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Onde achar o tal do Linux (falcon_dark)

19/12/2005 às 0:03

Então você está ouvindo falar muito de Linux ultimamente? Gostou do que ouviu e ficou curioso para ver o que é isso, como funciona e se serve para você... mas não tem a menor idéia de por onde começar? Acalme-se!

Nesse artigo vamos tentar descobrir como um iniciante pode ter seu primeiro contato com o Linux sem sair traumatizado. Para isso precisaremos bater algum papo sobre certos aspectos únicos do mundo Linux, com os quais você talvez não esteja acostumado. Para que eu não fique explicando (entre parênteses) cada novo termo que apareça daqui pra frente preparei algo que pode ser útil.

Ultra-Mini Glossário Linux de Bolso:

*nix: Pronuncia-se apenas nix. É o nome genérico dado a qualquer sistema que seja clone ou compatível com o sistema operacional UNIX original. Podemos dizer que o Linux, o BSD, o AIX, o HPUX são todos sistemas *nix, pois são todos compatíveis com (algumas) especificações dos UNIX originais desenvolvidos pelo Bell Labs.

Bash: Bourne Again SHell é um dos muitos interpretadores de shell (ver shell abaixo) existentes para o UNIX. Muito poderoso e grande ferramenta para a administração de qualquer sistema *nix.

BSD: Berkeley Software Distribution ou Distribuição de Software Berkeley é o nome do padrão de UNIX desenvolvido pela universidade de Berkeley como alternativa gratuita aos caros sistemas UNIX vendidos por diversas empresas na década de 1970. É um padrão muito difundido, com qualidade reconhecida e muito usado até os dias de hoje.

Distribuição: É o termo empregado para designar as diferentes "marcas" de Linux. No mundo UNIX não haviam distribuições, mas sim "sabores". O AIX era o sabor de UNIX da IBM, o SunOS era o sabor de UNIX da Sun. Hoje dizemos que o Linux da Mandriva é a distribuição Mandriva Linux. O lance dos sabores era legal, pois assim como você poderia ir à uma sorveteria e apreciar diferentes sabores de sorvete, poderia também, ao longo de sua vida experimentar diversos sabores distintos de UNIX. Os Linux são distribuídos por fornecedores diferentes, então são distribuições, ou como anda na moda apenas "distros"

EXT3: O nome do sistema de arquivos padrão em grande parte das distribuições Linux atuais. É um sistema de arquivos de boa qualidade, com suporte à Journal (ver item abaixo) e bem estável.

Journal: É um termo técnico para uma operação específica de sistemas de arquivos modernos. Journal vem do termo inglês diário, sim aquele mesmo onde as pessoas registram tudo que aconteceu durante o dia para que possam recordar no futuro. O diário do sistema de arquivos é um recurso para diminuir as perdas de dados quando a energia acaba ou outro problema ocorre que impede o fechamento correto dos buffers dos sistemas de arquivos. Um sistema de arquivos com suporte à Journal pode registrar tudo que é feito em suas operações e em caso de erro recuperar-se mais rápido e precisamente com chances menores de perder dados do usuário.

kernel: termo inglês para núcleo. Parte central de um sistema operacional moderno, responsável pelo gerenciamento do hardware e pela interface dos programas com o computador entre outras tarefas. O kernel Linux é o centro do sistema operacional GNU/Linux e é parte comum em todas as distribuições.

Linux: é o nome de um kernel de sistema operacional que opera dentro dos padrões POSIX (padrão de compatibilidade entre UNIXes) que foi desenvolvido do zero por um time de especialistas como software livre. Esse time, comandado por Linus Torvalds, usou a internet para comunicação e troca de dados para a criação do kernel Linux, e esse modelo é usado desde 1990 até hoje. Aos sistemas que usam o kernel Linux muitos chamam apenas de Linux, enquanto outros preferem chamar de GNU/Linux (lê-se guinúlinux).

Log: Um log é um registro de uma atividade. O Linux executa automaticamente alguns logs das atividades do sistema. Esses logs, normalmente guardados em arquivos de texto puro, servem para que o administrador de sistemas tenha informações sobre o estado de diversas partes do sistema quando um erro ocorre e altera a execução normal dos programas. Bons administradores adquirem o hábito de analisar com freqüência dos log de acesso para saber se houve problemas de segurança no sistema operacional. Logs são uma ferramenta muito útil para descobrir o que deu errado ou o que pode dar errado em um futuro próximo em seu sistema e são muito valorizados pelos usuários de sistemas *nix.

