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A Semana no Espaço

Se você passou a última semana ocupado demais pra olhar pra cima, clique e veja parte do que aconteceu na pesquisa e exploração espacial. Foi bem divertido.

08/12/2014 às 0:17

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2014 tem sido um ano e tanto para a exploração espacial, mesmo descontando a mídia ufanista falando de missões da NASA para Marte, algo que não vai acontecer. A verba pra isso vai além de qualquer orçamento da agência e Putin não tem dinheiro pra começar outra corrida espacial.

A última semana foi especialmente agitada. Vamos a um resumão do que aconteceu.

1 — Japão lança a Hayabusa

Em 2003, enquanto a gente ainda estava tentando (e falhando em) replicar os feitos de Werner Von Braun em 1942, o Japão mandou uma sonda, a Hayabusa, para pousar em um asteróide e coletar amostras. Em 2010 ela voltou. Agora foi lançada a Hayabusa 2.

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A missão agora é bem mais complexa. A Hayabusa 2 vai encontrar com um asteroíde em 2018, o estudará por um ano e meio e retornará para a Terra trazendo amostras em 2020. Alemanha e França contribuíram criando um módulo de pouso e a Hayabusa 2 terá até um torpedo, usando uma carga explosiva que criará um jato de cobre derretido a 2 km/s, escavando o solo e revelando sua composição.

Ah sim no mesmo foguete que lançou a Hayabusa 2, dia 03/12 foram de carona duas cargas interessantes. Um é esse cocô espacial aqui:

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O nome desse tolete astral é ARTSAT, obrado pela Tama Art University. O objetivo é, além de colocar arte no espaço, testar o comportamento de materiais impressos em 3D e desafiar radioamadores do mundo todo a quebrar o recorde de distância em recepção de sinais.

O ARTSAT tem um transmissor na faixa de 435 MHz que deve funcionar por uma semana. Estimam que consiga ser captado até a uns 3 milhões de quilômetros da Terra.

Além do ARTSAT foi lançado o Shin'en 2:

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Pesando 2,85 kg; leva um transponder também na faixa de radioamador (mais fácil conseguir licença) e não só é um satélite como é uma sonda interplanetária, que orbitará para sempre entre Marte e Vênus. Obra da NASA? Governo japonês? GAM (MAT)? Não, é um projeto criado por estudantes, da Universidade de Datilografia de Kagoshima.

2 — Habemus Orion

ShantiUniverse — NASA's Orion Space Launch: Success! FULL VERSION

Sem dúvida o grande destaque, talvez do ano. Os EUA estão vivendo um momento de crise, sem nenhuma forma própria de mandar humanos para o espaço, tendo que depender da boa-vontade dos russos. Aliás hoje em 2014 os únicos países com capacidade de vôos espaciais tripulados são a Rússia e a China.

Há várias naves em desenvolvimento, como a Dragon V2 da Space X, a CST-100 da Boeing, novas naves russas, européias e até uma indiana. Sim, eles querem colocar dois astronautas em órbita. Só que nenhuma dessas é projetada para ir além da órbita baixa, onde fica a Estação Espacial.

Os requisitos são muito mais exigentes, os escudos de radiação precisam ser mais fortes, o suporte de vida tem que funcionar por muito mais tempo, o sistema de navegação e propulsão precisa ser mais preciso, por mais que isso soe ruim aos ouvidos…

A Orion, projeto da NASA construído pela Lockheed-Martin é uma versão atual das Apollo, levará 4 astronautas em missões bem além da Terra, e em teoria poderia suportar uma viagem a Marte (a prática é a falta de grana).

O teste ocorreu com um dia de atraso, dia 05/12 depois de barcos não-autorizados na zona de lançamento, excesso de vento que acionou cancelamento automático do lançamento várias vezes e para coroar válvulas de combustível engripando.

A NASA tentou de tudo. O controlador da missão brasileiro (só pode ter sido) sugeriu desligarem os alarmes de vento, e para as válvulas, usaram a técnica desenvolvida pelo grande engenheiro Roy Trenneman: desligaram, ligaram de novo, aumentaram a pressão pra ver se desengastalhavam as válvulas. Não funcionou.

Já no dia seguinte o lançamento foi absolutamente perfeito. A Orion fez duas órbitas, chegando a 5.900 km de altitude, desde 1972 nenhuma nave certificada para humanos foi tão longe. Depois reentrou, a mais de 32.000 km/h, e o escudo de calor funcionou redondinho, como planejado. Aqui o vídeo resumão da missão:

ShantiUniverse — NASA's Orion Complete Mission Time Lapse HD (Launch to Splashdown)

Para não dizer que nada deu errado, faltando 14 s para o lançamento um dos streamings da NASA TV travou. Eu estava vendo pelo USTREAM. O interesse mundial foi enorme. É a chance de sairmos da Terra para um pouco além de nosso quintal. Convenhamos, se fosse em linha reta ao invés de pra cima, um fusca chegaria na ISS em 5 h.

