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Estudante-Profeta ou jornaleiros não entendem matemática?

Esqueça tudo que você sabe de estatística e probabilidade. Esqueça Teoria dos Grandes Números. Esqueça falácias básicas como viés de confirmação. Parabéns, você já pode fingir que é jornalista e se espantar com o garoto que “previu” a vitória do Chicago Cubs com 25 anos de antecedência.

26/10/2016 às 10:30

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Dizem que loteria é um imposto cobrado de quem não sabe probabilidade. É um imposto bem popular, pelo que se vê no dia-a-dia: matemática é vista como coisa chata, inútil e sem aplicação prática. O resultado, bem, são matérias como esta bobagem.

Aparentemente um estudante nos EUA colocou como frase de seu anuário, em 1993, que o Chicago Cubs iria ganhar o campeonato americano (World Series my ass) em 2016. O sujeito está sendo tratado como profeta, mas há um pequeno problema aqui.

Você não pode tratar um positivo como extraordinário se ignorar os negativos. Eu explico: quais são as chances de alguém jogar uma moeda para o alto e tirar cara 10 vezes seguidas? Mínimas, certo? Você NUNCA viu isso, eu garanto. Só que eu consigo fazer com que isso aconteça. Só preciso da colaboração de uma pequena parte dos filhos do Mr Catra.

Digamos assim: temos um auditório com 512 pessoas. Cada uma com uma moeda. Peço que joguem para o alto. Seguindo a distribuição normal de probabilidade, 50% serão cara, 50% coroa. As que tiraram coroa saem.

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Restam 256 pessoas. Repetem o processo. 128 tiram coroa, saem. Ao final de 10 rodadas, sobrará uma pessoa e ela terá jogado a moeda e tirado cara 10 vezes seguidas.

Ignore todo o processo e você tem um milagre estatístico.

Esse método é muito usado nos EUA para picaretas que vendem livros com sistemas de apostas para campeonatos esportivos, é um esquema simples que dói.

Primeiro o cara consegue um mailing de centenas de milhares de otários em potencial. Para 50% ele manda uma mala-direta falando do produto e dizendo que o time A vai ganhar no final de semana. Para os outros 50%, ele prevê a vitória do time B.

O Time A ganhou. Ótimo, ele agora repete o processo, enviando para metade da turma que recebeu a mala prevendo o time A venceria, um aviso de que o time C vencerá o time D. Para a outra metade, ele prevê o time D.

Depois que ele faz isso 4 ou 5 vezes o sujeito tem em suas mãos “provas” de que o tal livro acertou todas as vezes. Poxa, o que são US$ 40,00? Ele preenche o cupom e espera em casa o método infalível que o tornará rico e famoso.

Isso é parte da Lei dos Grandes Números, um princípio básico da Teoria da Probabilidade.

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No caso do nosso amigo profeta, você está ignorando todos os incontáveis resultados previstos em anuários, cadernos, conversas, biscoitos da sorte que deram errado. O nome disso é Viés de Confirmação, é o famoso mau pressentimento que alguém sempre sente quando acontece um acidente. Que mães SEMPRE sempre têm maus pressentimentos e nada acontece, é um detalhe.

O melhor exemplo de viés de confirmação é aquela imensa bobagem sempre chove em Finados, que detalhei neste texto aqui. Sempre chove AONDE? No Brasil? No mundo todo? Só em países católicos? E no Atacama?

Será que a NASA não teria estranhado esse padrão climático?

Segundo a meteorologia, quinta-feira dia 27 vai chover. As chances são de 90%. Se você falar que sempre chove quinta 27 de outubro estará mais certo do que sempre chove em Finados, pois ao menos no Rio de Janeiro nos últimos 30 anos choveram 21 vezes no dia 27/10. Mas não é um dia mágico, então não há porque dizer que sempre chove.

Igual o garoto profeta. Se os jornaleiros reconhecessem a “notícia” como a bobagem que é teriam que procurar algo mais sério sobre o que escrever, e isso dá trabaaaaaalho.

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