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Tem que morrer pra ver Deus? Nah, tem uma App pra isso™

03/01/2011 às 12:00

Jesus_Cellphone(sm) Uma das aplicações mais faladas da App Store do iTunes no momento é a SeeJesus. A proposta é que o fiel executa o programa, olha fixamente por 30 segundos para a imagem com uma prece exibida no telefone. Em seguida desvia o olhar para uma parede ou objeto de cor sólida e graças a uma “ilusão de óptica” (aspas deles) verá a imagem de Jesus na tal superfície.

Como a maioria dos “milagres” (aspas minhas) há uma explicação científica simples. No caso é o fenômeno das imagens residuais, que ocorrem quando você sobrecarrega os receptores de cor em sua retina.

Não há mistério, você inclusive evoluiu um mecanismo para reduzir esse defeito, o olho faz micromovimentos o tempo todo, entre outras coisas para mudar a intensidade do sinal nos receptores. Quando a gente força uma imagem fixa essas células perdem sensibilidade momentaneamente, assim ao mudar o foco da visão para outro ponto, elas ainda emitem um sinal fraco da imagem antiga.

Então qual o problema?

Pra começar, as aspas. A tal aplicação FAZ uso de uma ilusão de óptica, é um fenômeno mais que conhecido estudado e destrinchado desde a Grécia Antiga. Insinuar que há um componente sobrenatural para justificar a visão é má-fé (sem trocadilhos).

Agravante? A aplicação é cobrada. Algo que pode ser feito com qualquer imagem bem contrastada ou silhueta custa US$0,99. Não sou contra cobrar por conhecimento ou comodidade, mas o caso em discussão é quase como cobrar pra fazer uma busca no Google.

Mesmo assim a aplicação tem ranking máximo.

Pode ser enquadrada na lista de aplicações picaretas, safadas, estelionatárias ladras do dinheiro alheio que infestam os esgotos da AppStore?

Vamos descobrir.

Há aplicações para todos os gostos, todas questionáveis. Há aplicativos de hipnose para perder peso, cromoterapia via aplicações para eliminar espinhas por US$0,99, crescer cabelo, curar insônia e reduzir rugas.

Nem vou falar muito das aplicações que prometem curar doenças graves como diabetes, e até dor de cabeça, sendo que a única condição que curam é excesso de dinheiro no bolso.

O See Jesus está no mesmo barco? Vamos tentar resolver isso no bom e velho estilo de Tomás de Aquino:

1 – Está

A aplicação faz uma promessa falsa, induz o usuário a acreditar que terá uma experiência mística, desqualifica através das aspas em “ilusão de óptica” um efeito mais que conhecido e cobra por um serviço que pode ser reproduzido por qualquer um, em segundos.

Os desenvolvedores não têm qualquer ligação com entidades religiosas, o catálogo deles é repleto de aplicações oportunistas, material de domínio público reempacotado e vendido, além das proverbiais aplicações de flatulência.

Fica clara a intenção de se aproveitar do excesso de fé e da falta de discernimento dos usuários, uma aplicação “See Brian” não seria sequer desenvolvida, pois ninguém compraria. Ao utilizar Jesus não só há esse abuso da inocência alheia, como a intenção de se resguardar por trás do muro da religião, que não admite questionamentos. Qualquer ataque à aplicação será revertido como um ataque à religião.

2 – Não Está

A explicação não interessa. O fenômeno da pareidolia é mais que conhecido, não depende de componente religioso mas as pessoas (e a mídia) entram em frenesi cada vez que uma louca cisma que viu Jesus em um Pistache (mas não vamos fazer uma guerra por isso). As pessoas querem acreditar. Há um componente que os cínicos chamamos de entretenimento, mas outros diriam que é apenas uma ferramenta.

A aplicação efetivamente cumpre o que promete. Ela se propõe a exibir uma “imagem de Jesus”, não abrir uma chamada Facetime com o Nazareno.

Em termos de funcionalidade a See Jesus está no mesmo nível que a maravilhosa aplicação que transforma seu iPad ou iPhone em um Capacitor de Fluxo, com direito a efeitos sonoros, painel de controle da máquina do tempo e até raio pra recarregar a câmara de Plutônio.

O custo de ambas é a mesma, não apresentam nenhuma conexão com a realidade mas levam o usuário a refletir sobre histórias bonitas e inspiradoras, cujos detratores acusam de ficcionais, como se isso importasse para a mensagem que passam.

Conclusão

Foi deixado de lado a alegação não-comprovada de que 20% da renda seria doada para a caridade. Isso é irrelevante para juízo de valor. Do contrário roubaríamos banco doando 50% e seríamos heróis.

Seguindo a máxima de que os fins NÃO justificam os meios, o cumprimento da promessa não é suficiente para justificar os meios tortuosos usados para induzir o consumidor a adquirir a aplicação. Mais ainda: O fato do See Jesus ser pago não é a causa do problema, só um agravante. A base da aplicação é uma mentira. A fé alheia está sendo manipulada para vender (cobrando ou não) um truque barato.

Dizer “não importa se não é verdade, as pessoas se sentem bem com isso” é um dos argumentos mais rasteiros usados para defender (e atacar) práticas religiosas. Uma fé onde um dos principais mandamentos é Não Mentir está moralmente obrigada a manter-se afastada de programas como o See Jesus.

Como agravante as aplicações religiosas do tal desenvolvedor são todas muito bem cotadas, com poucas mas entusiasmadas resenhas. Entusiasmadas demais, se é que me entendem.

Na falta de sexo, o tema que mais vende em qualquer lugar mas é tabu na App Store, estão apelando pra religião. Não estou propondo uma iTunes Store secular, há espaço para material de cunho religioso sério. O que proponho é apenas expulsar os vendilhões que querem ganhar dinheiro abusando da fé alheia.

Espero que não me crucifiquem por isso.

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