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Não, dinamarqueses malucos não vão viajar para Júpiter em uma missão suicida.

Ao contrário do que você leu na mídia especializada (você sabe, aqueles blogs de “ciências” que publicam matérias sobre poder dos cristais) os malucos da Copenhagen Suborbitals NÃO estão preparando uma missão para explorar Europa. Leia e entenda o projeto…

25/09/2013 às 11:00

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A Copenhagen Suborbitals é aquele estranho grupo de entusiastas espaciais que baseados em open source, voluntariado e muito tempo livre conseguiram mais resultados que o programa espacial brasileiro, e têm boas possibilidades de lançarem um suicida astronauta no espaço em um futuro próximo.

Por isso talvez tantos sites tenham levado a sério (até demais) o novo projeto de Kristian von Bengston, um dos fundadores da Copenhagen. Chamado Objetivo Europa, está sendo anunciado como um projeto para mandar astronautas até a lua mais famosa de Júpiter, em uma missão sem retorno, pois não haveria combustível suficiente para trazer o pessoal de volta.

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Um dos lugares mais interessantes do Sistema Solar, Europa é pouco menor que a Lua, e se fosse descoberta depois de 1997 1980 seria inevitavelmente batizada de Hoth. Com uma tênue atmosfera de oxigênio e inteiramente coberta de gelo, Europa provavelmente possui debaixo dessa camada, que pode ter até 30 km, um oceano de água em estado líquido com 100 km de profundidade. Volume equivalente ao dobro dos oceanos terrestres. Talvez Camino seja um nome melhor.

Como Arthur Clarke disse que há vida em Europa, a questão agora não é nem mais descobrir essa vida, mas catalogá-la, e para isso não faltarão voluntários ao Objetivo Europa, mas a necessidade de voluntários talvez nunca se materialize. O projeto é — e sempre será — uma mera proposta de um estudo de viabilidade.

Embora a Wired tenha escrito que a Copenhagen Suborbitals anunciou uma ambiciosa missão só de ida para mandar humanos até Júpiter, no site oficial do projeto são bem claros:

“Somos um grupo de arquitetos, designers, engenheiros, ex-especialistas da NASA, cientistas e sonhadores examinando uma única questão: uma missão tripulada para a lua joviana de Europa é viável?”

Soa menos épico, não? Também soa como papo de botequim, um grupo de desocupados “viajando” ao invés de ficar com os pés no chão, trabalhando dentro do que é viável tecnologicamente. Só que isso é essencial. Mesmo informal esse tipo de estudo, esse tipo de pensamento é que alavanca o progresso científico. Citando mais uma vez Arthur Clarke, no caso sua Segunda Lei:

O único caminho para desvendar os limites do possível é aventurar-se um pouco além dele, adentrando o impossível.

Ir a Júpiter não é impossível, só não é tão simples. Nossas naves levam boa parte de uma década para chegar até Júpiter, são minúsculas e não levam tripulantes. A proposta do Objetivo Europa fala em 600 dias de viagem. Isso é incrivelmente rápido, mas com naves espaciais com pouco mais espaço que um banheiro químico, 600 dias parecerão 6.000.

Adicione a isso o peso da comida que esse pessoal vai precisar, a água, sistemas de suporte vital, escudos térmicos pra manobra de aerobraking na atmosfera de Júpiter. Chamada por alguns de “fricção científica”, é uma técnica onde uma nave rápida raspa a atmosfera de planeta, transformando velocidade em calor, diminuindo até entrar em órbita. Usada pela primeira vez em 1991, é essencial para uma missão tripulada a Júpiter.

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Outro grande problema é radiação. A região de Júpiter é muito hostil, bem pior que o relativamente calmo espaço entre a Terra e a Lua. Uma nave passará por cinturões de radiação imensos, arcos eletromagnéticos entre Júpiter e Io e outros tantos perigos. Será preciso um sistema de escudos muito pesado e seguro para evitar que os astronautas voltem e tenham filhos esquisitos.

Pousar em Europa é outro problema. Eles acabarão em uma superfície de gelo, tendo que cavar 15 km, lutando contra o único lugar do sistema solar onde água e vácuo se encontram, congelando e fervendo ao mesmo tempo.

Detalhe: isso tudo tem que ser feito sem que contaminemos Europa com organismos terrestres.

Talvez a falha do Objetivo Europa seja… sonhar pequeno. Explorar Júpiter com a tecnologia de hoje é inviável, estamos falando de uma viagem de bicicleta entre Rio e Lisboa. Por melhor que seja o equipamento, não vai funcionar. Temos que projetar… um avião.

A Discovery, de 2001 – Uma Odisséia no Espaço é uma das raras naves de ficção científica cientificamente corretas, com direito a propulsão nuclear, centrífugas para resolver o problema da ausência de gravidade e até um computador psicopata para tornar a viagem divertida.

As especulações bem-informadas do Objetivo Europa poderiam partir desse modelo. Se é para viajar pra Júpiter, que seja de primeira classe. Com direito a equipamentos de separação da água de Europa, produzindo hidrogênio e oxigênio para motores auxiliares, garantindo que os exploradores tenham como voltar pra casa.

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