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Devs assinam carta aberta condenando intolerância dos gamers

Mais de 1.400 desenvolvedores assinaram carta de repúdio à comunidade gamer após episódios envolvendo ameaças e assédios contra Anita Sarkeesian e Zoe Quinn.

02/09/2014 às 17:30

anita-sarkeesian

Nas últimas semanas fomos testemunhas de dois casos que me revoltaram enquanto ser humano e gamer: o primeiro foi o ataque sofrido pela desenvolvedora Zoe Quinn, acusada de oferecer “favores adultos” em prol de conseguir reviews positivos para seu game Depression Quest. O caso foi exposto por seu ex-namorado, o que deixa evidente se tratar de um caso de Revenge Pr0n.

O segundo foi o que envolveu a crítica de mídia feminista Anita Sarkeesian, que recebeu ameaças de morte endereçadas a ela e à sua família depois do último vídeo que ela publicou da série Tropes vs. Women. Isso levou a um movimento forte da indústria em uma carta aberta de repúdio ao comportamento nocivo entranhado na comunidade gamer.

Ao todo mais de 1.400 desenvolvedores de estúdios pequenos e grandes, como Bioware, NCSoft, Ubisoft, EA, Riot e DICE, empresas de serviços como Twitch e outros tantos independentes defendem o direito alienável de qualquer pessoa jogar, criar e criticar games independente de gênero, orientação sexual, etnia, religião ou limitação física. Além disso, o documento convida a comunidade a não mais aceitar de forma passiva qualquer atitude depreciativa a qualquer indivíduo, independentemente de você concordar com suas ideias ou não.

Isso é o mínimo que se deveria esperar de qualquer grupo civilizado, mas parece que tudo envolvendo a comunidade gamer ainda está muito distante do cenário ideal. Por mais que me doa dizer isso, o cenário tanto para jogadores quanto desenvolvedores, jornalistas e críticos é estritamente masculino e por causa disso, machista. O ataque à Zoe Quinn foi um exemplo disso.

zoe-quinn

O que aconteceu com a desenvolvedora foi um caso descarado de Slut Shaming, onde o ex-namorado criou um post enorme (sem link, não darei palco pra essa gente) acusando Quinn de traí-lo com cinco pessoas diferentes, todos pessoas envolvidas com jornalismo de games como o editor do Kotaku Nathan Grayson e seu chefe Joshua Boggs, que é casado. Segundo o mala ela teria se envolvido com os cinco em troca de reviews positivos de seu game. Isso se seguiu a uma verdadeira perseguição à Quinn, que teve seu blog hackeado e seus dados pessoais vasculhados por uma horda de imbecis, isso sem mencionar os ataques à sua pessoa. O controverso desenvolvedor Phil Fish saiu em sua defesa e obviamente foi alvejado também (já que a comunidade em geral o odeia), levando-o a colocar a colocar a Polytron e a marca Fez à venda, dizendo que dessa vez ele está fora da indústria de vez (se vai cumprir é outra história, ele já fez isso antes).

Já Anita Sarkeesian é o bode expiatório preferido dos machistas do cenário gamer. Desde que ela fundou o blog Feminist Frequency em 2009 e principalmente, iniciou a série de vídeos Tropes vs. Women in Videogames depois de financiar seu projeto no Kickstarter ela já foi alvo de inúmeros ataques, desde tentativas de tirar seu site e canal do ar, compartilharem seus dados online e até mesmo tendo criado um game em que o jogador poderia bater em seu rosto (o que só provou seu ponto). Nos vídeos Sarkeesian aponta para tudo o que está errado nos games referente a representação das mulheres na mídia, ou como personagens fracas, ou fortes e sexualizadas ou mesmo como objetos de figuração, como ela disse em seu mais recente vídeo.

Women as Background Decoration: Part 2 - Tropes vs Women in Video Games

Nesta última semana, por causa de seu trabalho Sarkeesian recebeu ameaças de morte e estupro direcionadas a ela e sua família, com o agressor inclusive dizendo que sabia onde eles moravam. Ela foi obrigada a sair de casa e dormir na casa de amigos, tendo inclusive notificado a polícia sobre o ocorrido.

Particularmente não vejo o caso de Zoe Quinn como sendo culpa dela, sua exposição diz mais sobre a índole do namorado traído do que a dela. Já sobre Anita Sarkeesian: eu não concordo com o ponto de vista dela em que tudo está errado. Já melhoramos muito como mídia e ela estudou pacientemente quais games merecem ser abordados, justamente os com problemas visíveis de sexismo. Ela não analisa profundamente o contexto e segue a lógica, ao dizer que qualquer interpretação de uma mulher vista como depreciativa está errada, sem avaliar se aquilo condiz com o roteiro ou não. É como escolher o material que se encaixa perfeitamente ao seu ponto de vista e rejeitar o que aponta na direção errada, uma melhora na situação dos games que de fato está ocorrendo.

Entretanto isso não invalida o trabalho de Sarkeesian pelo simples motivo que ele abre o assunto para discussão: precisamos sim melhorar muitas coisas no que diz respeito à representação de mulheres, etnias, escolhas sexuais e outros temas em games fugindo ao máximo dos estereótipos, e não é com ódio que isso se resolve. Esse tipo de comportamento deve ser extirpado dos games, pois só prejudicam o diálogo e dão razão a quem critica o cenário gamer, que por ser o mais lucrativo do mundo precisa rever seus conceitos para ontem.

Fonte: GI.

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