A NASA mesmo com o engasgo momentâneo no streaming fez uma cobertura excelente, com astronautas em vários centros comentando ao vivo detalhes da Orion, gente narrando a transmissão e explicando detalhes, e até um drone no local de pouso, com direito a imagens lindas da costa da Califórnia:

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Foi emocionante e angustiante o período de blackout quando a nave foi envolvida pelo plasma da atmosfera ardendo a mais de 2.000 graus Celsius. Ninguém viu nada assim desde 19 de dezembro de 1972, quando a Apollo 17 amerissou no Pacífico, pondo fim à odisséia humana na Lua.

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Orion, no deck inundável do USS Anchorage.

3 — Ariane 5 ECA

A Arianespace é uma potência. São responsáveis por 60% dos satélites atualmente em órbita. Curiosamente mesmo países com programas espaciais de verdade (você não, Brasil) usam os serviços dela. Não fazem mimimi de soberania, é questão de business, se precisam colocar um satélite em órbita e o melhor custo é um Ariane, que seja.

Arianespace VA221 launches satellites for the United States and India

Fundada em 1980, a Arianespace tem 315 funcionários (o programa espacial brasileiro tem 3 mil pessoas), é uma multinacional com 64,1% de capital francês e o resto de outros nove países. Em fevereiro completaram 250 lançamentos. Com o VA221 são 60 lançamentos bem-sucedidos do Ariane 5.

Dia 06/12 um Ariane decolou da Guiana Francesa levando o satélite DirecTV 14, norte-americano, e o GSat 16, indiano. Ambos foram colocados em órbita geoestacionária, a 36.500 km de altitude. Dá pra acompanhar os lançamentos da Arianespace na página dedicada de streaming deles: http://www.arianespace.tv/ e dia 18 vão lançar um Soyuz, carregando 4 satélites. Fikadika.

GSAT-16 — made in Índia

4 — A New Horizons acordou!

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Só quem joga Kerbal Space Program sabe como é difícil sair do Sistema Solar Interior. A quantidade de energia necessária é enorme. Foguetes imensos levam uma eternidade para enviar cargas minúsculas. Uma missão a Júpiter é um trabalho danado. A Rosetta fez um caminho de rato pegando impulso com vários planetas, para chegar a um cometa.

Por isso mesmo só doidos pensariam em explorar os confins do sistema solar. Ainda bem que a NASA esta cheia de gente insana, daí nasceu o projeto da New Horizons, uma sonda nuclear lançada em 2006 que depois de uma passagem por Júpiter em 2007 para roubar uns 4 km/s de aceleração, rumou para seu destino: Plutão.

Ela é o objeto mais rápido criado pelo Homem, se movendo a 146.256 km/h. Neste exato momento ela já percorreu 94,756% da distância até o planeta que só foi descoberto em 1930. Em 218 dias ocorrerá o encontro mas ela não vai parar.

Não há combustível para frear e Plutão não tem gravidade suficiente para realizar uma captura. A New Horizons passará por Plutão a 10 mil quilômetros de distância e velocidade relativa de 48.600 km/h. Fotografará e medirá tudo freneticamente. Espero que o estagiário tenha tirado a tampa da lente.

Depois disso ela tentará visitar alguns objetos no Cinturão de Kuiper, e seguirá para fora do Sistema Solar. A missão vai até 2026 mas é provável que o gerador nuclear funcione até 2038.

Nesses quase dez anos a New Horizons hibernou 18 vezes. São períodos em que os sistemas são colocados em um estado mínimo, isso economiza componentes, insumos, etc. É rotina mas nunca se sabe se ela vai voltar ou não. Agora, pela última vez, 06/12 foi enviado o sinal de acordar. O sinal, viajando à velocidade da luz levou 4 h 26 min até alcançar a sonda.

O sinal foi especial. É tradição da NASA acordar viajantes com música, e dessa vez a New Horizons escutou uma canção conhecida da maioria dos Trekkers.

Russel Watson gravou para a NASA uma versão exclusiva de Where My Heart Will Take Me.’, tema de abertura de Star Trek: Enterprise. Nada mais apropriado, para honrar nosso embaixador robótico, indo audaciosamente aonde nenhum homem jamais esteve e não estará tão cedo.

Russell Watson & New Horizons Mission

5 — Ah, sim, teve a China…

Para alegria dos pinguins, que agora só precisam se preocupar com as focas taradas, um Longa Marcha 2D 100% chinês lançou com sucesso um satélite 50% brasileiro. Foi o 14º lançamento chinês em 2014 e o 79º satélite colocado em órbita no mesmo período.

Eu tentei acompanhar o lançamento mas a página do INPE exigia uns plugins esquisitos, a imagem era uma webcam apontada para uma tela de computador e o áudio, bem… escutem.

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Imagem: Gustavo Kronemberger via Twitter

Se ficasse só entre nós tudo bem, o que doeu mesmo foi ver gente acostumada com programas espaciais e coberturas de verdade nos sacaneando:

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VA pouca é bobagem.

Bem, é uma pena. A China é uma potência espacial, isso é fato, por mais que os defensores do CBERS-3 tenham xingado o Longa Marcha 2D de foguete xing-ling. Não é qualquer um que coloca jipes-robôs na Lua. Palmas para Beijing pelo trabalho rotineiro mas impressionante e bem-sucedido, e em nome do Brasil, peço desculpas. Seu foguete merecia uma transmissão mais digna.

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