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John Frusciante transmite música de satélite do espaço? NÃO!

Manja o John Frusciante, do RHCP, que todo mundo está falando que lançou um satélite e está fazendo streaming do novo álbum? Pois é, é mentira. Clique e veja as evidências da marmotagem marketeira!

6 anos atrás

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Você deve estar lendo em tudo que é lugar a iniciativa super-legal do John Frusciante, ex-RHCP, que lançou seu álbum ENCLOSURE de forma épica: a equipe dele construiu um CubeSat, um daqueles satélites miniatura. O bichinho levava uma cópia do álbum, que era transmitida para a Terra.

marmotagem

Um app iOS ou Android monitorava a posição do satélite, e quando ele estivesse passando pela vizinhança, o app faria streaming do álbum. Era meio que sugerido que o streaming viria do satélite, mas não rola. A maioria dos tablets NÃO capta sinais do espaço. A monitoração também não era real, mas através da boa e velha mecânica orbital. Dificilmente John Frusciante teria dinheiro para alugar a Deep Space Network ou instalar estações de monitoramento no mundo todo. Mas, TUDO BEM, o importante é que o satélite esteja lá.

Não está.

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O vídeo oficial, mostrando o lançamento, é este aqui:

Record Collection — Sat-JF14

Por tudo que a gente aprende jogando Kerbal Space Program, devorando ficção científica e estudando, chegar no espaço é fácil, ficar é complicado. Chegar é só subir 100 km, dá pra fazer quase em um balão. Para entrar em órbita que o bicho pega. O foguete do vídeo tem tamanho pra chegar na Linha Karman, os 100 km de altitude que formalmente definem “espaço”. Mas nem por uma bergamota atômica ele tem condição de acelerar uma carga útil a 28.800 km/h, velocidade necessária para manter uma órbita baixa.

Mais ainda: o tal satélite é fechado com parafusos em um compartimento, e não há nenhum mecanismo de soltura visível. Não é assim que a banda, RHCP ou não, toca.

Fui investigar a tal empresa, a Interorbital Systems. Foi fundada em 1996 por Roderick e Randa Milliron (eu sei. QUEM?) e vêm trabalhando deste então para desenvolver uma linha de foguetes, inclusive querem competir no Prêmio X do Google, aquele de viagem à Lua.

aham

sonhar não custa nada

Os foguetes deles são baseados em um CPM — Common Propulsion Module. O NETUNO, que teria lançado o satélite do John Frusciante “existe” em 3 modelos: Netuno 30, Netuno 45 e Netuno 1000. O mais simples, o 30, tem 3 estágios e é composto de 5 CPMs. Isso aqui parece um foguete com essa descrição?

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Essa imagem é do mesmo lançamento do “satélite” do John Frusciante. Não há nenhuma imagem ou vídeo dos outros foguetes. Resolvi pesquisar a fundo. Escrevi uma GUI em Visual Basic para rastrear os IPs — mentira, fui no YouTube — e descobre este vídeo aqui:

GLXPsynergymoon — From Trailer To Sky - Interorbital Systems CPM Flight Test

É rigorosamente o mesmo do John Frusciante, menos as partes onde aparece o “satélite”. O vídeo é chamado “Vôo de teste do veículo de teste do CPM”. É um vôo onde testaram alguns sistemas do foguete que um dia será a base dos foguetes modulares deles. Humm… tem mais?

Tem.

Nesta página aqui, do próprio site da InterOrbital Systems, relatam o teste bem-sucedido.

O foguete decolou inicialmente guiado por cabos, depois entrou em modo balístico (eles ainda não têm licença para vôos controlados). Em teoria um CPM conseguiria levar 145 kg a uma altitude de 310 km — lembre-se, órbita é altitude + velocidade. A trajetória seria balística.

Como não estavam autorizados a ultrapassar 20 mil pés, esse seria o teto da operação, mas problemas no cálculo do centro de massa (passo por isso todo dia no Kerbal) fizeram com que não passassem dos 10 mil pés, uns 3 km, altitude de um vôo da Ponte Aérea. Depois disso o foguete caiu com estilo, foi recuperado com a carga intacta. A carga?

The following commercial payloads were on-board:

National Cheng Kung University (Taiwan)
M2M2SKY/Boreal Space (Brazil/California)
Google Lunar XPRIZE Team SYNERGY MOON (California/International)
John Frusicante’s (Red Hot Chili Peppers) album ENCLOSURE (The Record Collection, Malibu)

YES, crianças, o satélite do John Frusicante foi tão pro espaço quanto eu, quando vou cobrir algum evento em SP. Já posso dizer que meu Lumia faz streaming do espaço, pela lógica deles.

E YES, você leu corretamente, havia uma carga brasileira no foguete, o M2M2SKY, uma empresa que se propõe a um dia desenvolver satélites.

Pesquisando mais ainda, não há nenhum histórico de lançamentos no site da empresa, e se há uma coisa que esse pessoal aeroespacial gosta é de anunciar seus sucessos. A Wikipedia também não lista nenhum lançamento.

Portanto, é uma pena que tantos fãs e sites de tecnologia tenham sido enganados, mas não há satélite nenhum, exceto talvez na mesa do John Frusciante. Todo mundo que baixou o app está sendo feito de otário, você nada mais tem em mãos do que um streaming com timer. Enquanto isso o tal álbum conseguiu toneladas de mídia espontânea, mantendo viva a tradição de que ninguém nunca perdeu dinheiro apostando na ingenuidade alheia.

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