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O Apocalipse Now dos novos órfãos

05/12/2010 às 10:23

Uma matéria com um título altamente combustível (e interessante) foi publicada agora, no dia 19 de novembro, no IDG Now! como uma tradução de seu original e dizia em seu intitulário:

"Linux Desktop: o sonho morreu"

Como diz a Fabi Lima daqui do MB, há por aí quem adore atrair esse tipo de Unix-Rage de graça — ou por apenas uma caixa de bala Juquinha. Sempre há.

Mesmo não concordando com as partes até um pouco sensacionalistas do post, devo dizer que mesmo com certo saudosismo há algo a ser bem discutido em relação ao ponto focal da matéria. E este é:

Haverá uma distro Linux decente para o usuário comum nos próximos 3-5 anos?

E se quisermos aprofundar um pouco mais a discussão podemos então perguntar:

Haverá qualquer distro Linux decente em 5-10 anos?

Sem o já enrugado discurso dos coders-for-the-world de que tudo é mortal menos o código livre, há de se perguntar o que virou de um mundo onde praticamente tudo o que vemos de mercadologicamente comercial (e até mesmo industrial) tem um pouco (ou um muito) de open source no estômago?

Ainda assim, não existe algo "ideal" quando falamos de dispositivos para o usuário. Existia, há uns dez anos. Coisas como o Palm ou aqueles laptops gigantes eram ideais. Mas agora, não mais. O mundo é outro.

Mas a questão em questão também é outra e de volta a ela, podemos ambientar uma reflexão importante. Para os que leram o original do referido artigo de Robert Strohmeyer e publicado (17/11) no PC World, segundo ele "estamos aqui reunidos para dar adeus às intenções do Linux de se tornar um sistema operacional para desktops competitivo".

É facto que o Linux precisa mesmo se reinventar se quiser existir nos próximos 5-10 anos, ao meu ver. No que diz respeito ao usuário padrão hoje, não é mais relevante sustentar que o modelo de formação e distribuição de versões Linux pode satisfazer mais do que os pouquíssimos percentuais pelo mundo de quem ainda o adota como opção.

Não vivemos mais o tempo em que o saudosimo pela segurança, comunidade e exclusividade era apenas privilégio dos LINUXers, enquanto o mundo dos bobos era composto por OS Xers posudos e WINners desinformados e suscetíveis demais a fanboyzices e outras infecções virais pelo Kilo Byte Organizado.

Hoje, aquele OS que se posicionar como o melhor híbrido (desk-para-mobile) pode facilmente fazer tudo muito melhor do que virtualmente qualquer distribuição Linux que exista por aí.

Existem candidatos? Sim, claro, muitos. A corrida é essa e atualmente ela é liderada por experiências altamente lucrativas como as do iOS e do Android. Há quem pense que o fracasso dos netbooks e o novo hype com cara de slates e pads é apenas uma nova "onda" de mercado. Não, o mundo começou a mudar a partir deles e ainda não chegou no ponto em que todos podemos ficar satisfeitos.

É óbvio para quem presta minimamente atenção à tecnologia que já estamos a viver um momento que reúne dois grandes componentes do comportamento do conhecimento hoje. São eles a mobilidade e a flexibilidade com que o conteúdo pode e tem de ser gerado.

Um outro momento, para o futuro de todas as distros, tem a ver com algo que é mencionado no artigo: "o iOS pode salvar o Linux indiretamente". Será?

Embora eu também não concorde totalmente com a frase, não me custa muito dizer que qualquer OS "de verdade" com foco real no mobile e um pouco mais consistente que um OS feito basicamente para smartphones espremido dentro de um pedaço de vidro é o que realmente pode salvar o Linux e os outros de morrerem. Nem de longe, o iOS é este OS.

No fundo do fundo, mobilidade hoje ainda é algo visto como navegar na web e fazer umas "coisinhas". Falo de uma mobilidade onde se possa fazer qualquer coisa on-the-go. Qualquer coisa. E esse é o longo caminho.

