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França Ataca ISIS, James Doolittle aprova

A França lançou ontem um ataque ao ISIS, 10 caças bombardearam a “capital” do Estado islâmico. Há quem diga que isso não vai mudar nada, e não vai, mas esses ataques são muito mais que retaliação, e o objetivo não é causar danos. Tem a ver com psicologia. O melhor exemplo aconteceu em 18 de janeiro de 1942…

16/11/2015 às 19:41

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Ontem 10 caças franceses, partindo da Jordânia e dos Emirados Árabes empreenderam um ataque coordenado a Raqqa, autodeclarada capital do Estado Islâmico. Foi um ataque com objetivo acima de tudo psicológico, era necessário mostrar ao povo francês que seus líderes não estão impotentes e paralisados.

A participação francesa foi destacada, os EUA ajudaram com aviões e inteligência mas para fins práticos foi uma operação francesa, que tem origem muito no passado, mais precisamente em 7 de dezembro de 1941.

Quando o Japão atacou Pearl Harbor os EUA entraram em pânico, num nível que só chegaram perto em 11/9/2001. A boataria chegou ao ponto de acharem que os japoneses tinham invadido a Califórnia. O Hawaii sempre foi uma fortaleza inexpugnável, mas o brilhante plano capitaneado pelo Almirante Yamamoto pegou todo mundo de surpresa.

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Uma das maiores desgraças na História dos EUA. E o ataque também não foi muito legal.

A moral nunca esteve tão baixa, o Japão era longe demais, era inatingível, em uma época em que não havia ICBMs. Nem a ONU existia então também não havia a possibilidade de mandar uma carta em tom MUITO ríspido.

A solução foi pensar fora da caixa, e a mente responsável foi a do Capitão Francis Low, assistente do Alto-Comando de Guerra Anti-submarino. Ele sabia que os caças da época não tinham condição de alcançar o Japão: os porta-aviões americanos não podiam chegar perto o suficiente. Um bombardeiro, lotado de combustível em teoria conseguiria chegar lá, mas seria uma viagem só de ida e, de qualquer jeito, quem decolaria de um porta-aviões com um bombardeiro?

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O Capitão Low tinha um escritório com vista para a pista da base aérea de Norfolk, que tinha uma parte pintada como o convés de um porta-aviões, para treino de pilotos. Ele notou que os bombardeiros B-25 decolavam não muito depois do fim do convés. A informação foi reportada para o comandante, e caiu na mão do maior especialista em B-25, James Doolittle, piloto de testes e engenheiro.

Ele começou a fazer contas e descobriu que em teoria o B-25, que nunca havia voado em combate poderia cumprir a missão se:

  • removessem quase todas as armas;
  • removessem os rádios auxiliares;
  • removessem a torre de tiro inferior;
  • remoção da torre traseira e instalação de metralhadoras falsas;
  • enchessem o avião de tanques de combustível, aumentando de 2.445 litros para 4.319 litros.

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Bombas especiais de 225 kg foram construídas, cada avião levava 4 delas. No dia 18 de abril de 1942 16 bombardeiros B-25 decolaram do USS Hornet, a 1.200 km da costa japonesa. Liderando, o Tenente-Coronel Doolittle.

A decolagem foi antecipada pois um barco japonês identificou a força-tarefa e avisou do ataque por rádio antes de ser afundado pelo USS Nashville. Doolittle teria que entubar um ataque lançado com 10 horas de antecedência e 310 km mais distante do alvo.

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James Doolittle prendendo na bomba uma das medalhas dadas a americanos por militares japoneses, antes da guerra.

Enfrentando fogo antiaéreo e caças inimigos os 16 aviões chegaram ao Japão, demolindo instalações industriais e espalhando caos com bombas incendiárias, até os artilheiros atacaram com suas metralhadoras frontais. Foram atacadas Tóquio, Yokohama, Yokosuka, Nagoya, Kobe e Osaka. nenhum avião foi derrubado por fogo inimigo, vários caças japoneses foram destruídos.

A parte final do plano era voar para pistas improvisadas na China e reabastecer, mas o combustível não era suficiente. Por sorte (se quiser o máximo da ironia) um Vento Divino apareceu, adicionando 50 km/h à velocidade dos B-25, e quase todos chegaram na China, só no vapor. Todos tiveram que abandonar os aviões, saltando de para-quedas.

3 aviadores morreram tentando pousar, 2 morreram afogados, 1 morreu na China. 3 foram capturados e executados pelos japoneses, dos outros 4 capturados 1 morreu por doença e 3 foram libertados por tropas americanas em 1945.

Doolittle, que havia saltado na China e caiu em uma pilha de esterco quando soube dos resultados achou que pararia numa corte marcial. 16 aviões perdidos, 10 tripulantes mortos. Um fracasso.

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Quando voltou aos EUA ele foi recebido como herói, foi agraciado pelo Presidente Roosevelt com a Medalha de Honra do Congresso. Embora militarmente o ataque tenha sido irrelevante ele mudou completamente a moral do povo americano. Eles não estavam mais indefesos, eram capazes de atacar o inimigo mesmo distante. A China, que já estava em guerra com o Japão também se beneficiou com a sensação de estar ajudando a atacar o Japão.

Mesmo a União Soviética deu uma forcinha: na época ela era neutra mas sabia das intenções japonesas, e “apreendeu” a tripulação americana que pousou em seu território. Depois os prisioneiros foram transferidos para o Turcomenistão, onde um dos pilotos subornou os guardas, fugiram para o Irã, a 20 km de distância e se refugiaram no consulado inglês. Décadas depois descobriu-se que o “suborno” foi acobertamento do Serviço Secreto russo, tudo parte do plano de libertar os americanos sem enfurecer o Japão.

O ataque de ontem ao ISIS felizmente não causou baixas entre os franceses, e 20 bombas não vão mudar nada. Muita gente eu inclusive riu da descrição do “maciço” bombardeiro, mas o alvo dessas bombas não é o Achmed, é o Jean-François. A guerra psicológica também pode ser vencida com bombas.

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O grande desafio é que ganhar os corações e mentes da população separando os corações das mentes dos inimigos não funciona por muito tempo. A França e o resto do mundo precisam aproveitar o momentum, não existe forma de lidar com o ISIS sem sujar as mãos, sem gerar textão no Facebook e sem ser alvo de gente de memória curta indignada com danos colaterais, esquecendo que o ISIS é bem pior que isso (não clique).

Acima de tudo: se preocupar em não acabar de vez com o ISIS para não sujar as mãos, agora?

Elas já estão sujas de sangue, depois que toda a política cheia de dedos e não-confrontativa, depois que o descaso da Inteligência permitiu ataques como o do dia 13. Você já está no Inferno, França. Abraça o capeta e enfia uma faca no pescoço dele.

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