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As fronteiras móveis do Google

Essa era até esperada — um sujeito descobriu que o Google prefere não se meter em disputas internacionais e prefere jogar dos dois lados; dependendo do país onde o Google Maps é acessado, as fronteiras nacionais se movem para se adequar aos interesses nacionais…

28/03/2016 às 18:41

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Em um episodio de West Wing o presidente Bartlet ganha de presente um mapa da Terra Santa de 1709. Ele acha lindo e quer pendurar na parede mas durante o episódio todo os assessores dizem que não. A sequência é excelente, o argumento irracional é que o mapa não reconhece Israel e isso ofenderá pessoas.

A argumentação racional do presidente, de que Israel não existia em 1709, é respondida com o mapa não reconhece Israel. Não faz sentido, é uma coisa besta pra se ofender: é um mapa histórico, reclamar disso é se rebaixar ao nível dos floquinhos do Tumblr que chamaram o DiCaprio de racista porque seu personagem em Django Livre se referia aos escravos como “niggers”.

Só que o mundo não é racional, e no Grande Esquema das Coisas os assessores do presidente estavam certos. Países vão se ofender, por mais que isso seja infantil, e idiotas como este sujeito aqui vão usar mapas antigos pra justificar seu discurso anti-Israel.

Brigas de fronteiras são bem comuns. A equipe do Top Gear foi ameaçada de morte e perseguida na Argentina por causa de uma placa de carro que — com muito esforço — poderia remeter às Falklands, aliás fale Falklands lá e você já está em maus lençóis.

Um caso clássico é a República da China, ou Taiwan. Não exatamente uma Melhor Coréia mas ambos são Estados não-reconhecidos pela maioria dos países. Nem o Brasil, que é um lesmão diplomático, reconhece Taiwan. Motivo? A China China corta relações com quem faz isso. Fica de mal. Presidentes dos EUA se policiam para nunca jamais chamar Taiwan de China, ou vão ouvir horrores.

Só que o mundo inteiro negocia com Taiwan, os EUA vendem armas a rodo pra eles, e com PIB de 1 trilhão de dólares e renda per capita de US$ 45 mil, a província rebelde vai muito bem, obrigado.

Os ofendidos, claro, não querem saber e estão por todas as partes: o Google faz o possível pra agradar todo mundo, como descobriu Ethan R. Merel, que publicou em um paper publicado no Columbia Journal of Transnational Law.

Aparentemente o Google varia as fronteiras de acordo com a versão aprovada em cada região e, em alguns casos, como boa vaselina, fica em cima do muro. A Crimeia, recentemente roubada à mão armada da Ucrânia pela Rússia aparece para nós separada por uma linha pontilhada, enquanto fronteiras nacionais são linhas sólidas. Na Rússia ela aparece como sendo russa, na Ucrânia como sendo ucraniana.

A Geleira Siachen é uma área de disputa entre China e Índia. Na China, o Google Maps mostra assim a fronteira:

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Já o Google Maps Índia mostra assim:

2014-06-22_siachen_glacier_co.in.cropped

Neste site você pode ver várias outras disputas de fronteiras “resolvidas” pelo Google Maps.

Sei lá, mas acho triste isso ser importante o bastante pra existir: quer dizer que há gente que se preocupa com um mapa na internet em vez de sentar a bunda, dialogar e negociar seus problemas como adultos racionais.

Claro, a menos que seja o Uruguay, aqueles malditos ousam contestar uma área de fronteira com o Rio Grande do Sul. Eles que venham, mostraremos que um filho teu não foge à luta. Às armas, companheiros!

Fonte: Popular Science.

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