Na realidade, não sei se existe algum framework hoje com essa capacidade para realmente atender a demanda de mobilidade de que tanto falamos e precisamos. Surpreende-me também que o melhor que o Linux possa fazer até o momento é o Ubuntu para desktops (que ninguém mais usa e que está, de facto, condenado à morte como equipamento) e o Unity, que não passa de uma maquiagem de si próprio como OS para netbooks (algo que já tem um cheiro horrível de coisa morta e decomposta).

Não vejo um futuro com os pés no chão nem mesmo projetos redondos como o Jolicloud, que eu tanto aprecio. Baseado em Ubuntu e que pretere-se da premissa de ser um "OS para o usuário e para a internet de hoje". Infelizmente, não é assim que a banda toca...

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Nem somente smartphone-OS nem trambolhos-OS espremidos em tecos de vidro. É como eu disse, um Ubuntu maquiado para netbook NÃO conta.

Na realidade, penso que essa é questão que envolve todos os OSs, uma vez que estamos inegavelmente diante de uma mudança iminente no paradigma daquilo que roda nos velhos e novos dispositivos que decidimos manter ou adotar a medida que o tempo passa.

Pode muito bem ser o momento em que todos os sistemas operacionais morfem para uma nova direção. Aprimorando-se com certeza, ou talvez apenas se re-iniciando.

Do modo que eu vejo, esse é o momento para o Linux bootar a si próprio. Ou então morrer.

Justamente quando o mercado mundial aguarda saber qual será o sistema operacional a ser carregado no copinho do sovaco do usuário, literalmente. Quero dizer, aquele OS "decente mesmo" que pode ser capaz de seguir e servir adequamente o usuário de casa ao trabalho, no parque, no corredor, no banheiro ou nos quintos dos infernos.

Quando digo servir, novamente, não estou falando de sistemas para celulares espremidos em gadgets, nem tampouco sub-criaturas atoladas com tranqueira demais como netbooks. Estou falando do "próximo" dispositivo. A "próxima" opção de máquina. Lamento dizer, mas o iPad e seus primos bastardos ainda não chegam lá.

Resta saber como o mundo de usuários padrão se comportará diante de alternativas semi-disponíveis como o Chrome OS, que já está com o pezinho em nossos portáteis. Ou então de diversos outros que ainda se acotovelam nessa grande e incansável especulação sobre o que é melhor para todos.

Francamente, apesar de estarem lucrando os tubos, não acredito que o Android e o iOS passem de experiências meramente evolucionárias, ao invés de revolucionárias. Mesmo sendo bem-sucedidas comercial e financeiramente para os seus idealizadores, estão longe de ser aquilo que eu e você precisamos mesmo.

Olhe bem e perceberá que todos os especialistas sabem que tudo o que existe hoje, AINDA não é o ideal.

  • Desktops não servem mais, pois não "cabem" mais no mundo e não atendem a uma demanda inevitável dele: não cresceram pernas e não andam por aí com você.
  • Slates e Pads ainda são brinquedos chiques e caros, coisas mais fakes que o oposto e que não dão conta do recado.
  • Netbooks são criaturas bizarras, mutantes desconexos que foram criados para sofrer e viver em um mundo que não sabe o que fazer com eles - ruins!
  • Smartphones e Blackberries salvam o dia com as pequenas coisas e deixam todo o resto a mercê da orfandade funcional - e são pequenos, irritantemente pequenos, demais!

Ou seja, nada serve bem o tempo e a informação que se desenvolve diante de nós.

Se o Linux vai morrer? Quem vai substituí-lo, ou seguí-lo?

Seria uma pena, não só para ele e já pode estar acontecendo.

Mas há espaço de sobra no grande cemitério de tendências atuais e Dona Morte é implacável e está com a foice afiadíssima.

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