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Hollywood não aprendeu nada com a RIAA

03/04/2006 às 23:12

A internet modificou a maneira como as pessoas se comunicam umas com as outras, a forma como elas acessam notícias e a forma como as pessoas interagem com o mundo digital. Agora ela está modificando a forma como as pessoas usam seus telefones e mantém-se conectadas ao mundo mesmo quando estão em trânsito. Em breve a internet vai modificar a maneira como eu e você assistimos TV, ninguém duvida disso. Mas parece que nesse mar de mudanças que a internet causou em nossas vidas algo se perdeu, ou alguém se perdeu. Agora sete estúdios de hollywood anunciaram que irão vender filmes pela web, sem mídia. É uma tentativa de manter a velha indústria consoante com uma nova tecnologia. Mas vai dar errado, saiba porque em mais este artigo exclusivo do Meiobit.comO ser humano gosta de papel. É bem melhor, mesmo para um tecnocrata como eu, deitar-me em minha cama à noite com um livro do que com um notebook ou PDA com um e-book (livro eletrônico). Livros são baratos e duram muito tempo e muitas vezes as pessoas não importam-se em ceder um título de seu acervo para um amigo ou familiar, coisas que não fazemos com eletrônicos de US$ 200,00 como um iPod 😉 Por essas razões os livros não foram substituídos pela internet. Muito pelo contrário, os livros vendem bem mais hoje graças à web e boa parte do mercado editorial encontra seu melhor canal de vendas nas lojas on-line. Os livros e a web entenderam-se muito bem, ponto para as editoras.

O mesmo não se pode dizer dos jornais. Folhas de papel enorme, um papel ruim aliás, com tinta que impregina-se nos seus dedos, os papeis tradicionais perderam boa parte do seu mercado para os sites de notícias da web, como o Meiobit.com. Não só pela comodidade e poder ler artigos rápidos em seu site preferido, entre um café e uma ida ao banheiro durante seu expediente profissional. Mas principalmente porque a informação possui uma data de validade, como o iogurte que você tem na geladeira. A informação de um jornal chega até você já velha, com no mínimo 12 horas de atraso, e em suas mãos um jornal envelhece mais rápido ainda. Isso ficou estupidamente claro quando acompanhava pela web o acoplamento da nave Soyuz que levava o brasileiro Marcos Pontes à ISS, ao vivo. Após vê-lo entrar com a bandeira brasileira em punho, sorrindo, passou na TV uma propaganda da Gazeta do Povo (jornal de maior circulação na cidade de Curitiba/PR) que traria dali a 4 horas a manchete: Estação Espacial preparada para receber astronauta brasileiro! Aquela notícia, para mim, já estava vencida, o astronauta já estava lá. Que tipo de preparativo me interessaria se aquela parte da missão já estava completada? Não comprei o jornal.

A solução encontrada pelas empresas que vivem de jornais é obvia. Levar suas equipes para escreverem em web-sites e não mais em folhas de papel, e assim manter seus ganhos com publicidade. Assim como as editoras de livros encontraram o modo de manter seus lucros (e até ampliá-los) vendendo exemplares pela web, a preços normalmente menores do que os de lojas físicas. Até então tudo bem. Mas a coisa não é bem assim quando a mídia deixa de levar informação e passa a trazer entretenimento puro e simples.

As gravadoras de áudio enfrentam muitos problemas para viabilizar seus negócios com a Internet. O cômodo canal tradicional, de vender discos em lojas já não funciona bem como antes em boa parte do mundo. Isso porque as pessoas conseguiram meios baratos (quase gratuítos) de conseguir a música desejada sem ter de pagar quantias relativamente altas por albuns completos. Muitas pessoas apreciam apenas duas ou três músicas da maioria dos albuns de suas bandas prediletas, mas eram obrigadas a comprar peças inteiras com outras dez ou quinze faixas não tão bem-quistas. A web acabou com isso e o P2P permite hoje que você consiga apenas o que deseja, sem levar o resto. O que pareceria obvio, vender sob demanda apenas a música que o cliente quer, foi considerado inadequado. E em lugar de tentar adaptar-se ao novo mercado a indústria fonográfica decidiu... processar o mercado. A RIAA, associação das gravadoras dos EUA, passou então a ameaçar usuários e provedores de internet para tentar manter a força o sistema de "compre uma e pague dez" que funcionava antes. Não está dando certo e nunca vai dar, pois o mercado percebeu que pode ser feito diferente. Opções como o iTunes, da Apple, onde você compra cada faixa em separado hoje já apresentam um bom índice de sucesso, mas não conseguiram ainda um décimo da audiência que o P2P apresenta. Não que o consumidor prefira conseguir música de forma ilegal, todo fã quer ajudar sua banda e vê-la continuar produzindo, mas a indústria ainda não entendeu que está fazendo as coisas da maneira errada.

