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Paquistão — um país que não sabe como a banda larga toca

Seria cômico se não fosse vergonhoso. A edição local do New York Times no Paquistão saiu com um espaço em branco enorme na capa. O motivo? Censura. Agora fica a dúvida sobre o que seria mais inacreditável: alguém ainda ler jornal em 2014 ou alguém em 2014 ainda ignorar que existe internet e o artigo censurado ESTARÁ lá?

25/03/2014 às 16:23

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Muitos anos antes do Brasil demonstrar que consegue bagunçar a social-democracia, ele tomou como missão mostrar que era capaz de errar até na simples tarefa de montar uma ditadura de republiqueta sul-americana. Missão dada Missão cumprida. Nossa incompetência nata atingiu todos os níveis do governo de exceção, sem exceção. A face mais visível disso tudo era a censura.

Em teoria é simples: você coloca gente nas redações, que avalia o material a ser publicado, e veta quando acha apropriado. Só que, de novo, Brasil. Como resultado os burocratas responsáveis entenderam que se o material não fosse subversivo, era ok. Binário assim. Com isso os jornais começaram uma campanha de protesto absolutamente genial: o Estado de São Paulo, por exemplo, quando tinha matérias censuradas publicava receitas de bolo ou poemas.

Os leitores sabiam NA HORA que havia algo errado, que um texto que deveria estar ali havia sumido. Muitas vezes dava pra sacar o conteúdo só pelo contexto das matérias em volta, mas pro Gênio da Tesoura, a parte dele estava feita.

Até seria legal dizer que isso é História, mas estaria mentindo. Sim, esse tipo de coisa ainda existe, chega a ser popular em partes mais atrasadas do mundo. Mesmo em 2014 essas instituições arcaicas se recusam a morrer. Falo dos jornais, claro, como o International New York Times, uma join-venture entre o NYT original e publicações locais.

Criado provavelmente para atender ao público com mais de 85 anos, o INYT existe desde 1886 e é publicado em mais de 160 países, e no dia 22 de março a capa da edição do Paquistão saiu assim:

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Alguns imaginam que é uma campanha fornecendo papel para rascunho, outros que é uma colagem com as fotos de todos os blogueiros com medalhas olímpicas em atletismo, mas foi censura. Na verdade o pior tipo, a auto-censura.

A matéria original, um excelente artigo de Carlota Gall descreve as ligações entre o Governo do Paquistão, o Taliban e Osama Bin Laden.

O jornal local, que republica o INYT ficou com medo e simplesmente omitiu a matéria, sem sequer rediagramar a página. Foi algo porco, que só chamou a atenção dos leitores, e se por acaso (sou um eterno otimista) entre as pessoas que compram jornal há alguém que tenha conhecimento da existência da internet, em 3 ou 4 cliques ele está acessando o texto original.

A Liberdade de Imprensa no Paquistão não é uma maravilha, mas não sofrem censura prévia. O tal jornal se defende dizendo que foi vítima de um atentado, a Al Qaeda é malvada, bla bla bla. Em essência o que fizeram foi se omitir. Se calaram para não incomodar um grupo supostamente poderoso. Esse é o maior pecado que um jornalista pode cometer, e receita para o autoritarismo.

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