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Thunderdome! Maior jogador de Go da Terra × robô do Google

Ke Jie, o mestre de Go nº 1 do planeta desafia o AlphaGo, a IA heurística do Google que aprendeu o jogo mais imprevisível que existe.

07/06/2016 às 11:02

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O chinês Ke Jie, um dos maiores jogadores de Go do mundo

Ao que tudo indica o AlphaGo, a inteligência artificial do Google baseada em heurística que aprendeu a jogar Go e recentemente derrotou Lee Sedol, um dos maiores jogadores do mundo encontrou um rival à altura: o chinês Ke Jie, considerado o número um segundo o sistema de pontuação da Elo (é uma questão delicada, além dele e Sedol o também sul-coreano Lee Chang-ho também disputa o todo da lista e os métodos de classificação não são uniformes) não só desafiou o algoritmo como afirmou categoricamente que não será vencido.

Vamos recapitular: o Google DeepMind é um laboratório de pesquisa em inteligência artificial, aprendizado de máquina e redes neurais especializado em fazer softwares aprenderem a se comportar como humanos, por tentativa e erro e não apenas por memorização e imitação. A intenção de Demis Hassabis, VP de Engenharia e IA da divisão era criar um software heurístico capaz de concatenar decisões tal qual um ser humano faz, diferente de desenvolver um software que aja por pura lógica, o que é até fácil.

No entanto, fazer uma IA considerar todas as soluções possíveis, pesá-las, catalogá-las e escolher uma entre muitas que mesmo não sendo a que gere melhores resultados, é a mais adequada a se tomar em um determinado momento por ser de mais simples execução ou por outros fatores é muito difícil. Isso é heurística, a capacidade de se tomar decisões que mesmo que pareçam ilógicas e prejudiciais dêem resultados muito à frente. Por esses motivos convencionou-se dizer que ensinar tal coisa a um computador seria a conquista de um novo patamar e o Go, o jogo milenar seria perfeito para isso, dadas as suas características únicas e sua magnitude.

Em um tabuleiro de 19 × 19 quadros (o maior e mais tradicional, utilizado em torneios por jogadores profissionais) as peças brancas e pretas, além dos espaços podem assumir, excluindo jogadas suicidas em torno de 10172 movimentos; para se ter uma ideia estima-se que o universo observável possui entre 1078 e 1082 átomos. Quantidade de partidas possíveis? Apenas 10761 ou 1 seguido de 761 zeros, e não estamos nem perto de concluirmos todas as jogadas possíveis. Detalhe, o Go surgiu entre 2.500 e 3 mil anos atrás.

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Pois bem: o DeepMind desenvolveu o AlphaGo, um programa criado combinando redes neurais que operam em camadas não lineares de relação e o Monte Carlo Tree Search (MCTS), um algoritmo de busca heurística muito utilizado em games modernos e é uma das principais ferramentas empregadas hoje para fazer um computador tentar aprender Go. Os testes foram bem-sucedidos o suficiente para Mountain View propor o desafio a Lee Sedol, um dos maiores jogadores do mundo.

Após uma semana o AlphaGo emergiu vitorioso, derrotando Sedol por 4 a 1. O sul-coreano ainda deu uma de orgulhoso, dizendo que não se empenhou o bastante e cometeu erros, afirmando que seria capaz de derrotar o algoritmo. Claro, devemos lembrar que diferente do ser humano a máquina não se cansa e nem se estressa, embora possa se confundir ou ser encurralada. Foi assim que Sedol venceu uma das cinco partidas.

Então surge Ke Jie. O chinês de 18 anos é considerado um prodígio do Go, tendo inclusive derrotado o próprio Sedol em uma ocasião passada e por causa de seus feitos, é considerado o maior jogador do planeta (há quem conteste, mas como eu disse é complicado). E ele é um tanto arrogante. Em março, após o AlphaGo vencer a primeira partida contra Sedol ele disse o seguinte:

Eu não quero competir contra o AlphaGo porque julgando sua partida contra Lee (Sedol), ele é mais fraco do que eu. Eu não quero que ele (o algoritmo) copie meu estilo (…). E mesmo que vença Lee, ele não pode me vencer.

Esta é uma preocupação legítima, porque além da IA ter sido alimentada com milhares de partidas arquivadas ele analisa e se adapta ao estilo do adversário, e responde à altura. Medo talvez? Pode até ser, já que depois do AlphaGo marcar 3 × 0 contra Sedol ele afirmou que o software era “perfeito” e que mesmo ele poderia ser derrotado.

Bom, agora parece que Jie está disposto a enfrentar a IA. De acordo com Yang Jun’an, executivo representante da Federação Internacional de Go o chinês irá enfrentar o AlphaGo até o fim do ano, sem dar maiores detalhes. Do lado do Google, o porta-voz da DeepMind disse que a divisão ainda está analisando os próximos passos e não tem nada a comentar no momento, dando a entender que o anúncio foi unilateral.

É possível que Ke Jie tenha se sentido pressionado a defender a capacidade humana frente à máquina e fazer valer suas bravatas, mas numa última análise pode ter havido pressões externas por tal decisão. O atleta, como o maior do mundo é para variar um herói nacional, e não seria tão improvável que a China esteja preparando um espetáculo para humilhar não só o AlphaGo como o Google, o representante do capitalismo norte-americano que o atual secretário-geral Xi Jinping se empenha em remover do País do Meio. É fato que Mountain View está voltando a atuar na China, mas foi obrigada a baixar a cabeça e aceitar as condições de Pequim.

De qualquer forma, caso o embate aconteça mesmo serádivertido ver o chinês levando um baile do AlphaGo.

Fonte: Xinhua (em chinês).

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