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Pode ser que a gente veja Cuba lançar um foguete

Pode ser que a gente veja Cuba lançar um foguete, graças a um acordo de cooperação espacial entre a Ilha de Fidel e a Rússia. Isso mesmo: é mais interessante para os russos um aliado sem nenhum programa espacial do que negociar com o nosso.

02/07/2014 às 16:15

APTOPIX Cuba Missile Crisis Conventional Wisdom vs Reality

Depois que fontes de espionagem indicaram que os soviéticos estavam planejando algo na região, vôos de aviões de reconhecimento U2 sobre Cuba descobriram que vários mísseis nucleares de alcance médio e intermediário estavam sendo instalados na Ilha de Fidel. O gesto foi em retaliação à instalação de mísseis americanos na Itália e na Turquia, mas com Cuba a menos de 100 km dos EUA, corria o risco dos russos quebrarem o brinquedo. JFK não gostou e iniciou uma série de manobras, incluindo um bloqueio naval.

Isso durou de 14 a 28 de outubro de 1962, quando Magneto desarmou as duas frotas negociações envolvendo até o Brasil fizeram os dois lados voltar atrás. Os soviéticos retiraram os misseis de Cuba, os americanos da Turquia e depois da Itália. Em verdade isso não afetou em nada o balanço de forças, os EUA tinham bases no resto da Europa e os russos, submarinos em ambas as costas. Sobrou para Cuba, que foi só um fantoche, e pro pobre Major Rudolph Anderson, que teve seu U2 explodido por um míssil antiaéreo soviético enquanto fotografada instalações em Cuba.

O mundo nunca esteve tão próximo de uma guerra. Nos EUA o status das forças armadas saiu de DEFCON 5 — Paz e chegou a DEFCON 2. Um passo antes de DEFCON 1 — Guerra Total. Os soviéticos chegaram a autorizar seus submarinos a armar os torpedos nucleares, e nisso o B-59 quase lançou um artefato de 10 quilotons contra um porta-aviões americano que praticava ataques com cargas de profundidade. Dois dos três oficiais da cadeia de comando autorizaram o ataque, mas pela regra os 3 a bordo deveriam concordar. Por sorte Vasili Arkhipov manteve a cabeça fria.

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Vista do cockpit de um U2, a 70 mil pés. Um A320 com MUITA fé chega a 39 mil. O SR-71 Blackbird chega a 85 mil, mas é basicamente uma nave alienígena.

Durante os Anos 70 Cuba foi a Disneylândia do Socialismo, e entre os feitos de propaganda escolheram um cubano, Arnaldo Tamayo Méndez para ser o primeiro astronauta latino. Ele decolou em 18 de setembro de 1980, visitaram a estação Salyut 6 e voltaram à Terra dia 26 do mesmo mês, provavelmente depois que ele não conseguiu pedir asilo no Skylab.

Agora parece que Cuba finalmente terá um programa espacial (datilógrafos não faltam por lá). O interesse em verdade é antigo, pelo menos desde 2008 os russos falam de reatar os laços e até ajudar os cubanos a construir um centro espacial. Com o azedamento das relações com o ocidente, faz sentido que esse interesse aumente. O Brasil tem vários acordos com os ucranianos, não exatamente amigos dos russos, e as negociações para alugar a Barreira do Inferno foram pro dito cujo. Cuba é muito mais controlável do que o Cazaquistão, e mais próxima do Equador, isso significa poder lançar satélites mais pesados, gastando menos combustível.

Agora o Parlamento Russo está estudando um documento de amizade e cooperação espacial, com troca de tecnologia e outras benesses. Em troca, entre outras coisas Cuba autorizou a instalação de estações GLONASS, o GPS russo. Assim como o sistema americano e europeu, o GLONASS depende de estações em terra para monitorar e refinar os sinais dos satélites, que sofrem pequenas mudanças de órbita por causa de variações gravitacionais. Essa diferença não importa se estamos tentando achar uma cidade, mas é útil se você quer lançar um míssil de cruzeiro pela janela do quarto do Obama.

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Eu sei, é brega…

Curioso é que os russos, que de bobos não tem nada, preferiram os cubanos. A Venezuela é igualmente simpática, mais próxima do Equador mas politicamente bem menos estável, mesmo com Guantánamo e seus 9.000 residentes (incluindo os “convidados”) literalmente com os pés em Cuba.

Não creio que estejamos vendo o início de uma nova Crise dos Mísseis, mesmo que uma instalação de lançamento seja construída, todos os procedimentos são bem distintos, lançamentos isolados não são úteis taticamente e um submarino classe Akula colado em Washington é muito mais útil que um míssil atingindo Miami e matando… cubanos. No máximo veremos Cuba lançando foguetes para fins pacíficos, como meteorologia e monitoramento de transmissões de dissidentes.

A única questão é se a Presidente Clinton vai aceitar que os russos lancem satélites militares de Cuba, mas se eu tivesse alguma informação a respeito seria um tipo de molusco futebolístico.

P.S.: sim, eu sempre quis usar esse pleonasmo cacófato infame de forma legítima no título.

P.S.2: sim, eu tenho 12 anos de idade mental.

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