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Crônicas do Futurismo Saudosista

15/12/2010 às 19:56

eletricidade Houve uma época em que a eletricidade resolveria todos os males. No Século XVIII um sujeito chamado Franz Mesmer ficou tão entusiasmado com essa nova tecnologia que cunhou o termo Magnetismo Animal (não aquele que atrai os machos da espécie para a Megan Fox) e criou a “ciência” do Mesmerismo. Ele usava magnetos (os goy, o kosher não tinha nascido ainda) para tratar todo tipo de doença.

Hoje sabemos que organismos biológicos em geral são MUITO insensíveis a campos eletromagnéticos, a única coisa que um humano consegue ter menos sensibilidade é conselho de dentista pra usar fio dental, mas na época foi um sucesso. O efeito placebo fez com que Mesmer tivesse uma alta taxa de cura, logo fazia sessões de banhos magnéticos terapêuticos colocando gente da alta sociedade (em geral mulheres) em banheiras de choque. Ele também dava uns passes mas não há relatos se trazia a pessoa amada em 3 dias.

No final do Século XIX e início do XX a eletricidade já era entendida o suficiente para ser sonhada como solução para tudo. A era do vapor dizia adeus, aparelhos elétricos eram menores, não poluíam o ambiente e eram bem mais seguros. Logo surgiram alternativas elétricas para instrumentos do dia-a-dia. Na ordem os primeiros aparelhos eletrificados foram a máquina de costura, o ventilador, a chaleira, a torradeira e o vibrador, usado por psiquiatras para tratar a Histeria Feminina, uma condição que só era aliviada através de massagem pélvica via estimulação manual, o que deixava os médicos no final do dia sofrendo de LER.

Chegamos a um mundo centrado na eletricidade, mas é meio por baixo dos panos. Nos concentramos nas diversas formas de geração de energia elétrica, não na própria. O tão falado (e nada prático) carro a Hidrogênio nada mais é que um carro elétrico, a diferença é que a energia vem de células de combustível, não de baterias.

Isso está mudando. A eletricidade está abandonando os intermediários, o termo “elétrico” voltou à moda, apesar de não ter nada de moderno. O conceito aqui é que ter idéia é fácil. “clonar a Luciana Vendramini”. Implementar é que é complicado (não queiram ver minha galeria de aberrações). Quase todos os equipamentos usados hoje foram pensados bem no passado, só eram inviáveis economicamente. É como recriar um microprocessador com tecnologia de 1950.

Vejamos algumas tecnologias elétricas absolutamente não-novas mas que vão mudar o mundo como o conhecemos.

1 – Carro Elétrico

carroeletrico A Toyota e a GM tentam vender a idéia de que o Carro Elétrico é novidade. Não é. Os primeiros carros foram elétricos, eletricidade escala muito bem e locomotivas são um excelente exemplo de veículo que funciona melhor com eletricidade do que com qualquer outra fonte de energia. Experimente entrar em um túnel com uma locomotiva a vapor para ver do que estou falando.

Em 1899 um carro elétrico francês bateu o recorde mundial atingindo 105.88Km/h, mais rápido que um fusca. Ou que o Rubinho.

Na virada do Século XIX o carro elétrico já estava bem popular, nos EUA o censo automobilístico listava:

  • 40% carros a vapor
  • 38% carros elétricos
  • 22% carros a gasolina

Os modelos eram lentos, no máximo 32Km/h e a autonomia era curta, 65Km, mas a competição tinha problemas equivalentes, para a realidade da época a eletricidade era uma boa opção. Só que o motor de combustão interna se mostrou muito mais fácil de evoluir. O calcanhar de Aquiles do carro elétrico, a bateria é algo que em 2010 ainda não resolvemos, que dirá em 1900.

Logo as pessoas passaram a querer andar mais por mais tempo em seus carros, a infraestrutura de estradas foi ampliada e viajar entre cidades passou a ser uma opção. Que o carro elétrico não atendia.

Eu sei que o pessoal adora alardear as teorias da conspiração de como a indústria automobilística matou o carro elétrico, mas a indústria automobilística vende CARROS, podem ser movidos por lágrimas de unicórnios, ainda serão carros vendidos pela indústria automobilística. Se uma nova tecnologia, mais cara mas ecologicamente correta pode fazer com que toda uma frota seja trocada, como a indústria não iria gostar?

Continuamos com os mesmos problemas de 100 anos atrás. A infraestrutura de alimentação de veículos elétricos não existe, a carga demora horas. Inaceitável, se comparar com os poucos minutos para encher um tanque de combustível convencional. Sem falar que a autonomia é limitada. O Chevrolet Volt tem teóricos 80Km de alcance. Horrível, não?

Não. A indústria cansou de esperar e criou o conceito de híbrido, carros elétricos com motores a gasolina que tanto carregam as baterias quanto auxiliam na tração, quando necessário. O Toyota Prius, carro preferido dos ecochatos e hippies com dinheiro é um verdadeiro símbolo de desafio à indústria automobilística (a mesma que produz o Prius).

Agora a General Motors começou a vender sua visão de carro elétrico, o Chevrolet Volt:

volt

Essa beleza vem com um motor de 4 cilindros e 74hp especialmente para carregar as baterias e prover eventual tração extra, pois motores elétricos não são tão eficientes a altas velocidades. O software determina quando o motor entra em ação. Chegar a 160Km/h só na bateria é covardia.

