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Nikon D600, sujeira de sensor, erro de projeto e... final feliz?

E como ficam os consumidores brasileiros no caso do recall (que não é recall) da Nikon D600? Veja o relato de um consumidor brasileiro que conseguiu a troca do obturador sem custos.

09/04/2014 às 11:15

nikon_d600

Agora sim, esse é o último prego no caixão desta história. Depois de todo mundo constatar que a Nikon D600 possuía um defeito grave de projeto que deixava o sensor imundo, a empresa foi forçada (via ação judicial nos Estados Unidos) a fazer um grande Recall para resolver um problema que ela mesma criou. O X da questão é que a empresa precisou ser acionada judicialmente e levar um cartão vermelho do Governo da China para tomar uma providência e, mesmo assim, ainda não admite que o problema existe, pois afirma que ó algumas câmeras possuem a anomalia (eles também não chamam de defeito). Ou seja, nós não estamos errados e os consumidores que se virem. Assim que a notícia do Recall se tornou pública, o André Fachetti, leitor do Meio Bit, entrou em contato com a Nikon do Brasil perguntando se também valia para os consumidores brasileiros. Depois da epopeia toda, eu pedi para ele escrever um pequeno relato sobre a experiência de mandar a câmera para manutenção no Brasil. O texto abaixo deve ser utilizado por todos os consumidores brasileiros sobre como agir em relação ao problema encontrado na D600.

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"O Meio Bit e o Gilson Lorenti foram referências iniciais quando, há alguns anos, eu achava que zoom era a capacidade da objetiva sair de uma visão igual à nossa e simplesmente enxergar a léguas de distância. Até o cara me fazer entender o que era grande angular e tele, foram alguns dias de surpresa (obrigado, Gilson, por me tirar do lado negro da ignorância fotográfica!). Então, agora, depois de muita luz passar debaixo dessa ponte, ele me pediu para relatar um pouco da minha experiência com o recall da D600 e seu sensor Cascão (eu sei, a Nikon nunca vai chamar isso de recall. Mas é recall).

Do tempo da paixão fotográfica com a ignorância total dos conceitos técnicos até hoje, estudei bastante, cliquei bastante, acertei, errei; comprei muito livro, alguns técnicos, muitos artísticos, sobre fotografia, sobre artes em geral; fotografia virou caso de amor. Inicialmente adquiri uma Nikon D90. Viajei, rodei países, criei projetos dentro da minha cidade. Entrei no mercado de venda de fotografia hoje denominada fineart. Uma hora meus printers perceberam que, fosse na fotografia fineart, fosse na publicitária (onde resolvi buscar o pão de cada dia), eu poderia obter resultados melhores com melhor investimento em equipamento. E aí a Nikon lançou a D600: sensor fullframe (meu alvo principal), e melhorias de toda ordem.

Após um tempo de espera (para o preço baixar na loja e o dinheiro subir no caixa da microempresa aqui), começaram os rumores da sujeira de sensor na D600. Sem razões aparentes, o que se dizia era sobre o acúmulo de pó fora do padrão. Meses passando e a sujeira foi descrita como óleo que, em excesso nos sistema mecânicos, vazava sobre o sensor sabe-se Deus porque espaços.

Constatação óbvia: falha gritante de projeto. Mesmo assim, resolvi investir na D600 porque também havia relatos de ser um problema "em alguns lotes", ou porque "depois de x.000 cliques a sujeira para, é só limpar". Comprei e logo viajei por um mês para o Velho Continente. Resultado: descobri o poder da sujeira crítica do sensor porcalhão. Em uma foto de Stonehenge, eu passei mais de 1 hora recolhendo pontos de sujeira para tratar a imagem. Coisa braba. De dar gastura.

Mandei a câmera para limpeza (com técnico especializado em Vitória-ES), um ou dois pontos permaneceram e... O tempo passou. Ninguém fez nada. A Nikon se negava veementemente a qualquer debate. Eu mesmo encaminhei mensagem para a antiga T.Tanaka, que representava a assistência Nikon no Brasil, e a resposta foi que a Nikon Internacional não identificou problema nenhum que pudesse gerar reparos oficiais.

Aí os gringos entraram em ação: em uma daquelas medidas típicas das ações coletivas americanas, onde escritórios de advocacia aceitam bancar os custos do processo para depois lucrar milhões de dólares, assinaturas e relatos começaram a ser recolhidos mundo afora para sustentar uma demanda contra a Nikon. Resultado?

