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Voyager: Where no one has gone before

09/05/2010 às 12:11

Durante o lançamento o computador de navegação da Nave Interestelar se confunde, um dos técnicos esquece de subir um patch de última hora e a nave não sabe que está sendo lançada por um foguete. Como está desconectada da propulsão, repetidos comandos de correção de rota são ignorados.

A conclusão é que os sensores principais estão defeituosos, a lógica interna os desativa. Em seguida o computador de navegação (são 3 computadores independentes, cada um com um backup) inicia a queima principal. Só que os sensores ainda estão confusos. Sinais contraditórios aparecem e o controle de atitude primário é trocado pelo secundário. Ainda desorientada a nave corta toda a comunicação com a Terra e entra em um silêncio mortal.

O que parece um péssimo começo é o início da mais bem-sucedida missão espacial da História da Humanidade.

Após o shutdown inicial a Voyager 2 entrou em modo de emergência. Abandonou os sinais de telemetria da Terra e iniciou uma busca por pontos de referência. 79 minutos depois uma mensagem chegou no Controle da Missão: Tudo estava bem. Não havia problema de hardware, a Voyager estava novamente alinhada e em curso para explorar o Sistema Solar e se tornar um emissário da Humanidade para as Estrelas.

Confiando e usando a sabedoria de um Ser Superior (Isaac Newton) a Voyager 2 visitou Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, fazendo uso do empuxo gravitacional desses planetas, um feito de engenharia, inteligência e navegação de precisão, afinal a nave não é exatamente grande, pesa 815Kg com todo o combustível (hidrazina). Nada mau em termos de autonomia.

Lançada em 20 de Agosto de 1977, a Voyager 2 conseguiu esses feitos de exploração e continua até hoje a enviar informações científicas úteis, mesmo a 13.7 bilhões de quilômetros da Terra. Um sinal de rádio leva 12h e 47min para chegar até ela. Qual a precisão requerida? Digamos que é o equivalente a enviar um sinal direcional para um modelo da Voyager de 1mm, a 132x a distância da Terra a Lua.

Mesmo assim a NASA consegue, os dados fluem a uma velocidade de 4800 bits por segundo (dados científicos, frequência de 8,4GHz) e 40 bits por segundo (dados de engenharia, frequência de 2,3GHz). Claro com correção de erro os 40bps caem para 27bps, o que não é de todo ruim, estando a Voyager a 13,7 fucking bilhões de Km de distância.

Isso tudo é conseguido com um conjunto de computadores que somam 517KB de memória, um transmissor auxiliar (o principal falhou no começo da missão) e uma fonte de energia termonuclear de 430W/30V DC. isso no lançamento. Embora a meia-vida do Plutônio-238 seja de 87,7 anos, o gerador da Voyager 2 já está com 58,8% de sua potência nominal, devido ao desgaste dos temopares e outros elementos do sistema. Mesmo assim os modelos teóricos previam uma potência bem menor.

Agora a Voyager 2 está dando sinais de problemas. A NASA não está conseguindo decodificar os dados científicos. Não sabem se é uma falha no software ou a memória física que está com defeito. O idéia é analisar o problema em detalhes para tentar um reset de memória e, se não resolver, identificar o endereço com defeito e programar os computadores para não utilizarem mais aquela região afetada.

De qualquer jeito a Voyager já cumpriu sua missão com louvor, as projeções são que ela tenha energia para operar até 2020, com sorte até 2025, quando toda a transmissão de dados científicos cessará (mas não a telemetria de engenharia). Em tempos de equipamentos tão descartáveis que notebooks são vendidos com bateria não-removível, é admirável ver um artefato tecnológico sobrevivendo nas piores condições imagináveis, funcionando sem parar por 33 anos e ainda produzindo resultados científicos.

Espero que daqui a 40 mil anos, quando a Voyager 2 chegar nas vizinhanças de Andrômeda, não só haja vida inteligente por lá como apreciem o esforço, a inventividade e a capacidade de uma espécie tão falha mas ao mesmo tempo tão genial a ponto de construir uma máquina como a Voyager.

Também espero que ela continue nos informando de sua missão, através de seu perfil no Twitter. Isso mesmo, a Voyager 2 tem conta lá e RESPONDE!

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