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Campus Party: o sonho realizado de Miguel Nicolelis

Miguel Nicolelis fala na Campus Party sobre os bastidores de sua pesquisa, do início até o chute de Juliano na Copa do Mundo e o que o futuro nos reserva

08/02/2015 às 17:03

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Embora muita gente estivesse louca de vontade de conferir a palestra de Paul “Beakman” Zaloon na Campus Party (aliás, já ouviu o SciCast em homenagem ao personagem?), a verdade é que a apresentação mais interessante do evento foi obviamente de Miguel Nicolelis. O neurocientista trouxe os bastidores do projeto que está devolvendo os movimentos a pessoas paralisadas, e sem papas na língua desceu a lenha nos críticos de plantão.

Nicolelis explicou como o início da pesquisa não foi simples: em 1988 só era possível mapear os neurônios do cérebro um a um, o que se provou impossível: seria como analisar cada árvore da Amazônia individualmente a fim de ter um mapa detalhado da floresta. Ao invés de analisar as células era preciso registrar os sinais elétricos dos neurônios. Atualmente é possível registrar 2 mil neurônios e no futuro, Nicolelis acredita que será possível monitorar 20 mil e transmitir aos membros posteriores sem fios. E não apenas isso: usando o que ele chamou de “Tecnologia Atuada pelo Cérebro”, o nome de sua técnica será possível controlar qualquer dispositivo só com o pensamento.

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Isso depende de um esforço computacional enorme, é preciso interceptar os sinais cerebrais que disparam os comandos motores para os membros, traduzi-los e transmiti-los para os dispositivos (sejam próteses ou outros aparelhos) e devolver o sinal ao cérebro. Essa é a base da comunicação cérebro-máquina: feedback. Você está enganando o cérebro para que ele entenda que aquele hardware é uma parte do corpo.

Os testes realizados com macacos começaram a dar frutos em 2002, e com o avanço da técnica Nicolelis estipulou um prazo para a demonstração final da técnica em um humano paralisado, o chute inicial da Copa do Mundo, que bem sabemos foi sabotada.

Não que isso o tenha abalado, os resultados estão aí: para Nicolelis o verdadeiro pontapé inicial da Copa foi dado no corredor, quando Juliano Pinto se preparava para subir ao campo. Paralisado da cintura para baixo, ele foi ovacionado por cerca de 500 figurantes do show de abertura da Copa, que fizeram um corredor polonês para ele e começaram a cantar o hino nacional. Nicolelis disse, com a voz embargada que “é algo que eu (ele) nunca esquecerei”. Isso é a coroação de um trabalho hercúleo realizado por mais de 100 profissionais de todo o planeta.

A cobertura da imprensa lá fora, diferente da brasileira que só fez bater nele (o chamaram de fraude para baixo, visto que o projeto custou R$ 33 milhões aos cofres públicos mas ninguém vê o quão mais foi desviado para a realização do torneio).

Academia Médica — Miguel Nicolelis - Walk Again Project

Uma coisa que é preciso deixar claro sobre o dr. Nicolelis: ele não possui sangue de barata. Seu trabalho vem apresentando resultados palpáveis e portanto ele não admite críticas vazias e acusações mesquinhas contra seu trabalho. Para ele o ponto mais importante foi “devolver a dignidade a Juliano”, algo muito mais importante do que a exposição na mídia brasileira. Não importa se a apresentação original, que de minutos foi derrubada para 29 segundos, foram exibidos apenas quatro e com tela dividida para a “importantíssima” chegada da seleção brasileira ao estádio. E ele não aceita críticas vazias: quando um espectador o acusou de maltratar animais em sua pesquisa, Nicolelis respondeu na lata que os animais de seu laboratório vivem melhor do que um norte-americano médio, e frisou que ele (o campuseiro) não se oporia a usufruir do resultado da pesquisa se um dia ele ou alguém próximo vier a ficar paralisado.

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Exoesqueleto foi o resultado de trinta anos de trabalho (Fonte: AFP)

E os testes vêm trazendo resultados surpreendentes: graças à movimentação que o exoesqueleto proporciona aos voluntários (a saber: graças à fragilidade dos mesmos eles não podem realizar movimentos bruscos sob risco de lesões graves. Por isso o andar é tão lento, mas é um início) Juliano recuperou mais dois palmos de sensibilidade da medula espinhal. Já Sheila, outra voluntária voltou a mover as pernas, ainda que timidamente. Por fim, Nicolelis revelou que ao aumentar a velocidade de movimento do exoesqueleto, os pacientes relatam terem desenvolvido uma “sensação” de que as próprias pernas estão se mexendo, e não que os comandos estão sendo realizados através de um hack no cérebro.

Qual é o próximo passo? Comunicação cérebro-cérebro, que Nicolelis já demonstrou ser possível com ratos e macacos com suas mentes interligadas. Como todo bom cientista ele não especula, mas acredita que no futuro interfaces físicas como teclados e mouses serão desnecessárias, sejam em trabalhos individuais ou colaborativos. É assustador? Sem dúvida, mas quem está entrevado numa cadeira de rodas pode ter nessa pesquisa um feixe de esperança de um dia voltar a andar, e por tudo o que fez até agora Miguel Nicolelis mereceu com louvor ter sido o mais ovacionado da Campus Party.

Aos interessados, segue a palestra completa:

campusparty — CPBR8 - Miguel Nicolelis

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