Em poucos meses (poucos mesmo!) a empresa admitiu que havia uma alteração na câmera e que, quem quisesse, poderia encaminhar o equipamento para a assistência oficial Nikon. Primeiro, a notícia saiu no site internacional, favorecendo Europa e EUA. E eu descobri a informação através do Meio Bit.

A sujeira já estava começando a atrapalhar minhas fotos, minha rotina de tratamento, meu resultado final, e em 26.02.2014 mandei mensagem para a Nikon Brasil perguntando se a política se estendia a nós. Acho que fui um dos primeiros no Brasil a fazer tal contato. Logo recebi resposta (coisa de três dias) de que poderia encaminhar o material para SP, na mesma modalidade custo zero que nos outros países. Chegaram a pedir dados de compra, Nota Fiscal, mas assim que a notícia saiu também oficialmente no site brasileiro, não houve qualquer mecanismo burocrático para o envio: o contato foi finalizado por telefone, me indicaram um número de Sedex (pago pelo destinatário) e enviei a câmera em 10.03.2014. Seguro embutido de R$10.000,00. Ponto pra Nikon.

Nota Fiscal Eletrônica de Entrada chega no meu email dia 18.03.2014. Ponto pra Nikon.

Laudo (que eles chamam de Reconhecimento de Serviço), Nota Fiscal de Saída (tudo eletrônico) chega em 27.03.2014. Ponto pra Nikon.
E o que foi trocado, segundo a Nota Fiscal e o Laudo? Nada. Hum? Só apareceu como descrição "limpeza do sensor". Imediatamente enviei mensagem na página oficial da Nikon Brasil sobre o fato. Descasquei. Critiquei severamente sobre o fato, reiterei que havia limpado o sensor sem sucesso e que havia sujado de novo, que era um absurdo se a prática de só limpar o sensor fosse a técnica adotada no Brasil. A resposta imediata, em 28.03.14 foi "...realizado todo procedimento necessário para o reparo da câmera: limpeza do sensor, substituição do conjunto do obturador e partes relacionadas do equipamento.". Então porque não descrever no Laudo e na Nota Fiscal?!

A câmera chegou por volta de 4 dias após o envio da NF de saída. Fiz testes de limpeza, fotografei com três lentes diferente. Fiz o teste em dois dias. Parece normal. Selo de garantia/trava da Nikon, no chassi da câmera, daqueles típicos de garantia.

Não satisfeito, contactei a Nikon Brasil mais uma vez, depois que um conhecido afirmou que a NF de Saída dele indicava todas as peças trocadas, inclusive os mecanismos do obturador. Novamente a pronta resposta da Nikon para mim foi "de acordo com a ordem de serviço xxxxxxxx, foi realizado os seguintes serviços em seu equipamento D600: Inspeção, limpeza e substituição do conjunto do obturador e partes relacionadas de sua câmera. O obturador trocado é uma peça específica para a D600 que não irá apresentar defeitos".

Satisfeito pero no mucho, já que é uma falha administrativa, técnica, contábil, operacional gritante não discriminar as trocas na NF. Agora é testar no dia-a-dia. Tenho informações de duas pessoas diferentes que receberam a câmera de volta, no mesmo processo oficial, e estão impressionadas com a baixa qualidade da limpeza dos sensores – não a troca ou falta de resultado na nova peça, mas a sujeira do sensor que teria sido limpo pelo povo da Nikon no Brasil.

No fim: penso que a empresa reprojetou peças para a câmera a fim de corrigir o erro de projeto inicial. Creio que a mudança dará certo - porque seria ridículo demais criar um mecanismo que não funciona pela segunda vez. Mas se isso acontecer, a Nikon já declarou oficialmente que está preparada para trocar todas as câmeras que não responderem perfeitamente ao recall (eles não dirão que é recall, mas é) por novas câmeras (D610 ou D600s).

Portanto, não tem essa de amor por marca e equipamentos – isso não é Leica de 60 anos atrás feita manualmente e individualmente. Eles são feitos para nos servir e não para ir a um altar. De preferência que nos sirvam em condições adversas e continuem funcionando. Isso é mercado – eles nos tratam como consumidores, não como artistas. Merecem ser tratados como fornecedores, não como deuses."
ANDRÉ FACHETTI - www.andrefachetti.com

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