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Fotógrafos Lambe-Lambe: patrimônio cultural?

22/03/2009 às 17:14

Essa semana me deparei com uma notícia muito curiosa. A cidade de Belo Horizonte (MG) está com um projeto para transformar a profissão de Fotógrafos Lambe-Lambe em patrimônio cultural. Segundo a prefeitura, o desenvolvimento da tecnologia vem acabando com os últimos remanescentes dessa importante atividade que se iniciou no começo do século XX como contraponto aos caríssimos estúdios fotográficos que existiam nas grandes cidades. Os Lambe-Lambe eram fotógrafos ambulantes que ficavam nas grandes praças ou percorrendo as periferias das cidades oferecendo os serviços de fotografia; Os clientes mais comuns eram famílias que queriam um retrato de todos os seus membros ou o registro de crianças.

Porém, a reportagem, que foi publicada no G1, deixa mais dúvidas do que esclarecimentos. O processo fotográfico que derivou o nome de Lambe-Lambe está morto e enterrado. Encontrar material para as antigas câmeras de médio e grande formato é uma tarefa muitas vezes impossível. Provavelmente existam fotógrafos que consigam produzir a emulsão necessária para as câmeras de placas de vidro, mas isso seria para uso próprio, e no Brasil seria caríssimo. Os fotógrafos da Praça de Belo Horizonte, que se intitulam Fotógrafos de Jardim, já estão trabalhando com câmeras digitais e impressoras jato de tinta. O que a Prefeitura Municipal quer resguardar é a profissão e não o processo.

Mas, pensando de uma maneira prática, o que se pode fazer? Em outra reportagem, publicada pelo Uol e muito mais completa, um dos fotógrafos da Praça Rui Barbosa, conhecida também como Praça da Estação, diz que consegue faturar entre R$ 500,00 e R$ 700,00 líquidos em um mês. Com a profissão tombada pelo patrimônio histórico municipal, a única opção que vejo é isentar esses profissionais do pagamento de qualquer tributo, que nesse caso seria a licença anual de autônomo. Mais do que isso, seria uma ajuda de custo, mas isso já entra em outra discussão. Alguns anos atrás, um grupo de fotógrafos tentou transformar a fotografia em preto e branco em patrimônio cultural da humanidade. O objetivo era isentar todos os produtos envolvidos no processo de impostos, tornando a atividade mais barata e acessível. Até agora não deu em nada.

Só para complementar, o nome Lambe-Lambe surgiu do hábito que os fotógrafos tinham de lamber a placa de vidro para saber em qual dos lados estava a emulsão fotográfica. Como todo o processo tinha que ser feito no escuro, dentro da câmera escura, a língua era o fator determinante para que a placa fosse colocada na posição correta dentro da câmera. A pessoa fotografada tinha que ficar imóvel por quase um minuto na frente da câmera. Todo o processo, da tomada da foto a revelação da cópia em papel, levava 15 minutos.

Sou totalmente a favor do reconhecimento de todos os aspectos da profissão de fotógrafo, até porque nem somos reconhecidos em lei como tendo uma profissão. E os antigos Fotógrafos de Jardim ainda tem a vantagem de representar um lado romântico da fotografia. Acho que todos nós possuímos pais ou avôs que tem uma foto dessas guardada em algum canto do armário ou do álbum fotográfico familiar. Eu mesmo tenho uma foto com dois anos de idade montado em um pônei. Hoje eu acho esquisito, mas na época era o máximo.

Vejam aqui um exemplo de fotógrafo de jardim.

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