Pacotes: Chamamos de pacotes os arquivos que possuem programas que possam ser instalados em um sistema Linux. Os pacotes podem ter programas prontos (chamados binários) para rodar ou podem conter código fonte (programas que precisam ser compilados antes de rodarem). A maioria das distribuições Linux inclui Gerenciadores de Pacotes que cuidam de organizar dos pacotes. Esses gerenciadores também podem fazer downloads de pacotes da internet e instalar os programas contidos nos pacotes no sistema do usuário.

ReiserFS: Um bom sistema de arquivos presente em muitas distros recentes. É considerado melhor que o EXT3 por ser mais rápido em boa parte dos casos, e por suportar operações atômicas de maneira bem natural. Um sistema que suporte operações atômicas é um sistema que executa as instruções de escrita/leitura sempre por inteiro ou então não as executa. Isso significa que durante uma falha do HD ou queda de energia ou as operações pendentes foram concluídas na íntegra ou não foram sequer iniciadas. Esse processo, aliado ao Journal, permite um nível de segurança muito elevado e uma garantia de que é mais fácil um relâmpago cair em sua cabeça do que você perder dados em um sistema assim, se você tiver um backup de confiança. Brincadeiras à parte, o Reiser é um dos sistemas de arquivos mais modernos sendo usado em escala comercial hoje, com desempenho muito bom, mas com um uso de CPU relativamente alto, pois ninguém é perfeito.

Script: Formado por um arquivo de texto puro que contém uma seqüência lógica de comandos em certa linguagem. Um script é uma espécie de automação de uma tarefa executada normalmente dentro de um shell. Um shell poderoso como o Bash pode ter sua própria linguagem de scripts ou usar uma adaptação de outra linguagem. Scripts são ferramentas poderosas para automatizar funções de maneira simples e rápida e nos sistemas *nix eles são especialmente poderosos. Por causa da relação íntima entre shell e o resto do sistema nos Unix-like os scripts podem executar tarefas impossíveis para outros sistemas operacionais. Scripts são ferramentas muito usadas para administração remota e de grandes parques de máquinas e também para executar a instalação de muitos programas no mundo *nix.

Servidor de Interfaces Gráficas: ou SIG é um sistema que implementa interfaces elegantes para os sistemas *nix. Qualquer distribuição Linux pode rodar um ou mais SIGs ao mesmo tempo e servir interfaces gráficas para várias máquinas em uma rede. A configuração mais comum, no entanto, é rodar apenas um SIG em cada sistema no desktop. Essa SIG exibirá um Window Manager (ver WM abaixo) que funcionará como interface com o usuário. Podemos dizer que a dupla X Server (ver X server abaixo) e WM é a evolução do Shell.

shell: termo inglês para concha ou casca. É um tipo de interface interativa de texto do sistema operacional com o usuário. Também chamado de Prompt ou de Linha de Comando, o Shell é o método mais primitivo para conversar com o computador ainda hoje usado em sistemas operacionais de produção para desktops. Seu nome curioso foi escolhido para fazer par com a palavra kernel no mundo UNIX. O Unix e o Linux usam um sistema kernel/shell para comunicar-se e receber ordens do usuário, que pode ser traduzido como um sistema núcleo/casca na qual o usuário normal nunca tem acesso direto ao núcleo do sistema, sempre operando-o através de sua camada externa, o shell.

Terminal: É o ponto de comunicação de um sistema Unix com o usuário. Um terminal pode ser do tipo Texto (usando um shell) ou Gráfico (usando um Servidor e um WM). Normalmente os sistemas *nix possuem capacidade de operar diversos terminais simultaneamente, tanto texto como gráficos. Essa capacidade natural do sistema permite que um Linux rode diversos Shells ou diversos Servidores gráficos ao mesmo tempo sendo usados por usuários diferentes em cada um deles.

