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Raios X estão recuperando a história que o Vesúvio enterrou

Raios X estão decifrando pergaminhos queimados da biblioteca de Herculano, cidade romana que foi destruída junto com Pompeia pelo Vesúvio em 79 EC

23/01/2015 às 11:02

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Em 79 EC os moradores de Pompeia e Herculano teriam visto o inferno, se tivessem tido tempo suficiente para isso. A fúria do Vesúvio foi tamanha que na prática os moradores de ambas cidades romanas que se organizaram na região mal tiveram tempo de rezar para Júpiter, Juno ou quem quer que fosse. Aquele era dia de Vulcano, deus das forjas, e ele estava de PÉSSIMO humor.

Os registros deixados por Plínio, o Jovem atestam para uma das mais catastróficas erupções vulcânicas jamais testemunhadas. Os cidadãos não tiveram a menor chance: enquanto Pompeia foi avassalada pela lava (o que teria dado tempo de fuga, não fossem novos estudos terem revelado que a população foi literalmente cozida por uma forte onda de calor de mais de 600º C), Herculano foi atingida pela explosão piroclástica do Vesúvio, ficando soterrada por metros e metros de cinzas e pedras. Seus moradores nem tiveram tempo de pensar.

Ambas cidades foram consideradas míticas até serem redescobertas em 1738. Tempos depois, em 1752 foram encontrados verdadeiros tesouros em Herculano, que está bem mais conservada que Pompeia (em verdade, ambas são as duas cidades romanas antigas mais bem preservadas que existem. Thanks Vesúvio?): mais de 300 pergaminhos e outros tantos fragmentos, que foram queimados pelas cinzas e gases do vulcão (mais de 300º C) mas de certa forma permaneceram intactos, conservados. A biblioteca da cidade foi, graças à erupção a única da antiguidade que sobreviveu até os dias de hoje.

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Pergaminhos de Herculano queimados — mas conservados — pelas cinzas do Vesúvio

Seria possível ler o que estava escrito neles, distinguindo a tinta de carvão do tecido mas como fazer isso? Desenrolar os pergaminhos estava fora de questão, eles são frágeis demais. Seriam necessárias técnicas avançadas para decifrar os costumes e rotina da antiga cidade. Foi preciso esperar mais de 260 anos, mas agora pesquisadores do Instituto de Microeletrônica e Microssistemas de Nápoles, liderados pelo dr. Vito Mocella têm as ferramentas.

Obviamente que cada vez que alguém tentava desenrolar um papiro o mesmo ia pra cucuia, então a chave seria ler o conteúdo sem abri-lo. Utilizando instrumentos do Laboratório Síncrotron de Grenoble em Paris, os pesquisadores conseguiram identificar o texto, já que a tinta não se impregnou no papiro e ficou como um alto-relevo. A técnica envolve um feixe de raios X como se fosse uma tomografia, que permite medir a velocidade com que a radiação se propaga no material, e com isso foi possível distinguir os diferentes elementos. Os textos recuperados até então estão em grego e contém obras atribuídas a Epicuro e Filodemo de Gádara, pela semelhança nos escritos.

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Prof. David Blank da Universidade da Califórnia analisa um dos pergaminhos de Herculano

A biblioteca, que acredita-se ter pertencido à família de Lúcio Calpúrnio Pisão Cesonino — sogro de um tal Júlio César — ainda preservou muitos documentos que aguardam ser analisados, e embora tenham sido precisos mais de dois séculos e meio para decifrá-los, os documentos passaram muito mais tempos soterrados por cinzas e rochas, só esperando que nós os encontrássemos.

Fonte: NYT.

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