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Pode um cérebro simulado ter consciência?

Pesquisador tenta inferir a resposta para uma pergunta simples, mas que pode alterar drasticamente as pesquisas na área da inteligencia simulada.

15/09/2014 às 15:15

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Neurônios simulados por computador (Hermann Cuntz via Wikimedia Commons).

Imagine-se em um campo aberto com um balde de balões de água e um casal de amigos. Você decidiu jogar um jogo chamado “mente”. Cada um de vocês tem seu próprio conjunto de regras. Talvez sua amiga irá lançar um balão de água no marido sempre que você joga um balão de água nela. Talvez seu amigo vai jogar um balão em você sempre que ele ficar 5 minutos sem ser atingido — ou se ficar muito quente ou forem sete horas ou se ele estiver de mau humor naquele dia. Os detalhes não importam.

Esse jogo é muito parecido com o jeito como os neurônios, as células que fazem o cérebro e o sistema nervoso interagirem um com o outro. Eles só ficam por ali, dentro de uma formiga, ou de um pássaro, ou de Stephen Hawking e seguem um conjunto simples de regras. As vezes eles mandam sinais eletroquímicos para seus vizinhos. As vezes não. Nenhum neurônio sozinho “entende” como o todo funciona.

Agora imagine que em vez de 3 de vocês brincando no parque, sejam 86 bilhões (mais ou menos o número estimado de neurônios do cérebro). E imagine que em vez de brincar de acordo com as regras que você inventa, você carrega um conjunto completo de instruções minuciosamente escritas pelos melhores neurocientistas e cientistas da computação existentes, um modelo perfeito do cérebro humano. Ninguém precisa saber todas as instruções daquele manual, apenas o suficiente para fazer seu trabalho. Se uma quantidade suficiente de vocês ficarem por ali rindo e brincando, segundo as regras do manual e houver tempo suficiente, vocês vão acabar simulando um ou dois segundos do pensamento humano.

Agora é que vem a questão fundamental: Enquanto vocês estavam lá brincando, aquele modelo é consciente? Ele se sente, modelado em água e suor, real? O que "real" realmente significa quando o assunto é consciência? Como é ser uma consciência sendo executada com balões de água?

Estas questões podem parecer absurdas no começo, mas imagine o jogo da “Mente” sendo executado milhões de vezes. Em vez de usar seres humanos e balões, você modela os neurônios usando o computador mais poderoso já construído. Você dá ao cérebro digital olhos para ver o mundo e ouvidos para escutá-lo, uma caixa de som garante a nossa “Mente” simulada o poder de falar. Bom, agora estamos no limiar entre ciência e ficção científica (“Sinto muito Dave, temo que não posso fazer isso”).

A “Mente” é consciente agora?

Agora imagine que os arquitetos por trás deste petardo modelaram a “Mente” diretamente a partir do SEU cérebro. Quando desligarmos o computador, uma versão de você mesmo morre?

Estas questões são um poderoso quebra-cabeças para cientistas e filósofos que estudam sobre computadores, cérebros e mentes. E muitos deles acreditam que elas podem ter implicações no mundo real.

Muitos pensadores tem interpretações diferentes sobre a consciência por razões humanitárias, afinal, se aquele jogo gigante chamado “Mente”, simula um pensamento ou um sentimento, quem somos nós para dizer que aquela consciência é mais ou menos válida do que a nossa?

Em 1950 o brilhante cientista da computação, Alan Turing, escreveu contra as teologias humano-centristas em seu ensaio Máquinas Computacionais e Inteligência. Muitas pessoas podem concordar que uma mente simulada por um computador é consciente, especialmente se ela conseguir falar, fazer perguntas ou desenvolver qualquer tipo de relacionamento.

Então, você e seus amigos vão eventualmente esquecer daquela brincadeira divertida com os balões, mas não se pode desviver aquilo. Os efeitos daquele dia continuarão resonando através da sua consciência, parte de uma corrente inquebrável de alegrias e tristezas que fazem de você o que é. Nenhuma das nossas experiências realmente nos abandona, jamais.

Fonte: PS.

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