Meio Bit » Baú » Indústria » Nintendo e Apple — a Catedral e o Bazar

Nintendo e Apple — a Catedral e o Bazar

Sobre a arte de plantar vazamentos do iPhone e o anúncio prematuro do Nintendo 3DS.

26/01/2011 às 16:38

* com sinceras desculpas a Eric Raymond

catedral

NOTA: o título original deste artigo falava de Sony e Apple. Inicialmente era uma analogia entre o MiniDisc e o iPod, depois evoluiu para o 3DS, mas o celenterado que vos escreve esqueceu de mudar.

Existem várias explicações para a cobertura desproporcional que a Apple recebe da mídia e o interesse mesmo dos não-consumidores nos lançamentos da empresa. Essas explicações vão desde alegações que a Apple compra todos os iPhones que fabrica, para inflar os números e parecer que vende (sério, eu li isso) até idéias insanas como Steve Jobs ter feito um pacto com o demônio. Na verdade o demônio fez um pacto com Steve Jobs, que se comprometeu a não interferir no monopólio infernal do Tux Phone.

O interesse da mídia pela Apple é explicado pela Teoria da Escassez. É complicado conseguir furos, as informações raramente vazam, mesmo de forma intencional.

A arte de plantar vazamentos não é nova, toda empresa faz isso. Só que na maioria das vezes ninguém se interessa. Plantar informações é mais ou menos como a arte da sedução: Você tem que convencer a menina que ela não queria mas acabou querendo, mesmo que ela desde o princípio queira. Se você mostrar que sabe que ela quer, ela vai deixar de querer. Já se ela não quiser, você pode fingir que nunca quis, assim ela passará a querer.

O motivo de muitos homens procurarem garotas de programa é a dificuldade de montar fluxogramas.

Um vazamento controlado É uma forma de manipulação da mídia, mas é uma manipulação boa para ambos os envolvidos, como deveriam ser todas, aliás. O grande problema é saber vazar. No mundo wikileaks que vivemos temos que competir com os vazamentos de verdade, decidindo se é melhor viver no sigilo ou abrir o jogo, em um relacionamento aberto com a mídia e o público.

Os OpenTards vivem dizendo que esse é o melhor caminho. Nem sempre. Não funciona nem para desenvolvimento de software o tempo todo. Se o Angry Birds fosse desenvolvido em aberto, antes de chegar no mercado haveria umas 3 dúzias de imitações feitas nas coxas, e ele se perderia em meio ao ruído.

Mesmo assim o segredo industrial não é nem o maior ponto na discussão entre empresa sigilosa e empresa aberta. Isso afeta profundamente a percepção de novidade do público. E nada é mais danoso para um produto do que deixar de ser novidade.

A Catedral

A Apple trata a empresa como um templo de livro do Dan Brown, cheia de mistérios, com salas ocultas, níveis hierárquicos cada vez mais elevados e detentores dos Segredos. A parte aberta ao público é limitada, esperamos ansiosos pelas migalhas de sabedoria que de vez em quando nos são atiradas.

O conhecimento não é questionado, muito menos a pesquisa que levou até ele. A dissidência, os inimigos da Catedral atacam seus dogmas mas admitem o senso de deslumbramento diante do conhecimento que surgiu como mágica.

A Apple não anuncia produtos em desenvolvimento. Isso faz com que a indústria de boatos fique louca. É um sigilo digno de teorias da conspiração, estimulado por alguns mínimos vazamentos. Isso passa a impressão que o ciclo de desenvolvimento é bem menor do que o real. Acredite, quando o iPhone 3GS estava sendo lançado o 4 estava razoavelmente pronto e 5 já em projeto.

A Microsoft também flerta com essa estratégia. Em algumas áreas não é possível, software costuma ter um roadmap bem divulgado, é essencial para grandes projetos corporativos. Já na área de entretenimento, o Kinect foi lançado de surpresa, voltou pro sigilo e só reapareceu raras vezes antes do lançamento final.

