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“Brasil espiona agressivamente seus cidadãos”? Não é bem por aí.

Um site revelou um relatório de uma ONG e concluiu que a América Latina — e o Brasil — “espiona agressivamente seus cidadãos”. Os dados estão lá, realmente compramos softwares de uma empresa de hacking italiana, mas será que essa espionagem e invasão é real, exagerada ou justificada? Clique leia e decida.

08/04/2016 às 8:05

mario-fofoca1

Um efeito interessante quando o Brasil se mostrou todo indignado com a terrível revelação que os EUA espionam comunicações de outros países foi a imagem de que somos bonzinhos e legais, aliás o mundo todo é e só o malvadão Bush Obama usa sua NSA para bisbilhotar todas as outras nações pacíficas.

Que todo país que se preza tem um serviço de espionagem ninguém comenta, e no caso do Brasil a opinião pública ficou entre o somos bonzinhos não fazemos isso e somos incompetentes demais pra fazer isso. Eu tenho minhas dúvidas, mesmo tendo conhecido um agente da ABIN com cartão de visita.

O Brasil tem uma história bem rica em termos de espionagem, um bom exemplo pode ser lido no excelente e altamente recomendável livro Crônica de uma Guerra Secreta, de Sérgio Correia da Costa. Narra as atividades dos espiões alemães e a contra-espionagem brasileira e aliada durante a Segunda Guerra.

O que muita gente não sabia é que embora o Brasil faça todo o discurso Viva Snowden, Viva Assange, na prática somos exatamente iguais a todos os outros países, ao menos é o que diz um relatório (cuidado, PDF) da ONG chilena Derechos Digitales, de título HACKING TEAM MALWARE PARA LA VIGILANCIA EN AMÉRICA LATINA, escrito pela jornalista Gisela Pérez de Acha.

O relatório é fruto de um vazamento de informações da empresa de segurança italiana Hacking Team, que foi hackeada ano passado e teve 400 GB de informações internas divulgadas, inclusive listas de clientes, detalhes de contrato e código-fonte dos aplicativos do grupo, que incluem keyloggers, root kits, cavalos de tróia e toda uma série de malwares usados para comprometer máquinas alheias.

Teeeecnicamente seus clientes são legítimos e trabalham dentro da Lei. Eu acredito, não tenho motivos para achar que esse tipo de tecnologia seria abusado por nações exemplares como Albânia, Azerbaijão, Egito, Malásia, Nigéria, Rússia, Arábia Saudita, Sudão, Turquia, Emirados Árabes, Uganda e Vietnã.

A pesquisa da Derechos descobriu que a América Latina é assídua usuária, e pelo menos no México, Colômbia e Equador os softwares da Hacking Team foram usados para vigiar ativistas e membros da oposição.

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Os ataques são multiplataforma, o software da Hacking Team consegue se instalar em OSX, Windows, Linux, Android, Blackberry, iOS, Symbian e Windows Mobile. Sim, até os hackers ignoram o Windows Phone.

Dois anos antes de o governo Dilma chilicar (atenção militantes é o Governo chilicando, não a presidente) com as revelações de Snowden, ele era apresentado ao software da Hacking Team, nas mãos da empresa de segurança Defence Tech. Em 2015 a Polícia Federal assinou um contrato com a YasniTech (outra associada) para comprar o software da Hacking Team para um projeto-piloto. O valor foi bem baixo, R$ 75 mil. Se o projeto fosse aprovado o contrato seria de 1.750.000 euros (não descobri se foi dado prosseguimento).

O projeto se espalhou pela PF, depois soube-se que a Hacking Team também estava conversando com o Exército, com as Polícias Civis do DF e do RJ, com a PMSP e até com a Procuradoria Geral da República. A 9ISP, empresa que agora fazia as negociações escreveu em um relatório que

“não há nenhuma legislação específica ou uma doutrina legal clara para o uso de um produto como o da Hacking Team”.

Segundo o relatório da própria Derechos Digitales:

“Quando a Polícia Federal adquiriu o software da Hacking Team, o utilizou e acordo com a devida autorização judicial”

Mais adiante no relatório dizem que de um modo geral o uso do tal software na América latina tem sido feito dentro da Lei, com poucas e notáveis exceções. Não entendi o sensacionalismo da chamada do Next Web, mas combina com a Derechos Digitales, que se posiciona contra o uso de ataques 0-Day para invasão de equipamentos, indiferente se são autorizados ou não.

É como se houvesse um imperativo para uma “briga justa”: se o investigado usou criptografia corretamente, não “merece” ser invadido por agentes de inteligência munidos de autorização judicial e hacking skills dignos do Neo.

O argumento da Caixa de Pandora é bem forte: esse tipo de poder vai ser abusado. Funcionários da NSA usavam direto seus terminais para espionar ex-namoradas e similares. Pessoas são sempre o elo mais fraco e depois que a informação vaza, Inês é morta. Só que ao mesmo tempo não ter acesso a esse tipo de tecnologia é dar a todos os criminosos do país um território livre onde podem interagir e se comunicar sem medo.

Hoje praticamente ninguém é contra gravações legais de conversas telefônicas, qual a razão de comunicações digitais terem tratamento especial?

A Polícia Federal não fez nada de errado, ao menos segundo o relatório da Derechos Digitales, mas continua sendo hipócrita, visto que apenas a coleta de metadados de ligações telefônicas pela NSA foi considerado ilegal. Complicado se encher de considerações morais e éticas enquanto você faz exatamente a mesma coisa.

Fonte Tendenciosa: The Next Web.

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