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Capitã da USS Voyager não é geocentrista. Já o Jornal do Commercio…

As Interwebs pegaram fogo essa semana, quando Kate Mulgrew, a Capitã Janeway de Star Trek Voyager apareceu narrando um documentário que defende… geocentrismo. Achar que o Sol gira em torno da Terra é uma excelente explicação pra ela ter se perdido no seriado, mas parece que não é bem isso. Kate e vários cientistas foram manipulados para parecer que apoiaram um doido que além de geocentrista é antissemita, fundamentalista e não acredita… no Holocausto.

09/04/2014 às 17:20

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Quando Stanley Kubrick montou o elenco de Dr Fantástico escolheu para o papel de Major Kong o ator Slim Pickens, até então um coadjuvante. Pickens era uma figuraça, andava em Londres com chapéu e botas de caubói. Kubrick não disse que o filme era uma comédia. Só deu ao Slim as páginas de roteiro onde ele aparecia. Ele deu tudo de si em uma interpretação séria. Como resultado o personagem ficou uma caricatura magistral.

Por isso a surpresa da internet ter entrado em crise essa semana, quando a atriz Kate Mulgrew foi flagrada narrando um documentário "não ortodoxo". Kate, hoje a Red em Orange is the New Black, se tornou conhecida no papel da Capitã Kathryn Janeway, em Star Trek Voyager.

Para susto, surpresa e decepção dos fãs foi “denunciado” que ela havia feito a narração de um lixo chamado The Principle. O negócio é um “documentário” que defende… geocentrismo. Isso mesmo. Em 2014 ainda há gente que defende a sério que o Sol gira em torno da Terra. Quer dizer, gente não, Robert Sungenis, produtor do tal documentário.

Sungenis (ok, essa eu concedo) se diz cristão, mas já tomou esporro até do pastor. É fundamentalista, antisemita e questiona a veracidade do Holocausto. Doce de pessoa, percebe-se.

O principal problema do geocentrismo não é nem a suprema arrogância de achar que somos especiais e o centro de alguma coisa, mas a complicação matemática necessária para explicar o movimento aparente do Universo. Um exemplo é o chamado Movimento Retrógrado dos Planetas. Se todos estivessem girando em torno da Terra nós os veríamos seguindo uma linha constante no céu. Com o passar dos meses mudariam de posição mas de forma linear. Só que não é assim que a banda celestial toca. Veja Marte, num período de 2 anos:

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Reparou que Marte também parece maior durante a fase retrógrada? É o período de proximidade, quando as duas órbitas se… aproximam. É o que todo mundo está falando como algo inédito. Ah sim, desconsidere os portais retardados, Marte SEMPRE foi visível a olho nu.

Não entendeu o movimento retrógrado? Veja este GIF:

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Tente explicar esse movimento com o Sol e os planetas girando em torno da Terra…

O tal documentário não só queimou o filme de Kate Mulgrew, que da mesma forma que Slim Pickens recebeu um cachê para ler um texto, sem saber como ele seria utilizado, mas botaram o nome de um monte de gente na lama. Inclusive Lawrence Krauss, físico, cosmólogo, divulgador científico e a última pessoa do planeta a defender criacionismo e geocentrismo. Krauss escreveu um artigo REVOLT na Slate, com o delicioso título “Não tenho idéia como fui parar naquele documentário estúpido sobre geocentrismo”.

Aparentemente os picaretas responsáveis entrevistaram cientistas mentindo sobre o tema do documentário, editaram até o osso as respostas, e fizeram com que parecessem apoiar a bobagem geocêntrica.

Pior: a bobagem tem, se não defensores, apoiadores por inércia. Uma pesquisa mostrou que 25% dos americanos acham que o Sol gira em torno da Terra. Mas calma, antes de sair xingando os americanos burros veja se você postou no Facebook sobre excepcionalmente esses dias Marte estar visível a olho nu. 😉

Conhecimentos científicos básicos são ignorados por boa parte da população mundial. Infelizmente se aproveitar dessa ignorância é muito mais simples do que educar. Ainda mais se seu objetivo é preservar uma cultura teofóbica cujo principal dogma é o medo do desconhecido.

A Capitã Janeway já se distanciou do filme, explicou em um post no Facebook que não sabia do envolvimento de Robert Sungenis, que não acredita em geocentrismo e em nada que Sungenis prega. Ótimo. A Capitã mais ousada da Frota Estelar não merece ser associada com um verme antissemita. Que ela seja lembrada pela melhor frase já dita em Star Trek: “Há café naquela nebulosa!

Enquanto isso, no patropi…

O Jornal do Commercio, de Recife, publica uma matéria sobre temperaturas altas no começo do ano e solta a pérola:

“(…) março e abril são tradicionalmente quentes no Recife porque o Sol, em sua trajetória anual ao redor da Terra, está muito próximo do Equador.”

Ou seja: ao menos para este jornalista de Pernambuco o Sol gira em torno da Terra.

Dizem eles que conversaram com um professor de climatologia. Se foi verdade, tiraram nota zero. Estações do Ano não tem nada a ver com proximidade da Terra com o Sol. A Terra tem 12.756 km de diâmetro. A distância média do Sol é de 149.597.871 km. Isso significa que se a Terra se movesse INTEIRA pro lado, chegando mais perto do Sol, ficaria 1/11.727 mais próxima. Ou seja, nada.

O grande fator causador das estações do ano é a inclinação da Terra, que faz com que as regiões recebam mais ou menos luz solar no decorrer do ano. Por isso a duração do dia varia. Veja:

Claro, em um mundo onde há religiões que defendem que há vida inteligente em Marte e Júpiter, talvez heliocentrismo não seja o maior dos problemas. Aliás, pensando bem mesmo, vivemos em um mundo onde ainda existe a Sociedade da Terra Plana.

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