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Uma mão lava a outra: o advento das redes sociais colaborativas

O que uma modelo, uma estudante de direito e um empresário têm um comum? A ideia de criar redes sociais que permitam pessoas trocarem habilidades e serviços.

26/11/2013 às 11:00

Lily Cole, idealizadora do Impossible

Convenhamos, as redes sociais foram um combustível e tanto para pessoas que gostam de se mostrar. Curtimos alimentar nosso ego, postamos nossas fotos e mensagens na esperança de que todos achem legal e repliquem nossos compartilhamentos.

E se ao invés de mensagens e fotos trocássemos nossas habilidades? É difícil pensar em algo do tipo pois querendo ou não, investimos muito tempo e dinheiro para aprender o que sabemos fazer. Nós geralmente oferecemos nossos serviços em troca de dinheiro, um bem material ou coisa que o valha. Pensando dessa forma surgiram redes sociais colaborativas, onde você se oferece a realizar um serviço dentro de sua área de atuação, em troca de créditos que lhe permitam adquirir serviços de outros. Essa é basicamente a ideia por trás do Bliive e do WinWe, ambas redes criadas por brasileiros.

Lorrana Scarpioni, co-fundadora do Bliive

Em ambos os casos você cria sua conta e oferece seus serviços a quem possa interessar, independente do que você saiba fazer: podem ser aulas de inglês, de informática, consultoria jurídica... entretanto o formato dessas duas difere um pouco: o Bliive foi construído de forma a permitir interação entre pessoas de qualquer lugar do mundo, com aulas que podem ser ministradas via videoconferência. A moeda corrente da rede chamada TimeMoney é literalmente "tempo livre" equivalente às horas que o usuário dispõe para compartilhar com outros, e é recompensado com elas para adquirir outros serviços.

A co-fundadora Lorrana Scarpioni acredita que a rede servirá muito mais para troca de conhecimento do que serviços propriamente ditos, pois é o item que mais agrega valor a longo prazo. No ar desde maio, o Bliive já conta com usuários em diversos países e Lorrana, de 23 anos e estudante de direito e relações públicas está concorrendo ao Prêmio Jovens Inspiradores 2013 da revista Veja.

Marcelo Spinassé Nunes, CEO da TrueTech e idealizador do WinWe

No caso da WinWe a atuação é mais local. A ideia do co-fundador e CEO da TrueTech Marcelo Spinassé Nunes é oferecer serviços locais presenciais, portanto o interessado, seja o cliente ou o profissional define qual região ele atende e/ou mora, de modo a filtrar uma área que possa ser atendida ou que dê preferência a profissionais mais próximos.

Por conta disso os serviços são mais diversificados: aulas de tênis ou esgrima, serviços de fotografia em geral, sessões terapêuticas... o serviço é pago em "jobs" de acordo com a duração do serviço, de uma a oito horas. Nunes explica que o WinWe (que deveria se chamar "WinWin" mas o domínio já existia) foi pensado para funcionar como uma rede de amigos, que visam ajudar uns aos outros.

Página principal do WinWe

Em todo caso, ambas redes prevêem pagamento pelos serviços prestados, ainda que não ofereça dinheiro. Poderia uma rede neste formato dar certo caso não prevesse uma forma de recompensa além de um "obrigado", baseada apenas na boa-vontade? Essa é a ideia ousada do Impossible, uma nova rede idealizada pela atriz e modelo Lily Cole com apoio do co-fundador do Wikipedia Jimmy Wales.

Página principal do Impossible

A modelo conta que teve a ideia após visitar um campo de refugiados na fronteira de Myanmar com a Tailândia. Num lugar desses as pessoas colaboram umas com as outras com o que podem, sem esperar nada em troca. Foi daí que veio a ideia de criar uma rede nos mesmos moldes das duas brasileiras, mas sem um modelo de pagamento. Tal como a própria Wikipedia, a intenção é fazê-la funcionar única e exclusivamente com a generosidade de seus usuários.

O modelo é o mesmo: você cria uma conta e posta uma nota no site (que se assemelha mesmo a um mural), oferecendo seus serviços ou pedindo ajuda. A informação ficará disposta até alguém entrar em contato e após a conclusão da troca, o usuário beneficiado pode criar um post agradecendo pela gentileza. Tão simples assim. O site entrou no ar em maio, e até então vinha sendo testado por estudantes de Oxford e Cambridge, preferência essa pelo fato da própria Cole ser formada em História da Arte pelo King's College. Nesta semana entretanto ele abriu as portas para todos, ainda em fase beta.

A questão é: pode um formato que não prevê nenhuma forma de pagamento dar certo? No caso do Bliive e WinWe, ainda que não haja dinheiro envolvido há uma moeda virtual, que pode ser usada na aquisição de outros serviços, portanto são sites de negociação de habilidades; mesmo que a ideia seja altruísta é preciso implementar uma forma de fazer com que o profissional se sinta compelido a oferecer seus serviços, pois há uma forma de ser pago. Já a ideia do Impossible (que possui inclusive um app para iOS) é praticamente utópica, e foi exatamente por isso que a rede recebeu esse nome: porque todos acreditam sua meta é de fato impossível, mas não ela. Cole diz que os momentos mais felizes de sua vida se deram quando resolveu ser generosa sem esperar nada em troca, então acredita que outras pessoas podem fazer o mesmo.

Foi o que atraiu Wales e o motivou a investir na ideia. Em entrevista ao Telegraph, Wales disse que ele próprio não pensou num modelo de negócio quando iniciou seu projeto, e o próprio formato colaborativo do site já era uma recompensa.

Particularmente acredito que o formato das redes brasileiras é algo que tem mais potencial, principalmente por prever um formato de recompensa. Não é dinheiro, mas conhecimento em geral não tem preço. Aprender uma habilidade nova é algo que vale muito mais do que valores materiais. O Impossible por sua vez soa mais como uma ideia legal no papel, mas dificílima de ser implementada. É possível que dê certo como o Wikipedia, mas no fim das contas não estou apostando muito nele.

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