UNIX: Nome original de um sistema operacional desenvolvido pelos laboratórios Bell (à época pertencentes à AT&T) para operarem suas máquinas. Foi o mesmo Bell Labs que desenvolveu a primeira versão da linguagem C para computadores (considerada como uma das mais poderosas linguagens desenvolvidas até hoje). O sistema mostrou-se tão confiável que várias versões foram desenvolvidas e o nome UNIX passou a descrever não só um sistema operacional mas toda uma família de sistemas que existe até hoje, da qual o Linux faz parte.

UNIX-like: São sistemas operacionais que não são clones do Unix mas que mantém compatibilidade com os padrões UNIX em algum nível e funcionam de maneira muito próxima dos sistemas UNIX puros. Em termos estritamente práticos podemos dizer que Unix-like (em tradução livre: parecido com Unix) é sinônimo de *nix (ver termo acima).

WM: Window Manager ou Gerenciador de Janelas é o nome que damos no mundo Unix à parte do sistema responsável por desenhar e operar as janelas na tela gráfica de um computador. É a junção de X Server com WM que torna-se a interface gráfica que os usuários de Linux usam.

X Server: Ou Servidor X é o nome dado ao principal servidor de interfaces gráficas (veja Servidor de Interfaces Gráficas) dos sistemas *nix.

Descobrindose o Linux é para você.

Agora que já temos um pouco da terminologia e da gíria usadas no mundo Linux você deve estar perguntando-se: No Windows não tem nada disso, e eu nunca precisei disso! Será que esse Linux é assim complicado? Será que vou conseguir usá-lo?

Não vou conseguir responder essas perguntas para você, mas vou tentar ajudar. O primeiro erro das pessoas que querem difundir o software livre é de assumir que o Linux é um sistema operacional que serve para todos os usuários. O Linux é um bom sistema operacional, de fato é um excelente sistema, mas ele não resolverá todas as necessidades de todos os usuários, porque isso é impossível. Então antes de sair pela internet baixando qualquer distro de Linux há certas coisas que você deve considerar:

- O Windows é um produto comercial, o Linux está tornando-se um produto comercial. Pode não parecer muito, mas essa pequena diferença significa um abismo prático. O Linux tem peculiaridades devido à sua descendência (UNIX) e seu modelo de desenvolvimento (Software Livre). Encare sob a seguinte ótica, para a Microsoft o importante é que o Windows seja fácil de usar, para os desenvolvedores Linux o importante é o sistema ser seguro e estável. A facilidade de uso só irá aparecer como terceira ou quarta preocupação da maioria dos desenvolvedores. Esse modelo de desenvolvimento deixou o Linux muito bom, mas pouco amigável se comparável à outros sistemas;

- O Linux é diferente do Windows. Você não irá sentar-se pela primeira vez em frente à um Linux e operá-lo como se vocês fossem velhos amigos. Você precisará de tempo para aprender a operá-lo, a resolver pequenos problemas de configuração, a usar todo seu potencial de maneira adequada. Para aprender a usar algo novo você leva tempo e precisa esforçar-se bastante. Pense sobre quanto tempo você levou para aprender a dirigir um carro, ou uma bicicleta. Computadores e sistemas operacionais são bem mais complexos que carros e bicicletas, então aprender a usar essas maravilhas tecnológicas exige de você dedicação. O tempo que levará para você tornar-se hábil no Linux é proporcional à sua disponibilidade para ler documentação e navegar em fóruns e afins em busca de soluções para problemas típicos dos usuários de primeira viagem;

- Muitos programas bons existem para Linux, mas existem áreas onde não há programa algum. Coisas como navegar na web, office, ouvir e criar mp3, gravar cds e dvds, desenvolver na maioria das linguagens, e boa parte das tarefas comuns do dia a dia estão muito bem suportadas no Linux. Nichos específicos, no entanto, como editoração, criação de vídeos, CAD, etc, ainda possuem suporte muito restrito e aplicações que não encontram-se prontas para uso comercial. Pesquise na web sobre a disponibilidade das aplicações que você necessita e considere que talvez você não encontre o programa que você deseja para Linux. Você pode encontrar substitutos ou às vezes pode não encontrar programa algum para as tarefas que você deseja;

- Considere que o Linux é um sistema operacional completo e que portanto irá ocupar muito espaço em disco (cerca de 3GB para uma instalação completa) já que ele traz todos os programas que um usuário desktop iria querer. Analise seus HDs e decida se há espaço bastante para o Linux em seu sistema e considere as diferentes opções de particionamento. Não é objetivo deste artigo entrar nos detalhes de uma instalação de Linux ou de particionamento de discos. Existe muito material na internet sobre esses assuntos, mas falando em dividir HDs um artigo que pode interessar é o Particionamento de Discos do Bruno Torres

O Linux é para mim, como consigo o Linux?

