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Outro dia outro problema de energia alternativa — mas essa é perdoável

Não que tenhamos virados ecochatos deslumbrados, mas as usinas de captação direta de energia solar são uma fonte bem atraente de energia alternativa, prometendo resolver alguns dos principais empecilhos da área. Só que o diabo mora nos detalhes e ninguém previu algo que pode se tornar um grande problema. Qual? Clique e descubra!

25/03/2014 às 8:05

powerrrr

Uma das formas mais simples de fazer ecochato chorar é cobrar dele o respeito às Leis da Termodinâmica. Todo mundo acha lindo de viver (saudades eternas, Hebe) carros elétricos ou aquele ridículo Tata, movido a ar comprimido. Ninguém se preocupa de onde virá a eletricidade para recarregar a bateria ou encher o tanque de ar.

Não existe almoço grátis, eficiência energética não nasce em árvore, não é como se você esticasse a mão na janela e recebesse energia grátis. Ou melhor, até é. A superfície da Terra, com Sol a pino recebe 1 kW por metro quadrado de energia irradiada. EM TEORIA a energia solar que ilumina seu ar condicionado seria capaz de energizá-lo.

Na prática não funciona assim. Essa medida de 1 kW/m² é em condições ideais, latitudes mais altas recebem menos Sol, em geral de noite fica escuro e a eficácia dos painéis fotovoltaicos é muito baixa. 15% e o fabricante está dando pulos de alegria. Eles custam caro, sua produção é poluente e consomem mais energia pra ser feitos do que gerarão durante a vida útil.

Calma, ainda não desista do Sol. Ele ainda tem lá sua utilidade. Veja o uso direto. No vídeo abaixo o sujeito construiu uma forja com uma lente Fresnel, um tipo especial que capta mais energia, mas mesmo assim está limitada à sua área. A lente do vídeo tem pouco mais de 1 metro quadrado. Não está captando mais que 1 kW, mas concentra em um ponto muito pequeno. Veja, eu espero.

Impressionante, não? Essa energia já é usada, há ONGs que distribuem fogões solares pra África, já vi até no interior do Nordeste. Só que dá pra pensar muito maior. Poderíamos usar essa energia solar para aquecer água, gerar vapor e produzir eletricidade, certo? Mesmo em escala doméstica os painéis solares para aquecimento de água são altamente eficientes.

O problema é que de noite a energia gerada tende a zero, e as pessoas gostam de ter energia em casa 24/7. Tecnologia de baterias é muito ineficiente e poluidora, a energia se fosse toda solar teria que ser trazida do outro lado do mundo, certo?

Errado. Um modelo de usina utiliza sal derretido como material acumulador de calor. Esse calor aquece a água, gira a turbina e mantém a eletricidade fluindo quando está de noite ou muito nublado, ou chovendo.

O país que mais investe nessa tecnologia é a Espanha. Ano passado a Gemasolar, uma usina perto de Sevilha bateu um recorde mundial. Produziu 20 MW por 36 dias seguidos, alimentando 27 mil residências.

Essa tecnologia é muito superior à energia eólica. Em muitos lugares chuva e nuvem é rara exceção, e mais importante, não afeta o balanço energético do planeta. O calor é recebido e liberado do mesmo jeito, ao contrário do vento, que perde energia, afetando padrões climáticos. O grande ponto de venda, claro, é a capacidade de fornecer energia de forma contínua, sem depender de caprichos da natureza.

Agora, claro, a parte ruim, e nem vou falar do alto custo de manutenção, dos funcionários que precisam ficar andando o tempo todo consertando painéis defeituosos. Isso a gente entuba, faz parte e gera emprego. O problema mesmo nunca foi imaginado nem pelos mais cínicos inimigos da tecnologia solar:

Luz.

Um belo dia um piloto estava voando perto da Usina Solar de  Ivanpah. no Deserto de Mojave, nos EUA. Do nada a cabine se encheu de uma luz branca, cegante. Como não ouviu ninguém falando “Caroline” nem “caminhe para a luz”, ele tentou se orientar. Passado o fenômeno, descobrir que havia sido atingido em cheio pelo reflexo de um dos milhares de espelhos.

Não se sabe se foi um espelho defeituoso, ou se o ângulo pegou um contra-reflexo da torre, mandando luz pra outras direções. Só se sabe que outros pilotos relataram problemas semelhantes. Quem achava que adolescentes retardados com lasers eram um risco, agora tem que lidar com luz de verdade.

Provavelmente as autoridades irão recomendar que aviões não sobrevoem as usinas, mas se elas se multiplicarem isso pode se tornar um jogo de gato e rato. A lição é que por mais que a gente crie tecnologias promissoras, por mais que planejemos todas as consistências, Murphy dará um jeito de pensar em uma forma diferente de nos sacanear.

Tudo que fazemos tem consequências. Algumas esperadas, outras nos surpreendes. Acima de tudo, não existe almoço grátis. Ah sim, essas usinas matam milhares de pássaros, quando passam na frente dos raios. Quem não gosta, só lamento, ainda é muito melhor do que destruir ecossistemas inteiros criando reservatórios para hidroelétricas ou lidar com o lixo nuclear.

Fonte: AT.

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