivo da foto era feita. Dessa forma, efeitos iam se acumulando e uma foto nunca poderia ser reproduzida novamente da mesma forma, pois o negativo já tinha sido retocado para a próxima cópia em positivo. Depois que o artista esgotava as suas possibilidade de intervenção, o negativo era destruído, garantindo que as cópias em positivo fossem únicas e não seriam reproduzidas nunca mais. Foi desse processo que se criou a expressão "Impressões Nobres". O que eles faziam a mais de um século atrás, hoje está sendo reproduzido pelo pessoal da serigrafia. Ou seja, a arte se reinventa com novas ferramentas.

Você pode concordar que o Pictorialismo era ou não uma forma de arte, principalmente os fotógrafos mais jovens da Era Digital, mas não podemos negar a beleza de imagens feitas por Robert Demachy, Edward Steichen ou Gertrude kasebier.

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