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Mexicanos Voadores Invadindo os EUA, Israel e a Wikilikização da Guerra

22/12/2010 às 2:51

Machete

Na semana do dia 17 uma família em El Paso, Texas teve uma surpresa: Encontrou um mexicano ilegal bem em seu quintal. O Mexicano em questão não era um humano, embora fosse dotado de inteligência maior que a maioria dos comentaristas do YouTube.

O visitante inesperado era um UAV, aeronave não-tripulada usada para observação, espionagem, inteligência, etc. O modelo era um Orbiter, vendido por uma empresa israelense. É minúsculo, mas cumpre bem seu papel, com alcance de 80Km, altitude máxima de 6Km e autonomia de até 4 horas.

Marcado como propriedade do governo do México, o aparelho foi prontamente devolvido. Aparentemente estava sendo testado na patrulha de fronteira, deu algum pau e saiu voando a esmo. A violação de espaço aéreo foi perdoada, caso encerrado. Exceto pro Procurador-Geral do México, que como todo bom Governo, negou ter conhecimento do caso.

reaper-drone-art

A tecnologia de UAVs se tornou prática nos anos 1960, mas sua era de ouro foi no final do Século XX, nos conflitos no Oriente Médio como a Guerra do Golfo e a Guerra do Golfo 2 – a missão. Dezenas de modelos e variações têm sido usadas, dos simples como o Orbiter ao General Atomics MQ-9 Reaper, um UAV armado até os dentes e autonomia de 30 horas. Alcance? É controlado por satélite, enquanto houver gasolina, ele vai seguindo.

Para dar uma idéia da evolução, os B17 – Fortalezas Voadoras da 2a Guerra Mundial tinham autonomia de 10h, velocidade máxima de 462Km/h e carregavam 2.000Kg de bombas. O MQ-9 Reaper voa a 482Km/h, tem autonomia de 30 horas e carrega 1.700Kb de armamento. Sendo que o B17 precisava de 10 tripulantes, o Reaper se resolve com um nerd (provavelmente chamado Ender) num console de videogame curtindo ar condicionado em uma sala do Pentágono.

Mimimi superpotência mimimi guerra de videogame

Existe uma ilusão do pensamento Liberal onde acha-se que corrida armamentista só existe nos EUA, China e outros países ricos. Costumam tratar quem está em desvantagem tecnológica como coitadinho, acham que estão estagnados.

Não é assim que a banda toca. Conflitos são excelentes para esforços de engenharia reversa e projetos criativos. O mais difícil é perceber que algo é possível. Vencida essa fase, tudo pode ser replicado. Os guerrilheiros do Hezbollah não inventaram do zero a tecnologia de foguetes, mas criaram toda uma estrutura de produção artesanal, os milhares de foguetes disparados contra Israel nos últimos anos não vieram do estoque do Nicholas Cage, foram feitos localmente no Líbano.

Mais uma vez mostra-se que o conhecimento é a arma mais perigosa. Você pode acabar com tráfico de armas, mas não pode acabar com o conhecimento para produzi-las.

Na mesma semana do dia 17 outro incidente envolvendo UAVs foi pra mídia. Desta vez em Israel, onde caças da Força Aérea derrubaram um ovni que se aproximou demais de uma instalação onde Israel produz as armas nucleares que diz não ter. A explicação oficial é que era um balão motorizado.

ufo

Imagina-se que tenha sido uma missão de espionagem, provavelmente do Hezbollah. Não seria a primeira vez, pelo menos desde 2004 UAVs inimigos violam o espaço aéreo israelense, Um MIRSAD-1 passou meia-hora sobre território de Israel sem ser detectado ou incomodado.

hezbollauav

Não é uma questão só de orgulho ferido, um bicho desses pode levar uma ogiva de 30 ou 40Kg, se ficar viável enganar as defesas aéreas, toda uma campanha de ataques suicida pode ser orquestrada sem a parte dos suicídios.

O balão motorizado é um exemplo de como não existe bobo em guerra. Bobo vivo, digo. Pode ser complicado replicar artesanalmente um avião inteiro, mas um balão resolve 90% dos problemas. Até o inevitável momento onde construir um avião deixe de ser complicado.

Wikilikizando a Guerra

O combate no Afeganistão e no Iraque talvez seja a última vez em que um lado tenha vantagem tática de Inteligência como a fornecida por UAVs. Está se tornando muito simples utilizar esse tipo de tecnologia, mesmo se tratando de UAVs próprios. Mais fácil que isso só se o inimigo fizer uma hahada homérica como os EUA, que em uma atitude imbecil e arrogante acharam que não era necessário encriptar o sinal dos seus UAVs. Resultado? No Iraque, com um software de menos de R$50,00 e equipamento encontrado em qualquer quartel os rebeldes estavam capturando o sinal dos Predadores, ao vivo e a cores.

Isso mesmo, milhões de dólares em pesquisa e desenvolvimento e nenhum CORNO lembrou de encriptar o feed de vídeo enviado pelo UAV.

Em uma guerra futura com ou sem encriptação ambos os lados terão uma visão muito boa da movimentação do inimigo, mais do que qualquer general na História. Isso irá invalidar boa parte dos livros de regras, incluindo Sun Tsu, pois não há razão para tentar adivinhar o que o inimigo irá fazer, se você pode visualizar tudo do conforto de seu escritório.

Quem joga RTS sabe que a situação de Mapa Visível muda tudo. Quando o inimigo sabe o quê você está planejando, sai de cena o elemento surpresa. UAVs em combate cumprem essa função, melhor do que satélites. É possível enganar um satélite, que passa apenas alguns minutos sobre o alvo. Um UAV pode passar o dia inteiro, com resolução bem melhor.

Imagine Bastogne, quando a 101a Divisão Aerotransportada ficou cercada pelo exército alemão. Um UAV como o Orbiter seria suficiente para identificar todas as posições inimigas, suas linhas de suprimento e dizer exatamente onde atacar. De uma posição defensiva se tornariam uma força de ataque irresistível.

Essa tecnologia simples, de aeromodelos e transmissores de TV está forçando os maiores generais de nosso tempo a rever suas táticas. É uma mudança tão grande quanto a introdução das armas de fogo no final da Idade Média, matando em poucos anos toda a instituição dos Cavaleiros de Armadura.

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