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Google e Microsoft começam a mapear favelas cariocas

Projetos não-relacionados de Google e Microsoft buscam mapear cada esquina de quatro favelas cariocas; Morro do Vidigal é incluído em ambos

26/09/2014 às 13:30

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Houve um tempo em que favelas eram vistas... ou melhor, não eram. Para os Correios e cartógrafos as grandes comunidades espalhadas pelo país, principalmente as gigantescas do Rio de Janeiro simplesmente não existiam, pelo simples motivo de nunca terem sido mapeadas. A desculpa oficial: as esferas governamentais consideravam as favelas lugares perigosos demais (muitas são até hoje, mas isso não é desculpa) para enviarem cartógrafos e registrarem os endereços, a fim de permitir que os carteiros passassem a frequentar os morros.

Isso posto muitas comunidades começaram a mapear seus arredores por conta própria, a fim de que as autoridades se tocassem da burrada que era deixar milhares de pessoas sem um registro de endereço. Se o governo não acorda, ao menos do Rio Google e Microsoft compraram a ideia e estão mapeando quatro favelas cariocas por conta, atrás de novos usuários.

A iniciativa de ambas companhias acaba sendo uma via de mão dupla, já que ao mapear as ruas, esquinas, becos e estabelecimentos as comunidades do Rio terão não só presença online como passarão a ser identificados nos mapas virtuais do Google Maps e do Bing Maps. Esses dados por sua vez serão disponibilizados para todo mundo e por fim terão feito o trabalho que era responsabilidade do governo do Rio, que não toma a iniciativa de mapear as favelas por pura preguiça.

Por outro lado, que não se enganem quem pensa que o projeto é um ato de caridade: os dados levantados pelas comunidades são valiosíssimos e tanto o Google quanto a Microsoft estão pondo as mãos neles para lucrarem com os mesmos. As favelas hoje representam uma oportunidade de negócios enorme, principalmente para o turismo. Além disso os programas sociais e o aumento do valor das commodities ajudou a tirar muita gente do limiar da pobreza; mais de 85% dos moradores de favelas do país possuem celulares, mais da metade acessa a internet regularmente. Isso fez deles consumidores em potencial, e deixá-los ao largo não é interessante do ponto de vista de negócios.

A Microsoft inclusive teria tentado comprar os dados de ao menos uma organização por praticamente um chopp e dois pastéis: de acordo com a diretora da organização sem fins lucrativos Redes da Maré, em 2011 a empresa de Redmond ofereceu R$ 4,4 mil por todos os dados coletados pela mesma, a saber nomes e endereços de pequenas empresas. Ela recusou por "ter sido um trabalho difícil e que levou muito tempo para ser feito, e a Microsoft queria levar tudo praticamente de graça". A Microsoft não quis comentar o ocorrido.

Segundo o responsável pelo Bing no Brasil Lúcio Tinoco, a Microsoft está trabalhando junto às comunidades e a prefeitura para mapear os morros da Maré e do Vidigal, com voluntários utilizando smartphones e transmitindo as coordenadas de pontos de interesse para os servidores do Bing. Curiosamente o Vidigal também é alvo do projeto do Google, que trabalha junto com a ONG AfroReggae principalmente. Além dessas duas favelas Mountain View também mapeia os morros da Rocinha e do Caju. Voluntários usam o app MapMaker em seus smartphones para fotografar e mapear os arredores e subir os dados para os servidores do Google.

Tirando o óbvio interesse em lucrar com os dados, o mapeamento das favelas ajudará muitas pequenas empresas a finalmente entrarem no radar e expandirem seu alcance. A Microsoft pretende levar o projeto para mais 40 favelas do Rio de Janeiro e expandí-lo para outros países emergentes. O Google não mencionou quais seus próximos planos e ambas se recusaram a divulgar quanto dinheiro estão investindo em seus projetos.

Fonte: WSJ (paywall, aqui a versão em Pt-Br).

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