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Que tal uma pílula capaz de te ajudar a reconhecer e reproduzir qualquer nota musical?

Cientistas alegam ter descoberto que uma determinada medicação, comumente utilizada para tratamento psiquiátrico, pode permitir o desenvolvimento do Ouvido Absoluto, inclusive para os adultos, mesmo que eles nunca tenham tido nenhum tipo de treinamento musical.

06/01/2014 às 15:01

musicville

Não sei se você já ouviu falar de um conceito chamado Ouvido Absoluto, mas trata-se da capacidade que uma pessoa tem de identificar (e, em alguns casos, reproduzir fielmente) tons musicais, sem nenhum parâmetro prévio. Para alguns deles, inclusive, acontece de formar uma "imagem" auditiva em sua mente, com símbolos, letras ou qualquer que seja a descrição atribuída pelo indivíduo ao som em questão. Em palavras simples, a pessoa sabe qual é a nota, pelo som. Pode ser um piano, uma voz, tom do telefone, serrote, praticamente qualquer coisa.

Existe um documentário brasileiro muito bom, inclusive, chamado "Escuta Só: Ouvido Absoluto", com menos 30 minutos de duração, que explica direitinho o que é o Ouvido Absoluto, e as variações de comportamento de pessoa para pessoa. Vale a pena dar uma olhada.

Essa característica existe em uma à cada 10.000 pessoas (o que não é lá muito raro), mas que, acredita-se, só pode ser adquirida até os sete anos de idade. Algo como o que acontece com as crianças que aprendem dois ou mais idiomas diferentes e falam sem sotaque nenhum, como se fosse sua língua nativa.

No entanto, alguns cientistas alegam ter descoberto que uma determinada medicação, comumente utilizada para tratamento psiquiátrico, pode permitir o aprendizado também para os adultos, mesmo que eles nunca tenham tido algum tipo de treinamento musical.

Algumas pesquisas anteriores revelaram que o Valproato (também conhecido como ácido valprótico), uma droga antiepiléptica, permitiu que ratos adultos adquirissem hábitos que usualmente eram impossíveis de serem desenvolvidos na fase adulta.

Foi então que o professor Takao Hensch, e sua equipe do Laboratório de Biologia Celular e Molecular de Harvard, tiveram a ideia de realizar um experimento no qual a droga foi aplicada em humanos adultos que nunca tiveram aulas de música.

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Em seguida, os cientistas pediram para que essas pessoas realizassem uma série de exercícios de treinamento do ouvido, durante duas semanas. Os indivíduos que tomaram a droga apresentaram uma significativa melhora da habilidade, quando comparando-se à performance dos que tomaram o placebo, evidenciando que a droga restaurou a plasticidade do cérebro, teoricamente perdida na infância.

Analisando os resultados, vê-se de fato que a melhoria nas funções de aprendizado foi enorme. Em entrevista à rádio NPR, de Washington DC, o Dr. Hensch indicou alguns pontos em potencial, além da música:

Há uma série de exemplos de desenvolvimento que perde-se neste período crítico, sendo o idioma um dos mais óbvios. Sendo assim, a ideia aqui é de que desenvolver aqui uma maneira de reativar esta plasticidade, e equalizar os apropriados tipos de treinamentos, permitindo assim que um cérebro adulto ganhe funções de um cérebro jovem novamente." — diz ele.

De qualquer forma, o autor do projeto lembra que experimentos como esse devem ser feitos com muito cuidado:

Nós formamos nossas identidades através do desenvolvimento sensorial, dentro de um período crítico, quando adequamos nosso cérebro ao ambiente no qual fomos criados, adquirindo nosso idioma, cultura e personalidade. Então, se existir a possibilidade de apagarmos tudo isso ao reativar essa habilidade de aprendizado, estamos correndo um risco grande também.” — finalizou.

Portanto, é muito cedo para dizer que você poderá tomar uma balinha e sair cantando feito o Bruce Dickinson ou a Ella Fitzgerald. Não sei vocês, mas eu acho muito complicado correr o risco de fazer um FDISK no cérebro com esse propósito. Mas quem sabe no futuro?

Fontes: NPR e Frontiers.

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