O Bazar

A postura oposta à Catedral é o Bazar, onde tudo é transparente, as negociações acontecem na sua frente e você vê a carne que vai comprar ainda pastando no cercadinho ao lado.

No Bazar não há grande diferença entre você e o comerciante, ele escuta e entende suas necessidades, aceita negociar e customizar seu pedido. Se você for legal ele até ensina como faz aquele corte especial ou aquela receita secreta das batatas assadas.

O Linux é o Bazar e funciona. O Visual Studio é o Bazar (sério!) e funciona. O Windows Phone 7 é o Bazar e não funciona.

Quando foi anunciado o mundo inteiro ficou de boca aberta. A promessa era de uma interface inovadora, ágil com uma metáfora completamente diferente da concorrência. O hardware seria poderoso e consistente, a nuvem seria o foco principal e o Windows Phone seria um celular que sairia do palco,deixando para você o centro de sua vida.

Um ano depois veio o lançamento, o Windows Phone 7 cumpriu todas as promessas, mas a recepção tem sido… meh.

Boa parte da culpa é da sobrecarga de informação sobre o sistema, os aparelhos, recursos, telas e tudo mais que a Microsoft despejou na mídia. Nós vimos o WP7 ser desenvolvido, todo dia surgia uma novidade. Por mais legal que isso seja, cansa. Torna familiar, tira o encanto.

O WP7 não foi visto em seu lançamento como novidade, foi visto como o fruto de um árduo trabalho de desenvolvimento, acompanhado de perto por pelo menos um ano.

É MUITO cruel perceber isso, mas ver o WP7 como ele é, reconhecendo a complexidade e o esforço tira todo o deslumbramento de um produto, comparando com algo que caiu do céu. É como se Moisés chegasse no Sinai mais cedo e encontrasse Deus no telefone brigando com o suporte. “Eu já liguei e desliguei. Sim, o cartucho é novo. O cabo está ok. Como EU sei? Sabe com Quem está falando? Chame seu supervisor. ESTÁ SIM!”

A Repartição

Existe uma extensão do Bazar que consegue ser mais danosa ainda. É quando além do efeito danoso no ar de novidade do produto, o desenvolvimento aparenta não ter um objetivo claro.

Mesmo com a Microsoft dando data de lançamento pro WP7 foi um ano looooongo, a percepção de tempo não colabora. Quando não há uma data fixa, parece que o produto é uma igreja medieval, mas não no sentido da Catedral. Quando não há uma data fixa e as especificações e promessas vivem mudando, é o caos.

Não há melhor exemplo do que o Nintendo 3DS. Antes de Einstein inventar a 3ª Dimensão por volta de 1950, já se falava no 3DS. Ninguém aguenta mais essa Pirâmide construída com escravos filiados à CUT. O comentário mais comuns nos fóruns é “sai ou não sai?”. Parece que estão esperando finalizar o port de Duke Nukem Forever pra plataforma.

Objetivamente falando, o 3DS foi anunciado em março de 2010, o lançamento oficial será em fevereiro de 2011. 11 meses é um excelente tempo para desenvolver jogos para um gadget desses, mas confesse: não se espantou por ele ter SÓ 10 meses de anunciado?

Quando seu desenvolvimento é público E não tem muita certeza de onde quer chegar a percepção do público é a pior possível.

A Nintendo, que revolucionou o mercado de Games com o Wii, pegando todo mundo de surpresa e fazendo a Sony abaixar a cabeça e kibar o conceito da concorrência está conseguindo o impossível: saturar a exposição de um produto que não foi lançado.

Sei que pode soar como uma heresia, mas essas empresas tecnológicas estão precisando de um bom e velho marketeiro, vendedor das antigas, apenas para explicar que o consumidor normal não é nerd igual a eles. As pessoas gostam de novidades, gostam de ser surpreendidas. Principalmente, não gostam de esperar. Gente aparecendo toda hora dizendo “está quase pronto, só mais algumas semanas, vai ficar excelente, vai ver só” para o consumidor normal lembra obra no banheiro, e só quem passou sabe o quanto isso é ruim.

relacionados


Comentários