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Reabastecimento de drones em vôo ou: criando uma notícia sobre o nada

Cientistas criam forma de recarregar baterias de drones em pleno vôo; especialistas preveem aeronaves que nunca pousarão e… — será isso mesmo? Quando uma notícia científica vira um clickbait? Clique e leia um pequeno desabafo sobre essa tendência.

25/10/2016 às 19:51

stealth

Naquela imensa e completa bobagem, Stealth, o Drone do Mal que depois vira do Bem precisa reabastecer, e para isso intercepta uma (mais fictícia ainda) estação de reabastecimento, um dirigível automatizado com uma quantidade impossível de combustível.

A idéia de drones reabastecendo em vôo em si não é ruim, tem sido testada direto, e agora um site publicou uma matéria relacionada, com o título Nova tecnologia pode permitir que drones recarreguem em pleno vôo.

Isso é tudo de errado que há com o jornalismo de tecnologia e clickbaits em geral hoje em dia.

Existem algumas regrinhas básicas para traduzir matérias de divulgação científica.

1 — se uma tecnologia é prometida para daqui a uns 5 anos, significa que ninguém tem idéia se é economicamente viável e esperam que você esqueça do assunto. Ex: Bubble Memory da IBM.

2 — se o prazo para “aplicações práticas” é de 10 anos, significa que ninguém realmente acredita que a tecnologia vai sair do laboratório. Ex: grafeno.

3 — se o prazo é de 20 anos, as pesquisas para uso comercial ainda estão na fase papo de bar, e o prazo será mantido independente da passagem do tempo. Ex: tem uns 30 anos que estamos a 20 anos da fusão nuclear comercial.

4 — quando o título for em formato de pergunta, a resposta é sempre “não” e você não precisa ler o resto da matéria.

5 - Quando a matéria fala de algo que intriga cientistas o jornaleiro está tentando vender um mistério além do conhecimento da Ciência que vai mudar o mundo como o conhecemos, quando na verdade intriga cientistas é uma hipérbole para Hum… interessante. Traduzindo para português de leigos: o intriga cientistas é o equivalente a colegas de trabalho especulam intrigados sobre qual local será escolhido para almoço de amanhã.

20090830 Algo muito comum é extrapolar de uma notícia inócua para algo muito além do que foi proposto. É como O sujeito ter inventado o tijolo e o jornaleiro divulgar com uma ilustração artística de Itaipu.

No caso a nova tecnologia de carregamento de drones é… indução. Sim, o mesmo tipo de tecnologia que temos em equipamentos de pura ficção científica como Lumias e Androids.

Os tais pesquisadores pegaram um quadcóptero, dos pequenos, instalaram uma bobina de indução no bicho, tiraram a bateria e colocaram em cima de uma base de carga. Para surpresa de absolutamente ninguém que conheça eletricidade básica, a bobina captou o sinal eletromagnético, o circuito o converteu em corrente contínua e o drone voou. A 10 cm de altura.

È divertido zoar os Banheirões de Humanas, mas é preciso ser honesto quando um experimento básico, de escola de 1º Grau é tirado de proporção e mostrado como incrível tecnologia futurista.

A própria descrição do experimento é uma forçada de barra, das feias. Um dos pesquisadores descreve um cenário onde um drone pode se aproximar de uma base de carga, e ficar pairando recarregando sem precisar pousar. Esse cenário não faz o MENOR sentido. Qual a lógica de manter o drone a cm, ou — ok — metros da base, gastando energia para pairar, e aumentando o tempo de recarga?

Em drones elétricos, meus queridos cientistas, você troca a bateria e manda de volta em segundos: as baterias velhas ficam em solo recarregando na tomada.

Esse exemplo todo foi para explicar a regrinha número 6:

Se o título falar nova tecnologia pode permitir que, significa que algo incrivelmente básico foi criado/testado, e o autor não tem a menor esperança de conseguir verbas para mais pesquisas, então vai inventar toda possível aplicação fantasiosa para ganhar divulgação na mídia. Nenhum pesquisador que preze suas verbas vai dizer não há aplicação prática, essa pesquisa gera puro conhecimento. Jornaleiros cairiam em cima como sharknados.

O frustrante é que esse tipo de chamada vende. Aliens vendem, fosfoetanolaminas vendem, “cientistas” que curam o câncer no Fantástico toda semana, ah esses vendem. Pirâmides mágicas? Milhões de cliques. Texto desmascarando a Pirâmide do Fantástico? 220 comentários, vários criticando o “ceticismo” do autor.

Escrever sobre ciência e tecnologia é complicado, principalmente no Brasil. Sendo realista, todo mundo precisa dos cliques, e a grande maioria do povo só quer clicar em besteira. Qualquer post de idéias geniais de estudantes de design rende muito mais se você exalta a idéia: explicar o motivo de ela ser idiota não gera buzz.

Infelizmente a única pessoa que faz clickbait sem motivo para se sentir sujo é o Gilmar, do E-Farsas, que descobriu uma ótima forma de ganhar os cliques de quem procura e acredita nas bobagens, ao mesmo tempo em que explica o porquê de ser tudo mentira. Pena que é um modelo que o leitor do MeioBit não aceitaria.

Em conclusão, fica um pedido: prestigie quem divulga ciência com qualidade. Não falo pela gente, afinal de contas se você chegou até aqui já mais que demonstrou ter interesse, digo para outros sites. Comente, divulgue, elogie e critique de forma construtiva. Claro que todos queremos cliques, eles viram dinheiro que vira gin-tônicas, mas existem formas bem menos estressantes e mais lucrativas de escrever sobre “ciência”.

Duvida? Faça uma busca no Google por “estudante de design cria”.

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