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Você cuida de sua memória fotográfica?

23/07/2009 às 23:03

Andando pela net encontrei o ótimo blog da United Photo Press que tem por objetivo trazer assuntos referentes à fotografia e ao jornalismo praticado pela entidade. Parte interessante do blog é que ele possuí uma versão em Português (de Portugal, mas já quebra um grande galho) e trata de assuntos não apenas referentes a tecnologia ou técnica, mas entra no plano da formação da imagem quanto expressão artística e intelectual. Um dos textos me chamou muito a atenção por ser um tema que já tratei por aqui algumas vezes e por ir um pouco mais a fundo na questão. Em um texto muito bacana, o autor do blog desenvolve a idéia da banalidade das imagens de nossa geração, e elege como culpada para isso a fotografia digital.

A minha preocupação sempre foi em relação ao cuidado com as imagens digitais. Minha avó, que é um tipo de guardiã da memória fotográfica da família, possuí em suas gavetas fotos com mais de 80 anos. Coisas que vão passando de geração para geração e tem como objetivo ser o porta voz de um tempo que já passou. Antigamente, mais especificamente no começo do século passado, as famílias se reunião em estúdios fotográficos para fazer a tão famosa foto familiar. Hoje não damos muita importância para isso, mas naquela época era uma das obrigações de toda a família. Perguntem para seus avôs e vejam o que eles têm guardado em suas gavetas. Hoje, na era digital, a facilidade em se fazer uma foto é inversamente proporcional para sua importância como fonte de memória. Fotografamos muito, mas não damos importância ao que registramos. Nada é impresso, apenas compartilhado on-line, e logo esquecido ou perdido na formatação de um computador. Manter essa memória intacta sempre foi minha principal preocupação, assim como sempre reunir a família para aquele registro tão importante (talvez não agora, mas daqui algumas décadas serão de grande importância).

O pessoal do United Photo Press vai um pouco mais longe. Além do problema da fragilidade da memória digital, também temos a questão da banalidade das fotografias feitas agora. Segundo o blog, a facilidade de fazer centenas de fotos com um cartão de memória faz com que abarrotemos nossos computadores com fotos banais, mal feitas e sem planejamento. Isso se reflete no fato de não termos interesse nas imagens logo depois de serem vistas apenas uma vez. Nenhuma é impressa e nenhuma se transforma em ícone da memória familiar. Eu vejo o posicionamento do autor de forma um pouco radical, mas tenho que concordar com eles em linhas gerais. Quando era adolescente, não eram todas as famílias que tinham em casa uma câmera fotográfica. Para os momentos especiais (aniversários, casamentos, festas, eventos) comprávamos um filme de 36 poses e cada foto tinha que ser bem aproveitada. Depois de reveladas, as imagens eram colocadas em um álbum e se transformavam em objeto de memória daquele evento.

Hoje, é normal cada membro da família ter uma câmera fotográfica. Um simples aniversário pode render mais de 300 fotos. A quantidade exagerada de fotos absolutamente iguais nos fazem perder o interesse por elas. Podemos colocar em nossos álbuns virtuais ou deixar em nossos computadores, mas nenhuma delas passa a ter importância icônica em nossas vidas. São apenas momentos que se forem perdidos não vão fazer falta. Esse é o grande crime que está sendo perpetrado contra nossa história, mas isso não é culpa da evolução da tecnologia e sim da nossa maneira de encarar o cotidiano e as coisas simples. Podemos não nos preocupar com isso agora, mas fico imaginando em 80 anos o que poderemos mostrar para nossos filhos ou netos.

foto familiar P.S. – A foto familiar acima foi feita em Presidente Prudente em 1920. Na época, não existia fotógrafo na cidade e o serviço tinha que ser encomendado de outra cidade. Podemos não conhecer as pessoas retratadas, mas a imagem acima tem quase 90 anos de idade e continua em perfeito estado no Museu da cidade.

Fonte: United Photo Press

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