Descrito pelas revistas especializadas como uma obra de arte, o conjunto de propulsão/transmissão do Volt é lindamente pragmático, a carga mínima da bateria para a entrada do motor auxiliar depende de fatores como inclinação do carro, altitude, temperatura, etc. A recarga também é inteligente, o gerador tentará manter as baterias em 30%, ao invés de carregar até o final. O motor é acionado até quando é preciso reciclar a gasolina nos filtros do tanque selado e pressurizado.

Os 80Km de autonomia puramente elétrica são suficientes para o uso no dia-a-dia nas cidades, a carga pode ser feita através de uma tomada convencional em casa. 8 horas em 110V, 3 horas em 240V.

As baterias pesam 170Kg, são garantidas pela GM (todos os 161 componentes do sistema, aliás) por 160 mil Km ou 8 anos.

O Volt está sendo vendido (chore) por US$40.280,00. Com um leasing onde você dá US$2.500,00 de entrada e o resto em 36 prestações de US$350,00.

Não é o único modelo elétrico/híbrido. A Nissan tem o Leaf, a Tesla tem o Roadster, uma proposta ousada: Um carro elétrico esporte, completamente diferente daqueles modelos-conceito japoneses de carros-melancia.

Os veículos elétricos chegaram. Ainda não são pra todo mundo, ainda apresentam os mesmos problemas de 100 anos atrás e as soluções, embora funcionais no fundo são gambiarras. Mesmo assim o público exigiu e está recebendo essas opções. Muito provavelmente em alguns anos esses híbridos serão padrão e, com muita sorte uma solução revolucionária eliminará de vez as limitações das baterias.

Aí viveremos um futuro lindo maravilhoso eletrificado, todo mundo de carro não-poluente, como vivíamos em 1900.

2 – Railgun

A Marinha dos EUA vem desenvolvendo essa tecnologia faz tempo. É algo bem promissor e acima de tudo barato, gastaram pouco mais de 100 milhões de dólares, em termos de pesquisa de armamentos isso é troco de pinga. O CD Player do F22 deve ter custado mais pra ser projetado.

A railgun é uma arma onde o projétil repousa sobre dois trilhos eletricamente carregados. A corrente do circuito trilho-projétil-trilho gera um campo eletromagnético muito forte, que repele o projétil (E os trilhos, mas eles ficam bem ancorados). É uma tecnologia que demanda muita energia, materiais caros e resistente para os trilhos e ainda não foi miniaturizada, mas os ganhos são muito tentadores. Em um navio uma railgun conseguiria lançar um projétil mais longe, com mais energia cinética que um canhão convencional, sem os inconvenientes de ter que carregar toneladas de explosivos usados como propelente.

Como o acionamento é elétrico, estima-se uma média de 6 a 9 tiros por minuto, com alcance de 160Km. Comparativamente o encouraçado USS Missouri com seus nove canhões de 410mm consegue atingir alvos a 39Km de distância.

O vídeo acima é um teste da railgun da Marinha, um novo recorde de 33 Megajoules, bem maior que o disparo anterior de 10 Megajoules,recorde em Janeiro. Um Megajoule é a energia equivalente a um objeto de uma tonelada viajando a 160Km/h.

É ficção científica, railguns são armas que costumamos ver em videogames e filmes, equipamento naves classe Daedalus em Stargate. Mas… será algo realmente novo?

Digamos que em 1918 um francês com o incrível nome de Louis Octave Fauchon-Villeplee entrou com um pedido de patente para um “dispositivo elétrico para aceleração de projéteis”. Graças á magia das Interwebs, você pode conferir a patente aqui. Nunca foi construído. Na Segunda Guerra Mundial um oficial alemão de nome Joachim Hänsler propôs um modelo de railgun para ser usado como arma antiaérea. Com 6 canhões atirando 12 tiros por minuto cada, acelerando um projétil com meio quilo de explosivos a 2Km/s a arma seria devastadora contra tudo que os aliados tinham.

Felizmente para nós ela ”exigiria energia suficiente para iluminar metade de Chicago”, o que não seria muito prático, e Hitler preferiu buscar armas mais convencionais, como a Lança de Longinus e a Arca da Aliança.

Conclusão

Existem idéias futuristas, vindas da ficção científica e existem idéias boas limitadas pela ciência de seu tempo. Ter idéias futuristas é fácil, qualquer idiota cria “produtos-conceito” impossíveis. Um bando de macacos bateu palma praquelas bicicletas “geniais” com o nome do dono, sem sequer se dar ao trabalho de ver que no primeiro modelo as duas metades estão separadas. Nem respeitar Leis da Física conceitos precisam mais.

Já ter idéias baseadas em Ciência real é bem mais complicado, ou você conhece realmente os princípios básicos envolvidos ou acaba criando projetos que dependem de teorias furadas e conceitos ultrapassados. Ou, pior ainda, não consegue entender que Ciência é cumulativa e muito, muito raramente uma teoria nova irá reescrever todo um ramo do conhecimento. Daí que surgem os braceletes magnéticos, cura de cristais e outras bobagens pseudociêntificas, que para funcionar precisam que tudo que sabemos sobre o Mundo esteja errado.

A outra lição é que não é preciso reinventar a roda, a quantidade de boas idéias criadas com o passar dos anos é muito grande. O segredo é não desprezar o passado automaticamente como obsoleto. Afinal a NASA não inventou nada, as equações para calcular quando um corpo lançado de determinada altura a determinada velocidade entraria em órbita foram criadas em 1687 por Sir Isaac Newton.

Alguns diriam que foi um esforço inútil, pois não havia tecnologia para isso no Século XVII, já Houston não vê problema nenhum em Newton ter adiantado o lado deles.

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