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A Batalha de Palmdale ou… — A Hagada dos Drones

Nem só de vitória vive a Marinha dos EUA (e nem falo de Pearl Harbor). Algumas vezes conseguiram ser derrotados por eles mesmos. Foi o caso da Batalha de Palmdale, quando um drone desgarrado venceu dois caças de última geração…

21/09/2016 às 16:45

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Uma das maiores mentiras dos filmes de guerra ruins são as armas que nunca falham, as tropas que nunca ficam confusas ou sem comunicação, e a ausência de fogo amigo, embora na prática nenhum seja. No mundo real, nenhum plano resiste ao primeiro contato com o inimigo e o Soldado SNAFU não tinha esse nome à toa, significava Situation Normal, All Fucked Up.

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O causo da vez, que ficou conhecido como Batalha de Palmdale foi um primor de falta de planejamento, incompetência e, claro, azar.

Foi em 1956, quando os EUA estavam testando seus primeiros mísseis. Começo da Era do Jato, os burocratas achavam que a 2ª Guerra era passado, junto com toda sua tecnologia. Isso culminou em abominações como o F4 Phantom, um caça que carregava toneladas de mísseis que mais falhavam do que funcionavam, e nenhum canhão.

A modernização tornou obsoletos os aviões antigos, mas nem todos pararam no ferro-velho. Muitos foram adaptados para uso como drones de alvo. Pilotados remotamente, serviam para pilotos treinarem tiro ao alvo com um inimigo extremamente cooperativo. No caso o drone era um  Grumman F6F-5K Hellcat.

No dia 16 de agosto ele decolou da base aérea de Point Mogu, na Califórnia. Os operadores o direcionaram para uma área de testes no Pacífico. O objetivo era que o Hellcat fosse derrubado por um dos mísseis testados, um Sparrow ou o Bendix AAM-N-10 Eagle, que mais tarde se tornaria a base do venerável Phoenix.

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O drone entretanto teve outros planos. Quando viu que estava se dirigindo para sua morte o Hellcat pensou Hell, no! botou 10 no viado, cortou a comunicação com a base e desviou da rota. Os operadores ficaram sem entender ou conseguir consertar o problema, os navios ainda não estavam no alcance para derrubar o drone, e a Marinha dos EUA se descobriu em uma versão vintage daquele filme, Stealth, que você não deve assistir de forma alguma, eu sei que tem a Jessica Biel de biquíni mas aqui está a cena, não perca seu tempo com essa bomba.

Voltando: os militares horrorizados perceberam que o Hellcat, sem controle externo, estava se dirigindo para Los Angeles. Sem meios de interceptar o bicho, pediram ajuda pra Força Aérea, que mandou o que tinha: dois F-89D Scorpions.

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Projetados para deter frotas de bombardeiros soviéticos, um simples aviãozinho da Segunda Guerra não seria problema para dois caças modernos. Em teoria. Na prática não deu muito certo. O F-89D era armado com o MK-4 Mighty Mouse, um foguete não-guiado de 70 mm.

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Cada um dos dos caças carregava 104 foguetes. Bastaria um para mandar o Hellcat pro Inferno.

O computador de ataque (analógico, uma beleza) determinou que as melhores formas seriam atacar por trás ou então lateralmente. Tudo armado computado programado, os sistemas de tiro foram colocados em modo automático. Máquina contra máquina, o computador decidiria de forma autônoma quando disparar contra o drone renegado.

Talvez em solidariedade, o sistema falhou. Passagem após passagem o sistema de disparo não disparava. O jeito era disparar manualmente, mas alguém gênio decidiu que computadores eram o futuro e não equiparam o F-89D com uma mira manual. O jeito era apontar o avião pro alvo puxar o gatilho e rezar pra acertar.

Eu sei que é inacreditável, mas rezar não adiantou. Na primeira passagem eles atiraram 42 foguetes, não acertaram nenhum. Na segunda, mais 42, zero. Dizem que rasparam mas não acertaram. Outra passagem, 64 foguetes.

Em uma última passagem, já com a gasolina no vapor, dispararam os últimos 60, totalizando 208 foguetes sem sucesso, um recorde que até o Brasil vai demorar a bater, mas chegaremos lá.

Derrotados pelo drone os dois voltaram pra base. Satisfeito, o Hellcat já sem combustível começou a descer em espiral, uns 10 km do Aeroporto de Palmdale. Em um último fuck you, humanos ele ainda arrancou 3 cabos de energia antes de cair em uma estrada de terra no deserto.

Não acaba aí.

Tudo que sobe tem que descer, a não ser que atinja velocidade de escape. E os foguetes não eram tão bons assim. Da primeira salva, disparada perto de cidade de Castaic, resultou um incêndio que queimou 150 acres de vegetação.

A segunda salva, perto de Newhall, depósitos de petróleo foram incendiados, 350 acres de vegetação foram queimados, o incêndio chegou a 100 m de uma fábrica de explosivos e um dos foguetes foi visto quicando no chão e botando fogo nas lantas.

A última salva de tiros caiu na cidade de Palmdale. Uma pickup foi destruída quando atingida em cheio, um foguete acertou o chão a poucos metros de um carro, quebrando o para-brisas e furando o pneu. Uma dona chamada Edna Carlson viu um estilhaço de uma explosão entrar pela janela da frente, ricochetear no teto, atravessar uma parede e ir parar em um armário na cozinha.

No total foram 1.000 acres de vegetação destruída, 500 bombeiros trabalhando por dois dias para apagar e a Marinha ainda tendo que mandar centenas de especialistas para lidar com os foguetes não-detonados: encontraram 15 deles pela cidade.

Agora, se alguém falar que o jogo de vôlei de Top Gun foi a coisa mais constrangedora pela qual a Marinha dos EUA já passou, você pode corrigir o cidadão…

Fonte: Foxtrot Alpha.

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