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Revista Time — foto sobre guerra e estupro causa polêmica

Fotografia de vítima de estupro durante a guerra civil no Sudão do Sul aparece na capa da revista Time e causa polêmica nas redes sociais.

18/03/2016 às 15:37

revista time

Somos muito práticos em discutir problemas do mundo (sociais ou ambientais), mas somos muito ruins em fazer alguma coisa. Pessoas em partes distantes, e economicamente desinteressantes, do mundo morrem aos milhares e estamos mais interessados com o final do Reality Show bacana da TV. Pessoas morrendo na Síria? Sim, é importante, mas hoje tem o final do MasterChef, vamos discutir isso depois. Estupros no Sudão? Uma grande tragédia, mas no momento estou vendo a briga entre coxinhas e petralhas. No final, o grande público não se importa, pois é longe e fazer algo efetivo demandaria muito trabalho (bater panela só é alguma coisa se você estiver vendendo ela). E a vida segue.

Confesso a todos que estou muito cheio dessa onda do politicamente correto que só vê um lado da história. Geralmente o lado mais cômodo (e nem estou falando dos malucos que aparecem no Twitter). Por isso que não acho estranho a revolta e polêmica que causou a capa da Revista Time da semana passada.

A matéria que originou a foto tem o singelo título de “The Secret War Crime: Ending the source of conflict rape” e estampa na capa da revista a foto de Ayak que foi repetidamente violada por soldados de seu país durante a guerra civil no Sudão do Sul. A foto, muito bonita, foi feita pela fotógrafa de guerra Lynsey Addario que também possui um histórico de agressão sexual em conflito. Em 2011 ela foi capturada por soldados do exército líbio e sofreu agressão sexual dos mesmos.

A foto mostra Ayak ao final de sua gestação de 9 meses. A reação contra a publicação foi gigantesca. Várias pessoas declararam (via Twitter, a única fonte de movimentação social que essas pessoas conhecem) que a revista estava se aproveitando da moça, colocando uma vítima de estupro semi-nua em sua capa. Houve defensores do posicionamento da revista, mas quem espalha algo negativo sempre tem mais visibilidade.

A capa é perfeita. Em sua simplicidade ela cumpre o objetivo de informar e, acima de tudo, nos agredir. Uma martelada em nossa consciência por nos lembrar que o mundo é escuro e cruel e que não fazemos nada, e as vezes nem nos importamos, para mudar isso. A guerra civil no Sudão do Sul foi bárbara. Além de estupros sistemáticos também há relatos de canibalismo forçado (pessoas eram obrigadas a comerem parentes e membros da comunidade).

Lyndsey, na mesma revista, assina um artigo intitulado “The Secret War Crime: How Do You Ask Women to Relive Their Worst Nightmares”, onde conta a história de como foi a experiência e o processo de fotografar Ayaka para a capa da revista. Temos aqui o indicativo de como foi a conversa inicial, o desenvolvimento do ensaio e como a modelo reagiu a toda a experiência. Para a fotógrafa parecia que o próprio ato de fotografar Ayak e seu filho que estava para nascer deu-lhe a oportunidade de comemorar a mesma coisa que seus agressores haviam tentado roubar dela — sua beleza e sua dignidade.

Ayak, from Malakal, in South Sudan, poses for a portrait in a safe house in Uganda, December 8, 2015. Ayak grew up in Kakuma refugee camp in Kenya, and returned back to South Sudan with her family after independence. Shortly after returning, fighting resumed, and Ayak and her family fled from Malakal to bentiu. her mother was killed, her father died of a suspected heart attack along the way; Ayak was raped en route to bentiu. She eventually made it to the UNMISS camp in bentiu, where she lived for over one year, She was raped by armed men while living within the UNMISS camp. Ayak is now 9 months pregnant from the rape, and expecting her child any day. As the world takes more notice of rape being used as a weapon of war, congos dark history of sexual violence in conflict has much to teach the world on how to prevent rape, and how it can help survivors heal physically, emotionally, and socially. (Credit: Lynsey Addario for Time Magazine)

Ayak, from Malakal, in South Sudan, poses for a portrait in a safe house in Uganda, December 8, 2015. Ayak grew up in Kakuma refugee camp in Kenya, and returned back to South Sudan with her family after independence. Shortly after returning, fighting resumed, and Ayak and her family fled from Malakal to bentiu. her mother was killed, her father died of a suspected heart attack along the way; Ayak was raped en route to bentiu. She eventually made it to the UNMISS camp in bentiu, where she lived for over one year, She was raped by armed men while living within the UNMISS camp. Ayak is now 9 months pregnant from the rape, and expecting her child any day. As the world takes more notice of rape being used as a weapon of war, congos dark history of sexual violence in conflict has much to teach the world on how to prevent rape, and how it can help survivors heal physically, emotionally, and socially.
(Credit: Lynsey Addario for Time Magazine)

A fotografia também serve para denunciar. Se você se sentiu ofendido por essa capa, então a foto cumpriu a sua tarefa. Resta saber se a sua ofensa está ligada ao seu senso estético ou se simplesmente pelo fato de levar uma vida preocupada com coisas fúteis.

Fonte: Petapixel.

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