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Impressora 3D quer revolucionar construção civil no 3º Mundo — e isso é péssimo

Yay, que idéia ótima, empresa italiana criou uma impressora 3D que usa até lama para construir casas, salvamos o mundo, certo? Errado. É o tipo de coisa que é péssima para países realmente necessitados. Leia e descubra o porquê.

23/10/2014 às 9:17

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A empresa italiana WASP (World's Advanced Saving Project) tem a melhor das intenções. Preocupados com o déficit de moradias entre a população extremamente pobre do 3º Mundo — ou “Países em Desenvolvimento”, como os politicamente corretos otimistas gostam de chamar. Eu prefiro 3º Mundo, no mínimo dá a impressão que a gente é vizinho dos Thundercats, mas divago.

Voltando: os italianos desenvolveram uma impressora 3D gigante que imprime… choupanas. O negócio é bem legal, usa materiais locais, como lama e fibra vegetal. Devagar e sempre ela ergue as paredes, proporcionando o tão sonhado sonho da casa própria, a máquina é tão eficiente que deve imprimir no final até um cartão do bolsa-família.

A WASP tem como lema: “Nós somos sonhadores, somos criadores, somos Makers: partimos da impressão 3D para salvar o mundo.”

Veja que legal:

Wasp: 3D Printed Houses

Agora, claro, vem a parte onde eu explico que isso é uma péssima idéia, mas para tanto precisaremos viajar no tempo, ao longínquo ano de 1985 e um movimento chamado USA For Africa, que ao contrário do que você sempre pensou, quer dizer United Support of Artists for Africa.

A seca havia piorado muito a situação da fome na Etiópia, e Michael Jackson, bem antes de misturar os termos, se preocupava com criancinhas que não tinham o que comer. usando seu imenso prestígio, reuniu um elenco estelar, criaram um mega-super-hit, uma campanha de doações e arrecadaram mais de US$ 220 milhões, em dólares de hoje. Até eu comprei o disco, e como todo mundo só tacava uma faixa.

Aviões levando mantimentos começaram a pousar nas áreas afetadas, várias organizações de caridade surgiram na esteira do USA For Africa, e até hoje navios chegando com carregamentos da UNICEF, Cruz Vermelha e outros colocam comida na mesa de muita gente por lá.

Isso também DIZIMOU a economia local, criando um círculo vicioso de dependência.

Imagine a situação: Motumbo vive na merda. Literalmente, sua modesta casinha é feita com esterco, material de construção abundante (dsclp). Ele a esposa e os 78 filhos cuidam de uma pequena lavoura familiar. Depois de alguns meses vem a colheita, Motumbo monta em sua carroça, percorre os 1.789 km até a feira-livre na cidade mais próxima, vai vender a produção e tentar conseguir uns trocados para comprar comida, já que as crianças não sobrevivem só com cebola, que é o que ele planta.

Motumbo chega na feira, descobre que ninguém compra mais nada, estão abastecidos com as doações. A produção é jogada fora, estraga ou é vendida abaixo do custo. Motumbo não tem como alimentar suas crianças, vende a fazenda, se muda para um acampamento de refugiados perto da cidade e passa a depender também ele das esmolas dos países ricos.

Isso vale para as cebolas do Motumbo, mas também para o sujeito que ia até a fazenda comprar os tomates, para o dono da vendinha que comprava desse sujeito, para o Pequeno M'Ping, que trabalhava descarregando as carroças…

Uma impressora 3D que faça casas está tirando o ganha-pão de gente que ajuda o vizinho a construir uma casa de lama ou esterco em troca da única refeição do dia. Pior ainda, faz com que essa gente, que por milhares de anos deteve o conhecimento de construir casas, mesmo de bosta, perca esse conhecimento e se torne dependente de uma tecnologia que eles não tem condições de replicar.

A intenção é ótima, o resultado é um material de construção popular entre os Massai, se é que você me entende.

Existem formas bem melhores de ajudar. Um exemplo:

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Esse tio da foto se chama John. Mora em Uganda, um fim-de-mundo com renda per capita anual de US$ 1.500,00. Ele tem uma terrinha onde planta umas verduras e tira dinheiro dessa vendinha. Com isso ele mal ou bem cuida de seus nove filhos. Agora John quer expandir os negócios, precisa aumentar seus estoques de açúcar, óleo, sabão, sal e omo (não pergunte). Para isso John precisa da imensa quantia de US$ 225,00.

Ele provavelmente vai receber esse dinheiro, mas não será doação. John faz parte do Kiva, um projeto de microcrédito, um conceito modernizado e viabilizado por um economista e banqueiro paquistanês chamado Muhammad Yunus. Ele fundou o primeiro banco de microcrédito moderno, e em 2006 ele e seu banco ganharam um Prêmio Nobel. Não de economia, mas da Paz.

O conceito é ao invés de caridade, que ajuda mas não tira as pessoas da miséria, criar formas de fomentar prosperidade, dar a quem precisa a oportunidade e os meios de crescer.

nobel-peace-prize-winner-muhammad-yunus

Muhammad Yunus - #RESPECT

O modelo de microcrédito trabalha com juro zero ou próximo disso e valores baixos. Como John há muitos outros. Godfrey precisa de US$ 150,00 para comprar pesticidas pra sua plantação. Um sapateiro de El Salvador precisa de US$ 500,00 para comprar cola, couro, etc Esse cara no Haiti precisa de US$ 325 para conectar sua casa à rede de eletricidade solar.

O Kiva não é um banco, ele é um intermediário. Ele conecta essas pessoas com gente que quer ajudar, não dando, mas emprestando dinheiro. E sim, o pessoal paga de volta. As taxas de inadimplência na área de microcrédito são mínimas, dependendo da fonte falam de 98% de empréstimos pagos dentro do prazo. Qualquer um pode emprestar dinheiro pra projetos no Kiva, ó valor mínimo é de US$ 25,00.

Projetos de microcrédito não são idéias mirabolantes do Grande Salvador Branco, surgiram de mentes locais, movimentam a economia e não trabalham em cima do coitadismo. Talvez por isso mesmo nem de longe sejam tão populares quanto comerciais com garotinhos emaciados música triste e pedidos de dinheiro que rivalizam a sacolinha da Universal.

É uma pena, pois enquanto todo mundo está deslumbrando com a bosta da impressora de bosta que não vai resolver problema nenhum, o Kiva faz o trabalho pesado, tendo emprestado mais de US$ 625 milhões, em 80 países e com 98,81% desses empréstimos devidamente quitados.

Mas claro, quem vai salvar o mundo é a impressora 3D…

Fonte: RT.

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