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Houston, digo, Moscow, temos um probleminha

Painel solar na nave espacial tripulada Soyuz TMA-14M, que decolou de Baikonur no início da manhã desta sexta-feira, conseguiu se abrir com bastante atraso.

27/09/2014 às 14:40

Soyuz

Falta algo…

Na madrugada de 25 para 26 de setembro uma Soyuz decolou do cosmódromo de Baikonur no Afeganistão Cazaquistão levando Aleksandr Samokutyayev, Yelena Serova e Barry Wilmore, membros da nova tripulação da Estação Espacial Internacional. Só que algo deu errado.

Depois que se separou do veículo de lançamento a Soyuz TMA-14M deveria acionar os painéis solares, mas somente um se abriu. Espaçonaves contam com redundância mas não em todos os sistemas, e algo grande e pesado como um painel solar não é algo que seria instalado sem extrema necessidade. Por isso perder 50% da capacidade de geração de energia não era algo trivial, mas também não era uma emergência.

Rapidamente os engenheiros se reuniram, fizeram as contas e confirmaram que sim, era possível continuar com apenas um painel, compensando com a carga das baterias. Isso, claro, por a Soyuz estar usando a “rota expressa”, que os russos desenvolveram. Normalmente uma nave leva até 3 dias para chegar na Estação Espacial, fazendo um monte de correções e alterações de órbita. Com a manobra russa tudo é sincronizado com segundos de tolerância, a nave é lançada no momento exato e com isso levam apenas 4 órbitas pra chegar no destino. No método normal levam 34 órbitas.

Soyuz_TMA-7_spacecraft2edit1

É assim que uma Soyuz normalmente se parece.

Alguns otimistas acharam que talvez durante as queimas, quando o motor é acionado para acelerar a Soyuz, o painel preso se soltasse. Infelizmente não aconteceu.

Se algo desse errado eles teriam que fazer um pouso de emergência só com as baterias. Possível mas nos limites dos limites de segurança. Do jeito que os russos gostam.

A Soyuz é o fusca do programa espacial russo. Ela voou pela primeira vez em 1967, e apesar de ser continuamente atualizada e estar na 4ª geração, os russos mudam o mínimo possível. São tão pragmáticos que para alcançar alguns controles os cosmonautas usam uma vareta. Só no modelo a ser lançado em 2016 o computador de bordo Argon-16 vai ser substituído pelos novos TsVM-101.

O novo computador pesa 8,3 kg. O Argon-16 pesa 70 kg.

argon12

Argon-16, prazer.

Nesses 70 kg quanto cabe de processamento? Bem, essa tralha foi projetada na União Soviética dos Anos 70, então não é exatamente tecnologia de ponta. Vejamos algumas especificações:

  • Velocidade: adição → 5 ms, multiplicação → 45 ms.
  • RAM: 2 kbytes, ROM → 16 kbytes.
  • Velocidade de comunicação: 80 kb/s.
  • Consumo: 280 Wh.

Mesmo com esses recursos limitados os programadores do Argon-16 conseguiram fazer o bicho pilotar a nave, manobrar em aproximação, acoplar com a ISS, calcular manobra de saída de órbita, pilotar durante a reentrada e comandar o pouso. Pense nisso quando você reclamar que o joguinho novo exige mais de 4 GB de RAM.

Na História da Exploração Espacial há um lugar de honra pra Soyuz, o pé-de-boi que foi feito apenas pra funcionar, apenas funciona e muito bem. Que o digam os cosmonautas desse último vôo. Quando a Soyuz acoplou com a ISS a vibração da batida balançou a nave, repetindo o efeito da chamada “porradinha técnica”, o painel solar defeituoso destravou e se abriu. A Soyuz está 100% operacional de novo.

Fonte: TTI.

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