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Meninos, eu revi

10/12/2009 às 21:55

Um mercador do conhecimento. Ou o caixeiro viajante da ciência e tecnologia. Jean-Paul Jacob é um mestre do futurismo. Faz previsões, muitas das quais viram produtos, que acabam se popularizando. Quer um exemplo? Em 1989, para uma plateia de centenas de engravatados, o cientista e pesquisador mostrava em um telão o que viria parar nas mãos de qualquer cidadão, com algum dinheiro no bolso, é claro: o computador do tamanho da palma da mão, também conhecido vulgarmente como palmtop, que anos depois aliou-se ao celular e ganhou a alcunha de smartphone. Motivo? Ele não se restringia a um celular ou a uma calculadora.

Todas as traquitanas que ele anunciava na época viriam a se tornar realidade poucos anos depois. Ao final de cada palestra, muito aplaudido, ele saía carregando um computador portátil, que pesava mais de 13 quilos, assemelhando-se às valises de vendedores de beira de estrada. O famoso caixeiro viajante. Quando Jean-Paul Jacob vaticinou que o computador seria minúsculo e caberia na palma da mão, é bom lembrar que aqui em terras brazucas ainda não tínhamos acesso fácil ao computador PC com os disquetes de 5 ¼ polegadas, que só começaram a chegar, por vias do mercado informal, no início dos anos 90.

Nos últimos 20 anos, o pesquisador da IBM vem com regularidade ao Brasil. Presente em palestras, programas de televisão, é fonte garantida da mídia quando o assunto é o que vem por aí. Em encontro com blogueiros, no início de novembro, Jean-Paul centrou sua conversa no quesito saúde e decretou de cara: “A saúde vai mal na era do conhecimento”. Segundo ele, não na mesma progressão que em outras áreas de tecnologia. Sacou de seu laptop (deixando à mostra seu Kindle recém-adquirido), bem mais enxuto do que há 20 anos, telas de uma apresentação, destacando que os erros médicos chegam a matar 100 mil pessoas ao ano nos EUA. “Imagine um acidente aéreo diariamente com morte fatal para todos os tripulantes.” Na opinião de Jacob, é mais seguro viajar de avião do que entrar em um hospital. Ok, é mais seguro viajar de avião do que de carro ou moto.

O pesquisador se queixa da falta de uso de tecnologia para gerenciar informações. “Se tablets, com milímetros de espessura, equivalentes ao tamanho de um cartão de plástico, forem adotados largamente no futuro, todas as informações do pacientes estarão disponíveis a qualquer profissional de saúde.”

Ele citou ainda roupas com sensores para detectar o estado de saúde de passageiros, em aeroportos, além dos ternos anti-H1N1, que não são muito efetivos. Afinal, basta dar um espirro para que a defesa do portador dessa indumentária vá por água abaixo.

“Antigamente remédios eram feitos para curar remédios. Com o conceito de interconexão, as medicações serão feitas para curar certas pessoas de certas doenças. Ou seja, a estrutura genética do indivíduo vai entrar na fabricação e composição do remédio.” Jacob lembra que há cinco anos, a análise de DNA custava 20 mil dólares. Hoje, diz o pesquisador, a análise chega a mil dólares. E deverá custar, em dois ou três anos, 100 dólares, segundo previsões da IBM.

Em um exercício de futurologia, não muito remota, pois já há um produto no mercado, o carro voador poderá se beneficiar dessa interconexão entre o mundo digital e real, levando profissionais de medicina e pacientes para o pronto-atendimento, o antigo pronto-socorro. Jacob mencionou o Terrafugia (), que custa US$ 140 mil.

Ok, o carro voador é uma realidade, mas por que ninguém está comprando o Terrafugia? O pesquisador tem a resposta na ponta da língua, tal qual o mágico com seu truque na cartola ou na manga do paletó.

“Bom ele precisa de uma pista para decolar, um plano de vôo. É preciso ainda questionar se ele é econômico.” Acrescenta também celulares com recursos para telemedicina, com transmissão de imagens de exames de sangue, pressão arterial e jogos para que crianças com câncer lutem contra as células maléficas. Um exemplo viável: jogos para Wii para reabilitar a coordenação motora.

A IBM, por exemplo, vem apostando na campanha Smarter Planet, que não se traduz por inteligência. Em vários campos do conhecimento estamos aproveitando o componente digital. Na Espanha, o Servicio Extremeño de Salud (SES) criou uma plataforma conectando 13 mil funcionários por um sistema de agendamento, capaz de administrar 9 milhões de consultas anuais.

Carros voam, a medicina ainda não tornou tudo assim tão ágil, mas pode apostar que em poucos anos muitas das previsões desse mercador do conhecimento estarão por aí. Pode ser que leve muito tempo para se popularizar. Afinal, em 1990, no Brasil um PC sem disco rígido e dois leitores de 5¼ polegadas custava em São Paulo o equivalente a mil dólares. Nas Casas Bahia ou Pernambucanas, o consumidor leva pra casa de bumbão seu PC com chip bem relativamente poderoso, monitor de tela plana e paga metade dessa mesma quantia em 18 meses.

Não é à toa que o computador passou das classes A e B para as outras camadas. A diarista do andar de cima do edifício onde moro leva mensalmente para sua casa R$ 750. Seu marido, R$ 1.000. Sua casa está equipada com dois computadores e a conexão de banda larga (mas nem tanto) é dividida com as irmãs e primas no quintal. Interconexões? Todas. Ela usa o MSN para falar com sua patroa e administrar as vendas de cosméticos, algo impensável há 20 anos.

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