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Gerdau realiza seu primeiro Hackathon, com pegadinha

Confira o que rolou no primeiro Hackathon Gerdau em São Paulo, evento que contou com diversos participantes e uma pegadinha…

27/06/2016 às 15:02

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Neste fim de semana a Gerdau promoveu o seu primeiro Hackathon, aquela maratona onde desenvolvedores são desafiados a criar uma solução funcional em algumas horas, com direito a prêmios e apoio na hora de tirar o projeto do papel, promovendo trabalho em equipe e também chances para profissionais fazerem novos contatos.

Entretanto, embora a iniciativa seja boa é importante apontar alguns escorregões dados nessa primeira edição.

O evento foi realizado durante o fim de semana na sede da FIAP em São Paulo, no bairro da Aclimação. 45 desafiados, divididos em nove grupos foram incumbidos de apresentar novas soluções com o intuito de fortalecer as relações entre empresas e clientes, seja B2C ou B2B (com foco nesse último) e onde a Gerdau seria a primeira escolha. Todos os participantes são estudantes de graduação, pós ou MBA e não havia limites por instituição.

Com os grupos já definidos uma semana antes e as diretrizes passadas, os desenvolvedores puseram a mão na massa. O interessante dos Hackathons é que ele não é voltado apenas para programadores e outros profissionais de TI, e isso é importante até na hora de definir os times: profissionais e estudantes das áreas de design, vendas, publicidade e desenvolvimento foram todos mesclados para um melhor resultado final apresentado. A gente sabe que um produto final feito só por programadores pode ser excelente, mas dificilmente será user friendly; da mesma forma o profissional de vendas também não entenderá de código, mas saberá se o app pode ser comercializado em seu estado ou não.

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No fim das 36 horas de maratona ininterruptas os grupos apresentaram seus projetos. Os vencedores foram os membros do Nerdau Steel, que levaram para casa cada um um iPhone 6 de 64 GB, um voucher de R$ 1 mil para uso com os cursos de curta duração Shift da FIAP e a possibilidade de incubação do projeto pela Gerdau, no valor de até R$ 100.000,00. O segundo e terceiro lugares também receberam prêmios como vouchers dos cursos e vale-compras da Fast Shop. E como um todo os participantes tiveram a opotunidade de interagir com profissionais e fortalecer seus contatos.

Só que nem tudo é perfeito, e a Gerdau deu uma bela pisada na bola. Ao observar o regulamento (cuidado, PDF) você irá esbarrar em algumas regras bem curiosas, que não condizem com o espírito do Hackathon. Na 10ª cláusula, que trata da propriedade intelectual lê-se no segundo item:

Os participantes se obrigam a ceder à Gerdau, de forma não onerosa e exclusiva, todos os direitos patrimoniais decorrentes dos projetos desenvolvidos durante o Evento, sempre reservando para si os direitos morais a eles associados. Os participantes ainda declaram ser livres de quaisquer ônus ou embaraços à Gerdau os direitos patrimoniais ora cedidos.”

Curioso. Todos os direitos sobre as ideias desenvolvidas são de propriedade da Gerdau e não dos desenvolvedores. Embora ao conversar com participantes e ter constatado que a negociação não inclui o código-fonte (e empresa só faz uso dos PPTs e do .APK finalizado), isso não é um procedimento padrão de outros Hackathons. A criação é dos devs e só deles, o procedimento normal é oferecer aporte e projetos de incubadoras.

No terceiro item, temos:

Os participantes do Evento declaram expressamente ceder a sua imagem, nome e som de voz à Gerdau e à FIAP, de forma completamente gratuita, sem qualquer tipo de ônus, em caráter irrevogável, irretratável, com prazo indeterminado, em território nacional ou internacional. A concessão de uso de imagem, nome e som de voz não constitui direito de qualquer espécie ao participante, podendo ser utilizado ou não pela Gerdau e/ou FIAP.”

A Gerdau e a FIAP detém também os direitos de imagem dos participantes, e estes não poderão reclamar sobre uso posterior de suas fotos, nomes e gravações de áudio e vídeo.

Por fim, o quarto item:

Os participantes serão responsáveis pela utilização de suas ideias e pela elaboração de seu projeto, assumindo total e exclusiva responsabilidade decorrente de eventuais reivindicações de terceiros relativos a direitos de propriedade intelectual ou de direito autoral, sendo preservado o direito de regresso ou de denunciação à lide em razão de eventuais questionamentos de terceiros.”

Opa, os desenvolvedores ficam com alguma coisa sim: a responsabilidade legal sobre suas criações. A Gerdau se exime de responsabilidade e qualquer problema posterior, como acusações de plágio não será ela que irá responder, e sim os devs.

Resumindo a história: a Gerdau utilizou o nome Hackathon para absorver ideias dos participantes sem custo, não vai pagar direitos de propriedade intelectual e nem de imagem, e se der problema quem responde são os criadores e não ela. É exatamente a mesma coisa que a Samsung fez cinco anos atrás, com um concurso para desenvolvimento de apps para SmartTVs. É um contrato leonino.

Sugiro um acompanhamento à Gerdau:

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Não nego a importância dos Hackathons, eles são importantes não só para permitir a descoberta de novos talentos como também fomenta trabalho e equipe, e muita gente de outros setores que não o de TI passam a ver a área com outros olhos. O que não pode é um desvirtuamento da ideia original para coletar ideias alheias como a Gerdau fez em sua primeira edição do evento.

Ainda que o evento seja importante pelo aprendizado e networking, esperemos que os próximos patrocinados pela Gerdau não sejam assim.

O Meio Bit realizou a cobertura do evento a convite da Gerdau.

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