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Nãotícia de Aviação do Dia: a Betty Aporrinhadora cumpre sua função

Você acha que a mídia está se deliciando com o acidente do avião da Angélica? Acredite, é bem pior que isso. Agora a moda é publicar notícias alarmistas quando NADA acontece. Um 777 da Air France ficou momentaneamente em curso para uma montanha, o sistema de alerta avisou o piloto, ele corrigiu, the end, certo? Errado, virou escândalo. Ao menos é uma desculpa para contarmos a história da Betty Aporrinhadora…

26/05/2015 às 17:46

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A mídia brasileira está se deliciando com o acidente de avião com a Angélica e o Luciano Huck. São bobagens das mais diversas, houve até jornalista perguntando ao piloto se na hora do pouso forçado ele se desviou de bois ou vacas.

O que vemos é uma aplicação da máxima do jornalismo If It Bleeds, It Leads, que em tradução (bem) livre significa “Sangue vende”. As pessoas adoram ler sobre tragédias, o sentimento de elação é imenso, o sujeito se delicia internamente, embora jamais admita para o mundo que o que pensa é “que bom, não foi comigo, dessa eu escapei”.

Em Family Guy esse desejo pelo desastre foi deliciosamente demonstrado num episódio onde um acidente de avião sem vítimas foi recriado em computação gráfica, com consequências cada vez mais trágicas.

A mídia, como era de se esperar, está envergonhando o humor exagerado, e na falta de aviões da Malásia e jornalistas retardados discutindo a possibilidade de a aeronave ter sido engolida por um buraco negro…

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Agora discutem acidentes que não ocorreram, como o de um 777 da Air France que voava de Malabo, Guiné Equatorial para Douala, Camarões. O piloto mudou um pouco a rota para evitar tempestades, manteve o nível de vôo de 9.000 pés. O avião ficou no caminho do Monte Cameroun (a rigor foi o oposto) uma montanha com 13 mil pés.

O Ground Proximity Warning System do avião detectou o obstáculo à frente, a Betty Aporrinhadora soou “Pull Up”. O piloto pensou “ah, bosta”, puxou o manche, subindo pra 13 mil pés, suficiente já que estava passando perto da montanha apenas.

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Agora você já sabe onde fica a Guiné Equatorial

O que aconteceu? Nada. Foi o equivalente a seu GPS esperto apitar avisando que você está acima da velocidade máxima naquela região. A NBC diz que foi um ALERTA DE EMERGÊNCIA, a BBC diz que o avião praticamente raspou na montanha. Tá, então o piloto nivelou a 13 mil pés em direção a um pico com 13 mil pés de altura porque o avião estava com coceira na barriga?

TUDO que aconteceu aqui foi apenas um dos muitos sistemas de alerta cumprindo sua função, nada diferente do seu carro com o aviso de troca de óleo, o indicador de gasolina no fim ou o módulo iJohnnyBravo que alerta que não vai rolar nada e a guria só fingiu que deu mole atrás de carona pra casa.

O sistema em questão, o GPWS — Ground Proximity Warning System foi idealizado no final dos Anos 60 para tentar evitar uma situação comum chamada Controlled Flight Into Terrain, ou, em português, “gente, toca de novo RoboCop Gay, vai!”.

As primeiras versões usavam altímetro radar vertical, hoje além de radar medindo as variações de altitude do terreno abaixo, também medem adiante do avião. Essas sao agregadas a informações de GPS e mapas topográficos detalhados. Num 777 como o vôo AF953 que quase bateu só que não, o EGPWS (sim, usam a versão enhanced) na configuração básica alerta com bastante antecedência, em uma tela como esta:

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não pergunte.

Quer ver em ação? Aqui num simulador. Repare visualmente a distância até as montanhas, e o quanto o GPWS já está em modo desesperado OMFG vamos todos morrer.

anchithme1091 — 777 EGPWS screamin like shit!!!

Sim, esse sistema é desesperado por design, quando avisa com calma significa que você tem tempo de jantar antes de corrigir a rota.

Já a voz historicamente nos EUA é chamada de Bitching Betty, ou Betty Aporrinhadora. A tradição vem da Segunda Guerra Mundial, quando controladoras de vôo dominavam, e os pilotos de caça se acostumaram a receber ordens dela. Psicologicamente fazia mais sentido, uma voz masculina poderia ser de outro piloto e ninguém digno de suas asas aceitaria comandos de um outro piloto.

Isso criou a ilusão de que vozes femininas passavam mais autoridade, e eram mais claras através do rádio ou em ambiente ruidoso. Quando os primeiros sistemas foram criados a primeira Bitching Betty foi Kim Crow, mas várias outras BBs (ou Nagging Noras, como os ingleses chamavam) surgiram, entre elas Patricia Hoyt, que gravou um vídeo para provar que não era uma voz criada por computador:

717voice — Cockpit voice

Com o tempo estudos demonstraram que pilotos odeiam e obedecem igualmente vozes masculinas e femininas, e reagem da mesma forma. O critério para escolha da voz se tornou bem mais subjetivo.

Nos Anos 70 a média de acidentes CFIT era de 3,5 por ano. Em 1974 o GPWS passou a ser obrigatório em aviões de grande porte. O número de acidentes caiu absurdamente, os raros eram por causa de pontos cegos em versões primitivas do sistema ou pilotos ignorando os avisos.

Os EGPWS modernos identificam obstáculos geográficos, taxa de descida além do normal, perda de altitude na decolagem e um monte de outros parâmetros. O que eles não fazem é suprir a carência de neurônios, principal causa de acidentes, como um cargueiro da força área polonesa que se estabacou em 2008, apesar de estar equipado com um EGPWS. O problema: o EGPWS estava com os alertas sonoros desligados, O piloto não estava certificado para usar o equipamento e pra piorar perdeu orientação espacial no tempo ruim.

De resto, se a mídia histérica internacional quer publicar nãotícias sobre quase-colisões, deveriam montar um bureau no Santos Dumont, toda decolagem de lá é uma aventura envolvendo pensamentos não-publicáveis sobre a mãe de quem decidiu construiu um aeroporto mirando para uma montanha.

Cesar Peter — Decolagem Santos Dumont - Fokker 100 - Cmte Lauletta

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