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Jeff Bezos fez de novo: teste de escape — sucesso total

Jeff Bezos fez de novo. Pela 5ª vez consecutiva seu foguete, New Shepard decolou e pousou em segurança, mas hoje foi diferente: foi o dia do teste do sistema de escape, e o foguete sequer deveria ter sobrevivido. Palmas pra todos (os engenheiros) envolvidos.

05/10/2016 às 18:46

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A Blue Origin é uma das muitas empresas aeroespaciais que surgiram quando o pessoal do Vale do Silício enriqueceu e considerou careta imitar os velhos bilionários torrando seu dinheiro com cocaína, cavalos lentos e mulheres rápidas. Eles preferiram investir em projetos nada lucrativos, com risco alto e mortalidade imensa, mas que são o sonho de todo nerd: espaço.

Bezos não é bobo e sabe que precisa mais que turistas para tornar a Blue Origin lucrativa, por isso está desenvolvendo motores que serão usados por grandes players como a ULA, e tem o Blue Glenn, seu foguete de verdade, que quando ficar pronto dará dor de cabeça a Elon Musk.

Enquanto isso o New Shepard continua a ser desenvolvido. Por mais que não seja um foguete de verdade, já tinha feito quatro vôos bem-sucedidos, decolando e pousando com perfeição. Sua cápsula permitirá que passageiros desfrutem de microgravidade por vários minutos, será um passeio inesquecível.

Turistas não são o único público, incontáveis experimentos serão feitos, astronautas serão treinados com muito mais facilidade do que nos 30 s do Cometa-Vômito. Só que antes disso é preciso se certificar que o foguete é razoavelmente seguro. MUITO nunca é, mas se houver uma chance menor de você ser atomizado, é sempre bom.

Screw you guys, I'm going home!

Screw you guys, I'm going home!

A Blue Origin já havia testado em solo seu sistema de escape, hoje foi a vez de testar em vôo.

O sistema é bem simples: um foguete de combustível sólido é acionado, a cápsula com os passageiros se afasta do foguete danificado e depois procede com o pouso normal, usando os para-quedas. Em teoria, na prática muita coisa pode dar errado.

Por isso o teste é feito nas piores condições possíveis. No de hoje o New Shepard decolou normalmente, até o ponto chamado Max-Q, quando o veículo está no momento de maior pressão dinâmica, isto é: a resistência do ar, resultado da velocidade do foguete com a densidade atmosférica naquela altitude apresenta a maior resistência. Mais abaixo e o foguete não está rápido o suficiente, mais acima a densidade do ar é mais baixa então a velocidade não afeta tanto.

No ponto de Max-Q o foguete está empurrando a coluna de ar mais “pesada” e é onde as maiores cacas podem acontecer.

Partindo desse princípio a cápsula precisa funcionar nessas condições, e ah, crianças, como funcionou.

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Aos 45 segundos de vôo e a 788 km/h (eu falei que não era um foguete de verdade) o sistema de escape foi acionado, o motor queimou durante dois segundos e a cápsula se desviou, deu uma cambalhota, acionou os paraquedas e pousou suavemente. Já o foguete foi outra história.

Segundo as simulações que os caras da Blue Origin fizeram o foguete tinha poucas chances de sobreviver. Usaram inclusíve Método de Monte Carlo, trabalhando com toneladas de variações nos fatores envolvidos. Faz sentido: um foguete no seu momento de maior tensão, subitamente é atingido por um jato com 7.000 libras de força, e em uma fração de segundo seu modelo aerodinâmico é radicalmente alterado.

De uma aerodinâmica chapeleta o foguete subitamente se descobre vítima de um mohel míope com Parkinson (pergunte a seu amigo judeu). Sério, imagine modelar o fluxo aerodinâmico disto:

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Um anel que funciona como aileron se estiver no ângulo errado, uma superfície plana… é um pesadelo. O New Shepard deveria ter se descontrolado, rolado e se despedaçado ao perder integridade estrutural. Deveria, mas entra em ação a genialidade e competência dos engenheiros da Blue Origin.

Não há provisionamentos para recuperar o foguete após uma separação traumática (snif, nunca tem volta) afinal ninguém em são consciência se ejetaria de um foguete plenamente funcional. Se você apertou o eject, ou o Império está abordando a nave, os Borgs assimilaram a maior parte da tripulação ou a fita chegou ao fim do Lado A (pergunte a seus pais). O foguete já é dado como perda.

Desta vez não. A mudança de massa foi brutal, a força do motor de escape gerou um vetor de aceleração completamente alienígena no foguete e a aerodinâmica mudou completamente, mas como ele subitamente estava bem mais leve, cheio de combustível e com o motor plenamente funcional, o software começou a corrigir loucamente todas as forças aleatórias que surgiam, compensando os desvios e mantendo o New Shepard em curso.

Funcionou, mas aí veio a segunda parte. Ele subiu mais alto do que em qualquer outro vôo. Na hora da descida dependia dos freios aerodinâmicos e manobradores instalados no anel, será que o jato do motor de fuga os teria danificado?

A resposta veio quando ele pousou. Spoiler: Jeff Bezos agora tem a melhor decoração de jardim de todos os tempos.

Isso, claro, se algum museu não pedir para colocar o New Shepard em sua exibição permanente, o primeiro foguete humano a fazer cinco vôos e pousos, todos bem-sucedidos. Agora é fazer um último vôo tripulado, só por desencargo, e começar a vender passagens.

Aqui o teste completo:


SciNews — New Shepard escape test & booster landing

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