Se você leu e ponderou sobre tudo até agora e continua avançando é porque está mesmo interessado em conhecer e instalar o Linux, que bom! Existem duas maneiras de ter seu primeiro contato com o Linux. A primeira e mais recomendada é instalar o Linux no seu HD do jeito tradicional. A segunda é usar o que chamamos LiveCD. Um LiveCD é uma mídia que possui um sistema operacional Linux completo e pronto para rodar. Se o seu PC suporta boot a partir do CD-ROM você poderá usar esse Linux do LiveCD sem preocupar-se com particionamento dos HDs e sem o risco de alterar algo de maneira irreversível em seu computador. Enquanto que instalar o Linux de verdade em seu sistema e usá-lo o maior tempo possível é a melhor maneira de aprender a usar o sistema, um LiveCD pode ser uma boa idéia para que os mais leigos acostumem-se com tudo antes de ir muito longe em assuntos técnicos do uso de computadores, como o particionamento e os dispositivos.

Abaixo separei os usuários por categorias e recomendo uma versão de Linux para cada classe de usuário. Não é uma receita, algo como você deve usar isso! É um ponto de partida. O grande barato do Linux é que existem 200 distros boas, todas são muito parecidas por serem o mesmo sistema, mas todas são diferentes em sua personalidade. O único jeito de saber qual o Linux ideal para você é usar um por um e escolher! O que eu faço aqui é dizer: comece por este aqui pois será mais fácil para você:

-Usuários totalmente leigos (pouco ou nenhum conhecimento sobre computadores):
Distro Normal: Ubuntu
LiveCD: Ubuntu LiveCD

-Usuários novatos (algum conhecimento sobre computadores):
Distro Normal: Mandriva ou SuSe
LiveCD: Kurumin

-Usuários médios (bons conhecimentos sobre computadores):
Distro Normal: Fedora
LiveCD: Knoppix

-Usuários avançados (elevados conhecimentos sobre hardware):
Distro normal: Debian
LiveCD: não recomendado

Novamente, essa lista é apenas uma referência para começar. Não há lei no mundo que diga que um novato não possa ir direto para o Debian nem que um usuário experiente decida-se pelo Ubuntu. Como eu disse antes o único jeito de decidir-se entre 3 ou 4 distros de Linux é instalar as 3 ou 4 e usar todas. Para que você saiba eu uso Mandriva 2006 e gosto muito dele.

Depois de visitar os sites de várias distros e de baixar seus arquivos e queimar seus CDs ou DVDs você poderá ler a documentação sobre instalação (já disse que o objetivo aqui não é fazer um passo a passo de uma instalação Linux, mas sim dar noções gerais) Mas se você não tiver um gravador de CDs e DVDs poderá recorrer às lojas que vendem mídias das distribuições. É claro que você pode comprar uma caixa oficial de qualquer marca de Linux e pagar por isso, mas você também pode fazer seus próprios CDs ou então comprá-los de fornecedores independentes. Duas boas lojas de confiança são o LinuxMall e o Guia do Hardware onde você poderá encontrar CDs da sua distro preferida por R$ 10 a R$ 15, e isso não é pirataria! 😉

Quando finalmente seus CDs estiverem em suas mãos você poderá usar o Linux e descobrir porque todo mundo anda falando dele. Quando surgirem dúvidas ou problemas você poderá pedir ajuda aos grupos de usuários que sempre estão prontos a atender os novos usuários de Linux. Um bom lugar para pesquisar sobre problemas e pedir socorro é o ForumGDH, outra grande fonte de artigos e informações é o site Viva o Linux. Seguindo essas dicas e visitando esses sites você poderá iniciar sua experiência em Linux com o pé direito e tornar-se mais um fã de carteirinha do sistema do pingüim. Boa sorte!

No próximo artigo falarei um pouco do processo de instalação do Linux, do primeiro boot e de como é o primeiro contato de um novato com o Linux. Até lá!

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