Por esse mesmo caminho agora segue Hollywood. Os estúdios cinematográficos perceberam que com a disseminação da banda larga pelo mundo e com o contínuo aparecimento de sistemas cada vez mais poderosos o esquema de P2P abre caminho para a troca ilícia e irrestrita de filmes também. Em uma tentativa de impedir que isto torne-se uma pandemia sete estúdios decidiram começar a vender seus filmes pela internet. São eles Warner Bros., Universal Pictures, Sony Pictures, Paramount Pictures, Twentieth Century Fox e MGM. Estes estúdios começarão a vender suas obras pelo Movielink. O problema é que cada cópia de um lançamento custará entre US$ 20 e US$ 30 e cada filme clássico entre US$ 10 e US$ 20, que são os valores médios para um DVD normal nos EUA. Os vídeos vendidos pela web poderão ser queimados em um DVD físico, mas um sistema de DRM irá impedir que essas cópias sejam lidas em seu aparelho de DVD convencional. Ou seja, você paga o mesmo valor que pagaria em um DVD de caixinha, não recebe o encarte e nem o acabamento original do disco e só pode ver o filme no computador. Porque alguém compraria este tipo de produto? Claro que surgirão meios de viabilizar a leitura desses arquivos em aparelhos de DVD domésticos, mas isso é tão ilegal quanto baixar o filme de um P2P. Porque então alguém pagaria US$ 30 para continuar cometendo um ato ilícito / criminoso? O sistema bolado por hollywood para impedir a troca ilegal de conteúdo é, na verdade, um estímulo à troca ilegal de conteúdo.

Esse tipo de coisa é fruto de uma mecânica de pensamento que continua em uso na indústria mas que foi ultrapassada pela tecnologia. Os estúdios determinam o quanto querem ganhar em uma cópia e fazem o preço, indiferente do canal de distribuição usado. Ninguém contou aos executivos que presidem os estúdios, que um novo tipo de mercado demanda um novo tipo de produto. E assim a indústria do cinema repete os mesmos erros da indústria fonográfica e dá pinta de que também tentará travar uma batalha com seus próprios consumidores para obrigá-los a comprar produtos caros e de uso prático questionável.

Em condições normais ninguém assiste 30 vezes o mesmo filme em uma semana. As pessoas querem ter em casa títulos que significam algo para elas para que em certas ocasiões elas possam apreciá-los. Da mesma forma que fazem os colecionadores de obras de arte, que ainda assim não param para apreciar 30 vezes um mesmo quadro durante a semana, em condições normais. O problema parece residir na idéia hollywoodiana de que filmes são como obras de arte, e por isso precisam ser caros. Alguns filmes são obras de arte, mas antes disso eles são cultura de massa, como revistas em quadrinhos. E discos de DVD tem um custo de produção muito parecido com as revistas em quadrinhos, mas preços de venda muito distintos, novamente graças à idéia de que um filme tem um estatus de obra de arte maior do que os quadrinhos. Talvez para resolver o impasse a indústria cinematográfica devesse desistir de copiar o modelo editorial dos livros e tentasse o modelo editorial das HQs: obras de arte para cultura de massa a US$ 5 a unidade. Com os milhões de cópias vendidas talvez o objetivo de lucro fosse atingido. Manteria-se viável o modelo de produção atual dos filmes e o mercado compraria os títulos satisfeito, sabendo que pagou um bom preço por algo que ele vai usar muito pouco, mas que deseja ter em casa. Com isso eu, e tantos outros mundo afora, podería ter caixas de papelão cheias de DVDs de filmes que acho legais, da mesma forma que faço com meus HQs, e todos poderíamos estar felizes.

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